02/09/2018 às 07h00min - Atualizada em 02/09/2018 às 07h00min

A força do corpo coletivo

Wagner Schwartz (foto), Maikon K, Elisabete Finger e a atriz trans Renata Carvalho apresentam “Domínio Público” em Uberlândia

ADREANA OLIVEIRA
Wagner Schwartz afirma que o leitor encontra na obra um outro Wagner | Foto: Mário Miranda Filho/Divulgação
Wagner Schwartz pode não ter o corpo fechado, mas tem um corpo forte. Em setembro de 2017 ele trabalhava no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo em mais uma de suas produções na qual o corpo é sempre o fio condutor da energia, da história, das dores, dos sonhos. A performance “La Bête” (“O Bicho”), inspirado na obra da carioca Lygia Clark, seria apenas mais uma a se colocar no currículo desse brasileiro nascido em Volta Redonda (RJ) e que praticamente se formou profissionalmente nos 10 anos vividos em Uberlândia. Porém, um vídeo postado ingenuamente na internet para que a pessoa compartilhasse com seus pares a beleza do que assistia tomou outros rumos.

Por conta da participação de uma criança na performance, que tocava o tornozelo do artista nu, Wagner sofreu o que chamam de linchamento virtual. E não ficou só nisso. Ele recebeu 150 ameaças de morte – todas registradas – e foi acusado de pedofilia. Por aqui, os amigos não acreditavam em tamanha injustiça contra um artista estudioso, premiado e de personalidade doce e questionadora.

Ontem, onze meses e seis dias depois do início desse linchamento, Wagner voltou a um dos palcos que o consagrou na cidade, o Palco de Arte, onde hoje ele retorna a encenar a peça “Domínio Público”. Ele não está sozinho. Acompanhado pelos performers Maikon K e Elisabete Finger e a atriz trans Renata Carvalho - que se apresenta amanhã no bloco 3M do Campus Santa Mônica com “O evangelho segundo Jesus, Maria do Céu”. Todos sofreram censura de suas artes de alguma forma. Elisabete é mãe da criança que participou de “La Bête” no MAM, amiga de Wagner.

“Nosso encontro aconteceu através do convite de Marcio Abreu e Guilherme Weber, curadores do Festival de Curitiba. Esta ação foi a mais importante para cada um de nós após os ataques. Ela nos ajudou a reavaliar as difamações artisticamente. Com este convite nos encontramos para trabalhar a violência em grupo. Quando somos ‘mais de um’ envolvidos em uma proposta, podemos contar com a perspectiva do outro sobre um mesmo caso. As soluções aparecem aos poucos, ganham consistência”, disse Wagner, em entrevista ao Diário de Uberlândia.

O convite para o trabalho foi feito em outubro de 2017 e foi desenvolvido a partir de janeiro por videoconferências, afinal, Wagner mora em Paris, Maikon K vive em Curitiba e Elisabete Finger e Renata Carvalho em São Paulo. Apesar de terem trabalhos distintos, Wagner afirma que em “Domínio Público” eles criam um corpo coletivo. “Talvez tenha sido a dor política que nos ajudou a construir esse corpo. A dor que não nos separa das pessoas, mas nos coloca de frente, ao lado, atrás de cada uma delas. A dor que inclui no próprio discurso a história de outros que fizeram algo pela expansão do mundo antes de nós. A dor que não quer ficar em casa, que precisa ir para a rua. A dor que não quer ficar sozinha, que procura uma festa, cheia de outros corpos dissidentes. A dor é o elemento central de nossa peça. Ali, ela está contextualizada”, explicou.

Ele afirma que em “Domínio Público” a violência é contida, a peça não fala sobre a violência, mas sobre seus efeitos. “Ela não reafirma o cenário dos ataques, mas expõe quatro corpos com histórias que se atualizaram a partir deste cenário. Articular um tema como esse é, também, articular uma comunidade de pessoas que defendem o direito de ir e vir em um país laico onde a censura não pode mais ser um assunto jurídico”, disse o artista que teve sua carreira projetada em Uberlândia.

“Vivi em Uberlândia durante 10 anos e a visito desde que me mudei para São Paulo e Paris. Todas as minhas criações passam por aqui. Sinto que tenho um compromisso político-poético com a cidade, mas, precisamente, o que me leva até ela é a amizade”.

“O CORPO SABE”
 
Questionado sobre “La Bête”, Wagner Schwartz não demonstra raiva de quem publicou o vídeo. “Essa pessoa frequenta galerias, teatros, museus e tinha a intenção de compartilhar o instante de uma performance da qual estava participando. Queria conversar com seus pares, mas o vídeo foi roubado por um grupo de profissionais que comercializa o ódio, viralizando-o como uma ameaça às suas convicções políticas e referências culturais”, explicou.
Agora para o artista não é tão doloroso falar do assunto apesar das 150 ameaças de morte documentadas que o fizeram alterar sua rotina por algum tempo. A acusação de pedofilia foi retirada, mas não teve a mesma repercussão do ódio nas redes sociais ou pedidos de desculpas.

“Esta é a realidade: entendi que a liberdade nas ruas é uma coisa desejada por quem anda por elas. Ela é difícil de construir. Existe uma diferença entre o Wagner antes do episódio e este, que está vivo. A diferença está estampada no meu corpo como aquele que reconquistou o espaço público e a potência criativa. Este momento de recuperação não será difundido como os ataques, pois nenhuma instituição pode lucrar com a expansão humana”, desabafou.
Durante o linchamento virtual a minha família e amigos cuidaram de Wagner. Aqueles que rapidamente ganharam a forma de amigos estiveram por perto escrevendo artigos em jornais, revistas e reagindo aos comentários falaciosos na internet ou em seu entorno. “Não sei o que a justiça tem feito com as pessoas e robôs que me caluniaram. Parece quea injustiça, neste caso, vai prevalecer, como tem prevalecido na História. Mas, se não há justiça que dê conta deste episódio, passamos ao ato: criar projetos artísticos que possam refletir sobre imposturas políticas”, destacou.

Ao ser indagado sobre quando percebeu que este acontecimento não destruiria sua vida, com a repórter citando a frase clichê: “o que não te mata te fortalece”, Wagner demonstra que ainda há empatia. Sua arte é sua vida e sua vida é sua arte. “Não existe um momento específico, ainda não consigo ser objetivo. A inteligência não chega em alguns lugares. Posso te responder com uma outra frase que também se tornou um clichê no meio artístico: “o corpo sabe”. Este episódio só não destruiu minha vida porque meu corpo entendeu os ataques como parte de um processo subjetivo, político significativo para este momento crítico que figura no Brasil e no mundo. Este episódio também tem agrupado pessoas que foram difamadas na História e na arte. Hoje, nos conhecemos. Somos muitos e estamos conectados”.

LITERATURA
Imersão no mundo de um “brasileiro francês”


Wagner Schwartz afirma que o leitor encontra na obra um outro Wagner | Foto: Mário Miranda Filho/Divulgação


Wagner Schwartz fez sua estreia também no mundo literário. “Nunca juntos mas ao mesmo tempo” (Editora Nós), que teve lançamento em Uberlândia na última sexta-feira (31), é um que vinha sendo gerado desde 2005, quando Wagner foi convidado pelo coreógrafo francês Rachid Ouramdane para trabalhar na criação de um de seus novos espetáculos que iria estrear no Centre Georges Pompidou.

Desde o convite, o brasileiro vive no Brasil e na França, mais especificamente e São Paulo e Paris. “Gosto de dizer que vivo ‘em’ um lugar ‘e’ outro, e não ‘entre’ um lugar e outro. A escolha de estar aqui ‘e’ ali, me deu de presente esta unidade vertiginosa que é ser estrangeiro. Nos primeiros anos que morei em Paris, não falava francês, trabalhávamos em inglês, e, na minha cabeça, não imaginava que um dia a França seria também minha casa. Em 2009, durante a criação de um novo espetáculo com o mesmo coreógrafo, dessa vez, a convite do Festival de Avignon, a oportunidade de viver e trabalhar nos dois países foi ganhando consistência”, explicou Wagner.

Ele conta que para aprender a língua local comprou um livro didático, começou a escutar os primeiros discos do Serge Gainsbourg com mais atenção e a ouvir a rádio France Culture diariamente. Em 2012, percebeu que sua entrada na língua seria feita através de um projeto autoral. “Comecei a escrever um texto, como geralmente faço para as minhas criações, como fiz para o espetáculo ‘Piranha’. A necessidade de escrever foi aumentando, como a necessidade de ser Wagner em outra língua. Convidei uma artista, Béatrice Houplain, para me acompanhar na tradução do livro em francês. Ela não falava e ainda não fala “brasileiro” – como geralmente nomeiam nosso português. Nos víamos semanalmente para conversarmos sobre o texto que ia surgindo no seu tempo de texto e de experiência estrangeira. Hoje, depois de 6 anos de trabalho, Béatrice se tornou minha melhor amiga francesa, e o livro ganhou dois idiomas”, sintetiza.

Para Wagner, a palavra cria imagens diferentes daquelas geradas pela dança. A palavra convida o leitor a se distanciar, a estar só, a olhar para dentro, a inventar vozes e corpos para quem virou escrita no romance, a arquitetar os lugares por onde passam. “Com o livro, gostaria de conversar intimamente com o leitor. É uma coreografia de impressões, um texto em movimento, um romance escrito em verso com elipses, espaços em branco, gestos inacabados. É um livro-corpo sensorial, erótico, que busca um leitor-corpo para poder existir. O espaço interior é mais cênico que geográfico. A voz mais fala que escrita. O paralelo está aí, na recorrente assimilação de universos distintos onde dança e escrita se confundem”.
 
A receptividade nos eventos de lançamento agrada o autor que já o lançou na Festa Literária de Paraty (Flip), em São Paulo, no Rio de Janeiro, Salvador, Brasília, Goiânia e depois de Uberlândia segue para Belo Horizonte. O lançamento em Paris acontece também neste ano. “Tem sido uma aventura este lançamento. Muitas pessoas que conheciam meu trabalho têm encontrado no livro, um autor diferente daquele que está em cena, pois no livro o corpo em evidência não é de quem que escreve, mas de quem que lê”, afirmou.
 
SERVIÇO 1
 
O QUE: espetáculo “Domínio Público”
QUANDO: hoje, às 20h
ONDE: Palco de Arte (Rua Coronel Manoel Alves, 22, Fundinho)
INGRESSOS: R$ 40 inteira e R$ 20 meia
CLASSIFICAÇÃO: 14 anos
INFO.: 3236-5056
 
SERVIÇO 2
 
O QUE: espetáculo “O evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu”
QUANDO: amanhã (3), às 20h
ONDE: Bloco 3M do Campus Santa Mônica
INGRESSOS: Entrada Franca
CLASSIFICAÇÃO: 16 anos
INFO.: 3236-5056
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