09/09/2018 às 08h39min - Atualizada em 09/09/2018 às 08h39min

Cidade da Música e o papel social da arte

Escola Municipal oferece cursos gratuitos para cerca de 700 alunos de diferentes faixas etárias

EDER SOARES
A diretora Raquel Gosuen com alunos do período da manhã na Cidade da Música | Foto: Eder Soares
Desde que abriu as portas, em junho de 2016, a Escola Municipal Cidade da Música vem iniciando o sonho de pessoas de todas as idades, não somente concretizando o desejo de se tornarem músicos, mas também ajudando principalmente os mais jovens a saírem da alienação de jogos e vícios disponíveis principalmente na internet. E o melhor, os cursos são gratuitos, possibilitando o acesso ao ensino da música a quem não poderia pagar. A escola, localizada no bairro Cidade Jardim, zona sul de Uberlândia, conta atualmente com cerca de 700 alunos com idades entre 4 e 80 anos, sendo a maioria alunos da rede municipal de ensino. Onze professores lecionam em horários entre manhã e tarde e cada aula tem 50 minutos.

Para quem quiser uma vaga é bom já se programar. As inscrições são abertas entre os meses de outubro e novembro. No momento, há uma lista de espera com 200 pessoas, chamadas mediante às desistências que podem acontecer. São oferecidos os cursos de flauta doce, violão, teclado, viola caipira, musicalização infantil e canto Coral. A diretora da Cidade da Música, Raquel Gosuen, garante que o dia a dia é agitado por lá e os alunos têm aproveitado muito bem as aulas. “Algumas desistências são normais, pois a música depende um pouco do dom e do gosto das pessoas por essa arte. Dependemos totalmente deste fluxo de pessoas para chamar quem está na espera. Tem aluno que sai com três meses e tem aluno que sai com um ano. Às vezes ele espera a vaga para outro instrumento”, disse Raquel que falou também sobre as preferências dos alunos.

“Os instrumentos mais procurados são o teclado e o violão. A flauta doce também tem muitos alunos e a viola caipira é outro instrumento que tem feito sucesso”, afirmou. A escola tem uma agenda mensal com apresentações principalmente em eventos e escolas do Município. “As apresentações são variadas. Os alunos adoram mostrar o que aprendem. Posso dizer que, no bom sentindo, a nossa agenda é bem tumultuada”.

Quem estiver fora da faixa etária que vai para nascidos até 31/03/2007, para os instrumentos, e até 01/04/2012 para a musicalização infantil, participa das oficinas. Raquel nota que que no dia a dia há alegria das pessoas em estarem inseridas dentro do universo musical. “Isso é de suma importância para a vida delas mesmo que não se torne um músico profissional. Fazer música traz um sentido muito importante para a vida de cada aluno”, afirmou Raquel.

INCLUSÃO
Convivência entre diferentes perfis valoriza a riqueza de cada um


A professora Karla Beatriz acompanha o aluno Alexandre Dias dos Santos | Foto: Eder Soares

Se tivessem que pagar pela mesma quantidade de aulas em alguma escola particular de música, cada aluno da Escola Municipal Cidade da Música gastaria pelo menos R$ 200 por mês, o que é inviável para muitas famílias. O aluno Alexandre Dias dos Santos, 41 anos, está na Cidade da Música desde a inauguração em 2016. Ele é autista e faz aulas de flauta doce Barroca. “Eu vejo a música um pouco além. Vejo como terapia de grupo. Então ela entra de acordo com a melodia. O ritmo que você impõe no instrumento e toda essa dedicação de alunos e professores se torna uma junção muito importante. Tudo isso só tem a somar. Eu acho que é importante você estar em uma área que você goste e que passe sentimento. Gosto muito daqui e da dedicação dos professores”, disse.

Karla Beatriz, de 34 anos, é professora de flauta e conta um pouco dos objetivos dos professores nas salas de aulas na Cidade da Música. “Atendemos alunos de todas as idades e essa diferença de classes sociais e gostos culturais é uma mistura muito legal, já que a nossa escola tem um foco na formação em música popular. Nosso aluno chega e escolhe aquilo que ele quer fazer aqui. Ao dar esta abertura, o aluno se sente mais estimulado a estudar. Ele faz com mais prazer e o desenvolvimento musical se torna mais acelerado”, disse Karla.

Francisco Arantes Filho, de dez anos, estava na lista de espera e faz aulas de violão há pouco mais de uma semana. A intensão é se tornar um grande instrumentista. “Eu fiquei esperando com ansiedade e saiu a minha vaga. Estou feliz, pois sempre quis aprender a tocar violão e agora tenho esta oportunidade aqui. Me dedico para aprender a tocar bem e ser um grande músico”, contou o menino que estuda na rede municipal de ensino.

Um dos grandes sucessos na Escola Cidade da Música são as aulas de viola caipira, ministradas pelo professor Pedro das Geraes. Nascido em Ituiutaba, ele vive em Uberlândia há 44 anos, onde se apresenta com alunos da escola. Pedro ainda tem fábrica, onde produz violas por encomenda. “Digo que trabalho com pessoas de 8 até 88. O neto chega e de repente traz o pai, que traz o avô e a gente coloca todo mundo para tocar junto. Acho que este é o grande objetivo da música. Destaco o crescimento do grupo, pois além da escola sempre fazemos apresentações fora daqui. Chamamos uma turma, umas 20 pessoas, e vamos para a casa de uma delas e todo mundo fica envolvido. A cultura caipira é assim e faz parte do aprendizado deles”, disse Pedro, que trabalha com viola desde 1969.

ESPECIALISTA
Universo musical ajuda na formação saudável da própria identidade


Cristina Goulart é cantora, psicóloga e mãe e tem contato com a música desde a infância | Foto: Mauro Marques/Divulgação


Cantora reconhecida em Uberlândia e pelo Brasil, Cristina Goulart, que também é psicóloga e mãe. Ela falou para a reportagem do Diário de Uberlândia sobre sua trajetória dentro da música e fez questão de destacar a importância desta arte principalmente na vida de crianças e adolescentes.

“Desde muito pequena lido com a música. Que eu me lembre com quatro, cinco anos. Minha família sempre foi muito musical e todas as nossas reuniões de celebração de algo eram regadas a cantorias, violões, violinos, acordeom e sempre ouvi minha mãe, meu irmão e meus tios cantarem ou tocarem algum instrumento”, disse Cristina, que destaca suas impressões sobre o poder da música sobre as pessoas.

“Percebo a música como um instrumento de transformação, através dela podemos nos comunicar, nos emocionar e encontrar diferentes perspectivas de vida. Nesse sentido, acredito que toda criança que tiver contato de forma bem orientada com o processo musical, além de ter a possibilidade de trabalhar seus hemisférios cerebrais de forma equilibrada, também terá uma condição de sociabilidade interessante e uma construção saudável da sua própria identidade”, afirmou a cantora.

Para ela não existe idade certa para quem quer cantar ou tocar algum instrumento. Todo aprendizado depende do tempo de maturidade daquele que aprende, e isso pode ser variável de criança para criança, e da disponibilidade e amor daquele que ensina. “Com a música também acredito que seja dessa forma. Não adianta você querer que seu filho ou filha cante, toque violão ou qualquer outro instrumento se ele ainda não tem a maturidade psíquica ou motora necessária p realizar o processo de aprendizado”, comentou.

Ao observar isso, é possível evitar que se torne algo penoso e mais tarde uma frustração para a criança. “Antes de cinco, seis anos acho complicado aprender violão, piano, pois as mãos ainda são pequeninas e exige uma força que ainda não estão acostumados a fazer. Faça sua parte em apresentar boas músicas, em compartilhar com seu filho e filha a celebração que a música pode ser, levá-lo para assistir pessoas tocando diferentes instrumentos e a partir daí observe como ele ou ela reage a esses estímulos e assim o encaminhe a aquilo que mais ele ou ela tenha demonstrado interesse ou aptidão”, disse Cristina.

Sobre os alunos com a faixa etária na casa dos 80 anos que estão na Cidade da Música, para a cantora é algo muito positivo. “O processo de participarem de algo que para muitos pode ser novo, já traz em si um frescor e uma possibilidade a mais de energia vital e por consequência saúde. Estarem juntos e em contato com crianças, jovens e adultos potencializa o compartilhar de experiências e conhecimento e isso nutre tanto as pessoas que já estão com seus 70, 80 anos quanto inspira os mais jovens a acreditarem que é possível começar algo novo ou continuar o que não se pôde realizar em determinado momento da vida”, finalizou a cantora.

ESCOLA MUNICIPAL CIDADE DA MÚSICA
700 alunos entre 4 e 80 anos
50 minutos de aula semanal
200 pessoas na lista de espera
11 professores
 
CURSOS
- Flauta Doce - Candidatos nascidos até 31/03/2007 - Manhã ou Tarde
- Violão - Candidatos nascidos até 31/03/2007 - Manhã ou Tarde
- Teclado - Candidatos nascidos até 31/03/2007 - Manhã ou Tarde
- Viola caipira - Candidatos nascidos até 31/03/2007 - Manhã ou Tarde
- Musicalização Infantil - Candidatos nascidos entre 01/04/2007 a 31/03/2012 - Manhã ou Tarde
- Canto Coral - Candidatos nascidos até 31/03/1998 – Tarde
 
ABERTURA DE MATRÍCULAS
Entre outubro e novembro

TELEFONE DE CONTATO: 3219-9323
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