16/08/2018 às 10h04min - Atualizada em 16/08/2018 às 10h04min

Escritora estreia na literatura aos 87 anos

Prestes a completar 87 anos, a escritoa mineira Eufélia de Pádua lançará seu primeiro livro amanhã (17)

STELA MASSON | JORNALISTA*
Eufélia mora em Uberlândia e já escreveu romances, poesias e letras de música | Foto: Divulgação
Eufélia me recebe no jardim de sua chácara e, ao me pegar pela mão, pergunta: você leu o meu livro? Sim, respondo, fiz a revisão. E qual é o último parágrafo? Constrangida, digo que não me lembro. Ela continua caminhando e me leva até um pé de ipê branco. “Andando com os pés sujos de terra e cheirando o ar, sentiu que a chuva ainda estava longe, pois o Ipê branco ainda não havia florido”, relembra a autora, apontando para as primeiras flores de ipê branco brotando no galho fino. “A chuva já está chegando”, ela garante.

Fã de Guimarães Rosa e Érico Veríssimo, Eufélia de Pádua é autora de romances, poesias e letras de música, mas só terá sua primeira noite de autógrafos na sexta-feira (17), às vésperas de completar 87 anos (18 de agosto).
Lúcida e questionadora, a autora lança um romance autobiográfico, com estilo de realismo fantástico: em sua obra, seis dos seus netos fazem uma viagem no tempo para o ano de 1942, quando ela tinha 10 anos de idade. Assim, os netos se tornam amigos da vovó menina e vivenciam fatos reais ao lado dos irmãos dela, e também dos primos, pais, avós, tios, amigos e, enfim, de todos aqueles que povoavam o dia a dia da família naquela época.

A primeira parada dos garotos no tempo da avó menina é no distrito de Guardinha, de São Sebastião do Paraíso, no interior de Minas Gerais, em plena Segunda Guerra Mundial. Como eles conseguem essa façanha? Levados por um cavalo e um cachorro mágicos. Lá chegando, os netos entram numa realidade em que pouco dinheiro, família numerosa, muito trabalho e nenhum desperdício faziam dessa época um tempo quase sem lixo. Com hortas, pomares, galinhas e porcos no quintal, os restos de comidas e verduras iam para as criações, o cocô de galinha virava esterco, os ovos eram colhidos todos os dias, e os porcos davam a carne e a banha para a alimentação.

Apesar de criar histórias povoadas de personagens com perfis marcantes, Eufélia Pádua se considera uma pessoa descrente das verdades estabelecidas pelo homem. Ela tem no livro “Grande Sertão Veredas”, de Guimarães Rosa, “uma bíblia”, e se identifica com o jagunço Riobaldo, que no romance não sabe se vendeu a alma ao diabo, como as evidências levam a crer. “Ele duvida. E eu sou uma pessoa que duvida muito. Será que não somos simplesmente iguais a qualquer bicho, mas com uma evolução maior?” Outra coisa de que ela duvida é que tenha herdado o talento da escrita de seus antepassados. “Quando eu era criança, na minha cama tinha uma fenda, e dentro dela, uma cidade com castelo, casa, rio. De onde é que tirei isso?”, questiona.

Talvez a resposta esteja nas entrelinhas da história de enredo fantástico e cativante com a qual ela nos envolve na obra que ora teremos acesso. Ou ainda, no espaço imenso que a natureza perfeita, mas repleta de mistérios, ocupa em sua mente criativa e inquieta.
 
SERVIÇO
O QUE: “Lançamento do livro “Memórias da vovó Eufélia – um tempo sem lixo “ (Êxito Editora, 267 páginas, R$ 35)
QUEM: Eufélia Pádua, que estará presente para noite de autógrafos
QUANDO: sexta-feira (17), às 19h
LOCAL: Livraria Leitura (Uberlândia Shopping)
ENTRADA FRANCA
INFORMAÇÕES: 3225-1717

*ESPECIAL PARA O DIÁRIO
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