03/07/2018 às 07h42min - Atualizada em 03/07/2018 às 07h42min

É preciso se conectar com o presente

Festival literário na cidade mineira é marcado por ricos debates e aproximação entre autores e leitores de todo o país

ADREANA OLIVEIRA | EDITORA
Adreana Oliveira
Um ambiente cercado por livros, música e contação de histórias é propício às mais variadas discussões, todas de altíssimo nível. Nas entrelinhas, o recado é direto: um país que não lê, que não tem memória e que não combate a injustiça é atrasado, mesmo que figure entre as dez maiores economias do mundo. O Brasil, em ranking divulgado pelo FMI no ano passado, ocupava o 8º lugar. Porém, conforme muitas mesas, debates e conversas com escritores, filósofos, sociólogos, historiadores e jornalistas durante a 7ª Fliaraxá, temos pouco o que celebrar.

O jornal Diário de Uberlândia acompanhou grande parte da programação do festival literário mineiro que caminha a passos largos para tornar-se o maior do Brasil. O foco da mesa “Ser republicano no Brasil Colônia: A história de uma tradição esquecida” discutiu o trabalho da historiadora e escritora Heloísa Starling com participação do escritor Sérgio Abranches e do jornalista e professor Eugênio Bucci. Para Abranches, o Brasil despreza sua história e Heloísa tirou o véu da invisibilidade dessas lutas que contam com “pessoas extraordinárias”. Bucci falou sobre a importância da memória. “O escritor trabalha contra o esquecimento”.

Ainda dentro desta temática, Heloísa Starling participou ainda da mesa “Conflitos: Fotografia e violência política no Brasil” ao lado de Heloísa Espada, Angela de Castro Gomes e da cientista política Angela Alonso que trabalharam juntas em um livro de mesmo nome que cobre o período de 1889 a 1964 no qual guerras civis e conflitos armados muitas vezes ignorados pela maioria da população. “A execução da vereadora Marielle, no Rio de Janeiro, figuraria em qualquer livro sobre violência política no Brasil, assim como os registros de 1938 em que Lampião e seu bando foram degolados. O Estado brasileiro não é tão pacífico quanto pregam”, disse Heloísa Starling. Para elas, o padrão de conflito perdura, mesmo o país estando, teoricamente, mais civilizado.

A mesa “O país da delicadeza perdida”, com os escritores Marcia Tiburi e Nilton Bonder, teve mediação de uma das homenageadas desta edição da Fliaraxá, Leila Ferreira. Para Marcia Tiburi, a delicadeza está na atenção ao outro, mas a delicadeza não deve ser confundida com docilidade. “Tenho conversado muito com a Bruna Silva, mãe de Marcos Vinícios, menino morto enquanto ia para a escola no Rio de Janeiro. A imagem dela com a camiseta de uniforme ensanguentada do filho sob o caixão não sai da minha cabeça. É uma cena inominável, mas de uma clareza que reflete o peso desse horror que vivemos. Ou os donos do capital, dos meios de produção, começam a refletir ou não sobra pedra sobre pedra”, afirmou a filósofa que sairá candidata ao governo do Rio pelo PT nas próximas eleições.

O escritor Marcelo Rubens Paiva e a jornalista Eliane Brum também participaram de mais de uma atividade na Fliaraxá. Foram escalados pelo curador Afonso Borges para responder à pergunta: O que nos mantém no Brasil? Para Marcelo, que começou na literatura em 1982 com o livro “Feliz Ano Velho” - que conta a história do acidente que o deixou tetraplégico – a vontade de deixar o país é algo cíclico. “Foi assim na ditadura, no período de recessão em que tivemos dinheiro retirado de nossas contas, é assim agora. Mas eu sai e voltei e posso dizer que o que me mantém no Brasil são os brasileiros”, afirmou ele, autor de mais de dez livros e roteiros para cinema e peças teatrais.

Eliane Brum, que atualmente mora em Altamira (PA), onde está sendo construída Usina Hidrelétrica de Belomonte, às margens do Rio Xingu, diz que não se trata atualmente de ser otimista ou pessimista, ter ou não ter esperança. “Convivo muito com a comunidade ribeirinha. O rio é a vida delas, quando tiram o rio delas o que fica? O que me faz permanecer aqui são movimentos como o dos Sem Teto, que questionam a condição de mercadoria de um lar e dos povos da floresta que lutam por algo que devia ser uma luta de cada um de nós”, disse a jornalista. Eliane frisa ainda que a esperança é supervalorizada e a alegria é um ato de resistência profundo. “Vivemos muitas crises além da econômica. Temos a climática que também é urgente. O que a gente sabe fazer é pouco precisamos fazer diferente”, comentou.

A próxima Fliaraxá já tem data marcada, será de 29 a 23 de junho de 2019.

MOMENTOS
A Fliaraxá contou com espaço gastronômico, espaço para crianças e muita música, além da grande livraria que atraia leitores de todas as idades. Muitos uberlandenses prestigiaram o evento, como a reportagem do Diário conferiu. Mas o evento também atraiu outros mineiros e leitores de diferentes cidades brasileiras.

Vitor Marzola Machado tem sete anos. Foi alfabetizado no ano passado e adora ler. Ele estaa na Fliaraxá para ver de perto seu autor favorito, Pedro Bandeira. “Foi muito legal estar do lado ele. Meu livro favorito dele é '”, afirmou. A mãe dele, a administradora Mariana Ávila Carneiro, é uma incentivadora. “Faz diferença sim ler para uma criança desde muito novas, assim mostramos novas possibilidades para eles”, contou.

Eles são de Uberaba e foram pela segunda vez para Araxá especialmente para o festival literário. No ano passado, na escola de Vitor, ele e os colegas estudaram as obras dos escritores Pedro Bandeira, Ana Maria Machado e Mário Quintana e a escola os incentivou a ir.

A escritora e contadora de histórias infantis uberlandense Fernanda Oliveira, também conhecida por seu canal no YouTube Fê Liz, foi uma da atrações da Fliaraxá. Aguardava um momento com o escritora Pedro Bandeira quando foi abordada por um grupo de fãs muito animadas. “Nossa é ela!... Parece uma boneca”...”, diziam. Uma delas era Rosânia Souza, coordenadora do Clube de Incentivo à Leitura de Araxá que já conhecem faz tempo o trabalho da uberlandense. “Ela conta histórias, canta e os meninos adoram”. Para Fernanda, o trabalho de booktuber é muito solitário e momentos como este fazem tudo valer a pena. “Ter esse contato com eles é que me move”, disse.

A araxaense Mariana de Ávila Carneiro, estudante de Direito, tem 20 anos e frequenta a Fliaraxá desde a primeira edição. O gosto pela leitura veio no Ensino Médio e nunca mais parou. “A gente sai do lugar vivendo com os personagens e eventos como Fliaraxá fazem muita diferença porque aproxima a gente dos autores”, conta ela que pela primeira vez perderia um encontro com a escritora Paula Pimenta por causa do trabalho.

SEM MEDIAÇÃO

“Mastigando autores” foi um dos grandes acertos do festival literário mineiro
O 7º Fliaraxá, que aconteceu entre quarta-feira (27/6) e domingo (1º/7) nas dependências do histórico Tauá Grande Hotel, aproximou leitores e escritores em uma iniciativa inédita, o “Mastigando autores”. Sem a presença de mediadores ou pautas definidas, esses momentos foram marcados por emoção, humor e cumplicidade.

Pedro Davi Oliveira, estudante, mineiro, 15 anos, leitor assíduo. Pedro Bandeira, santista, escritor e professor, quase 50 livros publicados em 40 anos de uma carreira dedicada à literatura infanto-juvenil. O caminho desses dois se cruzou na Fliaraxá.

Pedro Bandeira falou a uma plateia majoritariamente formada por professores. “O Brasil nunca recebeu uma boa educação. Mas é preciso acreditar que podemos mudar isso, é preciso incentivar cada vez mais a leitura que dever vir de berço. Um país que quer progredir não pode ter crianças que começam a ter contato com livros somente na escola. Os países mais desenvolvidos do mundo são aqueles que investiram na leitura, na educação, sempre”, disse o escritor.
Na plateia, o jovem Pedro Davi contou sua experiência. Ele mandou um e-mail para Afonso Borges, curador da Fliaraxá, pedindo ajuda para ir ao festival e conquistou a simpatia e o apoio dele. Pedro tem 15 anos. Nasceu em Varal, cidade mineira próxima a Teófilo Otoni. Atualmente mora em Ipatinga e não vem de uma família de leitores.

“Nunca tive incentivo, nem mesmo da diretora da escola. Fiz uma campanha e com a ajuda de autores consegui arrecadar quase 500 livros para a biblioteca da minha cidade natal, que era muito pequena, sinto falta desse incentivo. Mas estar aqui hoje mostra o quanto podemos fazer para realizar nossos sonhos e estou muito feliz por estar aqui”, afirmou o estudante, que emocionou o escritor.

A sala estava lotada para ouvir Leonardo Boff. O teólogo, filósofo e escritor catarinense, além de participar de outros debates, também foi ouvinte de muitos outros. Por onde passava, recebia olhares e palavras de admiração. Recentemente ele lançou “Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência?" e comenta. “O Brasil parece um avião sem piloto, mas o livro não é somente sobre isso, é sobre jogar uma luz, buscar soluções que sejam possíveis geográfica e humanamente. Duas coisas podem mudar isso: a ecologia e a cultura do brasileiro. O pensamento de ‘Casa Grande e Senzala ainda prevalece na nossa sociedade e precisamos rever isso para que um país tão rico tenha tantos pobres”.

A matriarca da família Klink, Marina Wolff Bandeira Klink, se emocionou ao contar sua trajetória de produtora de eventos a viajante, fotógrafa e escritora. “Em nossas incursões pela Antártica, que já foram sete, aprendemos que não existe o ‘jogar fora’. Precisamos cuidar dos oceanos e a literatura infantil é minha forma de ajudar ainda mais nessa cruzada”, disse ela ao falar sobre “Vamos dar a volta ao mundo?”, seu primeiro livro infantil que será lançado neste ano.

O simpático mexicano Juan Pablo Villalobos fez um bate-papo descontraído com seus leitores. Ele, que há 15 anos saiu de seu país, morou no Brasil e está radicado em Barcelona, falou que não tem um método de criação, cada um de seus quatro livros surgiu de uma forma. Sobre a atual crise de imigração que paira principalmente sobre a Europa, ele afirma não ser nada novo. “Já acontece há muitos anos. Agora, com as redes sociais, tudo fica mais visível, comove as pessoas mas por pouquíssimo tempo, até que outras manchetes ganhem espaço e não sei qual será”, disse ele.

Como imigrante, ele fala dos desafios. “Saí do México porque ali não conseguiria evoluir como escritor. Porém, lá sempre será meu lar. Você perde seu país e não fica completamente adaptado ao outro. É uma situação complica com a qual já me acostumei”, disse o autor do recém-lançado “Ninguém precisa acreditar em mim” que afirmou que o Grande Hotel de Araxá é “lindo e estranho”, cujo ambiente renderia um bom romance policial.
 
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