09/07/2018 às 12h32min - Atualizada em 09/07/2018 às 12h32min

Um sonho em construção

Bocaina Park alia sustentabilidade e aventura para retomar o sentido de comunidade na serra araxaense

ADREANA OLIVEIRA | EDITORA
Minas Gerais e suas montanhas inspiram músicos, poetas e escritores. Mas não é só a arte que esse “mar de pedras” movimenta. O turismo de aventura conectado à sustentabilidade e ao desenvolvimento pleno de uma convivência em comunidade mobiliza jovens araxaenses que encontraram na Serra da Bocaina, a cerca de 30 km do centro de Araxá, cidade que fica a 177 km de Uberlândia, o lugar perfeito para construir um sonho.

E esse construir significa, inclusive, mover e quebrar muitas pedras para possibilitar a um maior número de pessoas uma experiência, no mínimo, inesquecível. Há 15 anos, o educador físico Diego Leonardo Alves Souza, o agrônomo Laurêncio Caetano da Silva Júnior e o administrador Alexandre Cordeiro começaram o projeto do Bocaina Park, lugar para receber aventureiros de todo o Brasil com segurança e uma estrutura que, hoje, já consegue surpreender os visitantes. Quartos, chalés, área de alimentação comum e uma lanchonete fazem parte do simples, porém eficiente complexo. Os sócios atuam também nas áreas de arquitetura, jornalismo e administração. “Cada um colabora com o que pode no parque”, disse Diego.

“Fazemos parte da primeira geração de escaladores aqui de Araxá. Nesse espaço, percebemos que é possível compartilhar a experiência não só de escalada para profissionais e amadores como também aproveitar a estrutura para caminhada, corrida, bike, high line e tracking”, disse Laurêncio, que já recebeu turistas e esportistas de todo o Brasil e também estrangeiros.

Durante dois anos da construção do Bocaina Park, Laurêncio praticamente se mudou para o local e ficou encantado com a energia do lugar. Tão encantado que nomeou a própria filha, de três meses, de Ísis Bocaina. “O que fazemos aqui não é só uma área para camping, festas e turismo de aventura. É a construção de uma comunidade autossustentável que conta também com o projeto de uma agrofloresta”, contou.

Diego mostra o início de uma construção que chamam de “Casa dos Guardiões”, lugar onde pessoas ligadas ao parque poderão morar. Ao todo, serão dez vagas. “Não é algo que fica para o guardião, ele fica ali o tempo que quiser e quando precisar se mudar, o espaço fica para outro. Todo o investimento aqui é nosso, não temos ajuda de nenhuma instituição pública ou privada e nos orgulhamos disso”, disse Diego.

Ele tem uma empresa de esportes radicais, também frequentada por Laurêncio. Eles já escalaram montanhas em diferentes estados do Brasil e no exterior, mas é na Bocaina que se encontram. “Experiência nós temos para compartilhar e quem vier aqui vai sentir isso de um jeito muito particular”, disse o escalador e educador físico.


                               É possível ver a estrutura do Bocaina Park no centro da foto (Adreana Oliveira)

SUBSISTÊNCIA

Diego Leonardo e Laurêncio Castanho afirmam que, apesar de terem adquirido a área, o acesso a ela deve ser livre, para qualquer pessoa desfrutar. A manutenção é feita por meio de eventos realizados por eles, como o Rock Bocaina (que acontece em outubro deste ano e marca um ano de abertura do parque) ou o Forró no Bocaina Park. “Abrimos também para grupos que chegam com diferentes fins. Alguns precisam somente da área de camping, outros querem passar o final de semana com a família e contar com nossa estrutura de alimentação e acomodação e outros querem mesmo aventura. Por exemplo, ultimamente temos recebido muitos pedidos para preparação de comida vegana e nos preparamos para isso”, disse Diego.

A partir do primeiro contato, eles traçam as melhores opções para o grupo e depois discutem preços. “Tudo o que conseguimos com eventos e esses pacotes vem para o parque. A ideia é que o lugar seja autossustentável e para isso temos ações em andamento”, afirma Laurêncio.

Em tempo, em breve o Bocaina Park deve ganhar um novo parceiro. A rede Tauá Resorts, que administra o Grande Hotel de Araxá, conheceu o projeto dos “meninos” e vê possibilidade de parceria. Eles podem vir a oferecer ao cliente corporativo do hotel uma experiência diferente e única para os funcionários, em um trabalho de team building junto com os profissionais do Bocaina Park. Dessa forma, o hotel cumpre também o papel de fortalecer Araxá como destino de turismo corporativo e de lazer.
 
Em um breve percurso de aproximadamente 20 metros rumo a um dos picos da Serra da Bocaina, em meio à vegetação que tem trechos de Mata Atlântica e Cerrado, a presença do homem é quase imperceptível, mas existe. “Muitas dessas pedras que você pode ver na trilha, nas laterais, nós trouxemos e colocamos para evitar o desgaste do trecho”, disse Laurêncio Caetano da Silva, um dos responsáveis pelo parque. A área foi toda mapeada e tem cerca de 200 diferentes acessos.

Algumas escadas também ajudam a quem não tem a mínima experiência com escalada. A repórter, caso tivesse sido informada do caminho a ser percorrido, não acreditaria que chegaria tão longe. Nesse ponto, Laurêncio e Diego Souza, outro responsável, afirmam que é preciso nivelar muito bem as pessoas para que a experiência seja realmente enriquecedora. “Isso faz toda a diferença porque não é justo colocar um amador no mesmo circuito de um profissional e esperar um bom desempenho. Assim, evitamos frustrações e cada um faz seu percurso da melhor forma possível”, disse Diego.
Sentir a vegetação sob os pés, tocar nas pedras, parar para descansar diante de um paredão histórico e simplesmente ficar em silêncio, contemplando o espaço, ajudam a colocar a cabeça, o corpo e o coração em plena harmonia.
 

Campos abertos facilitam a prática de voo livre no Horizonte Perdido (Adreana Oliveira)
 
Não muito distante do Bocaina Park está o Horizonte Perdido, área utilizada para prática de voo livre. Junto com o empreendimento de Diego, Laurêncio e seus sócios, o esporte também deve ganhar mais adeptos em Araxá.
Vitor Cassiano Borges, empresário, começou a saltar de paraglider há seis meses e se lembra que no primeiro voo teve a melhor sensação do mundo. “Quero fazer isso todos os dias, mais de 10 mil vezes se possível. É algo que vicia”, afirmou.

Ao seu lado decolou Daiex de Almeida, mais conhecido como Guerreiro, segundo Diego, o único atleta a realizar voo duplo na cidade. “O que ele faz precisa ser mais divulgado e vamos ajudar nisso”, disseram Laurêncio e Diego.
Outro ponto também visitado em uma temporada pela Serra da Bocaina é a cachoeira Argenita. “Temos cobrado da Prefeitura de Araxá a melhoria dos acessos para todos esses pontos turísticos. As estradas em boas condições ajudam ainda mais a fomentar esse tipo de turismo de aventura e ecológico e todo mundo ganha”, disse Laurêncio.

E os frequentadores parecem estar respeitando o lugar. Durante a visita, a reportagem notou a ausência de lixo em todo o trajeto do parque. “As pessoas que vêm para cá já têm uma consciência ambiental e sabem da importância do descarte correto do lixo e da preservação do lugar, que conta ainda com muitas nascentes que temos que proteger”, disse Diego.
 
SERVIÇO
Para saber mais sobre o Bocaina Park e tirar dúvidas com os administradores acesse o site oficial e o Instagram do parque.
 
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