07/05/2018 às 09h09min - Atualizada em 07/05/2018 às 09h09min

Streaming: de ameaças a parcerias com gravadoras

Plataformas como a Spotify geram pela primeira vez maior lucro da indústria fonográfica

SILAS MARTÍ E AMANDA NOGUEIRA | FOLHAPRESS
O sueco Daniel Ek, idealizador do Spotify, que acaba de listar ações na Bolsa de Nova York | Foto: Jason DeCrow/Spotify/Divulgação
 
Quando caminha pelas ruas de Estocolmo, Daniel Ek costuma puxar o chapéu na frente do rosto para não ser reconhecido. Mas fugir dos holofotes vai ficar cada vez mais difícil para esse empresário que inventou o Spotify.

O criador do aplicativo de música que acaba de listar ações na Bolsa de Nova York já tinha a fama de revolucionar a indústria fonográfica, mas o mercado agora deve examinar com lupa as estratégias do empresário sueco.

Em 12 anos, o Spotify deixou de ser a maior ameaça para se tornar talvez o maior parceiro das gravadoras, cortejadas por Ek desde o início para entrar na plataforma de streaming com seus artistas.

Desde que criou a empresa, o executivo descrito por muitos como o típico nerd travou longas negociações para mudar o comportamento dos chefões da indústria musical, que viu seu faturamento encolher quase à metade desde a virada do milênio.

Queria que aceitassem um modelo de negócios que, ao que tudo indica, veio para ficar. E o ponto sobre o qual nunca abriu mão era manter o serviço gratuito para usuários que não se importassem em ouvir alguns comerciais.

Mesmo rendendo menos para a plataforma e os artistas que cedem suas faixas para tocar ali, a ideia de oferecer o serviço de graça para alguns atrai bem mais usuários.

O Spotify, com 35 milhões de canções em seu catálogo, tem 159 milhões de clientes, dos quais 71 milhões pagam para ter o serviço.

Em encontros com investidores às vésperas da oferta dos papéis na Bolsa, Ek vinha defendendo o que faz no Spotify como um "trabalho árduo para ajudar 1 milhão de artistas a viver da arte que fazem".

Mesmo que pareça meio utópico, o empresário talvez se enxergue nos artistas que quer ajudar. Na adolescência, Ek tocava violão e criava softwares para ganhar dinheiro.

O sucesso do Spotify na Bolsa pode ainda detonar uma onda de novas aproximações entre Ek, músicos e investidores, que enxergam dólares e mais dólares no logo esverdeado da plataforma.
 
APOSTA

Em busca dos gloriosos dias do rádio

Os dias gloriosos do rádio podem estar de volta, agora num aplicativo. Um executivo do Spotify fez essa comparação ao anunciar mudanças para turbinar o serviço grátis do aplicativo, semanas depois da estreia da plataforma na Bolsa de Nova York.

"Estamos dando algo em troca de nada, é a melhor oferta possível. Sabemos que isso vai proporcionar mais crescimento", disse Gustav Söderström, no lançamento da nova versão de graça do Spotify, numa casa de shows em Manhattan. "É bom lembrar que não eram as rádios ruins que faziam as pessoas comprarem os discos no passado."

E o Spotify quer ser tudo menos uma rádio ruim. No novo modelo, os usuários que não pagam pelo serviço ainda terão de ouvir anúncios de vez em quando, mas poderão montar listas de faixas para ouvir como e onde quiserem e terão acesso a mais de 40 horas de música recomendada pelo aplicativo por dia.

De acordo com executivos da marca, novos investimentos em inteligência artificial permitiram criar recomendações mais precisas e adequadas ao gosto de cada cliente.

"O toque humano ainda é muito importante, mas não tem a escala para atingir milhões de usuários", diz Söderström. "Encontramos uma forma de traduzir para os algoritmos o conhecimento musical de pessoas que já têm uma rede de artistas montada na cabeça ao longo dos anos.

Uma nova tecnologia também vai diminuir o volume de dados usados pelos clientes quando ouvirem música sem uma conexão wi-fi, um dos maiores entraves para o avanço do Spotify em mercados emergentes, onde o tráfego de dados custa mais caro.

Estimativas da plataforma apontam para uma economia de até 75% no volume de dados usados para ouvir música. "Só controlamos o preço do Spotify, mas não podemos controlar os limites dos planos de dados dos clientes", diz Babar Zafar, outro executivo da empresa. "Não queremos que quando usam o serviço eles se preocupem com isso. Estamos ajudando nossos fãs a não estourar seus gastos."

Diretores do aplicativo não deram detalhes sobre como a expansão da plataforma grátis pode gerar lucro para os artistas, mas disseram que o mercado só deve aumentar com as mudanças e que todo o conteúdo criado em parceria com músicos e gravadoras estará disponível para todos os clientes, não só assinantes que pagam.

Mesmo rendendo menos para a plataforma e os artistas que cedem suas faixas para tocar ali, a ideia de oferecer o serviço de graça para alguns atrai bem mais usuários.

PÚBLICO JOVEM

O esforço da plataforma agora é expandir sua base de usuários. Executivos lembram que 60% dos assinantes que pagam se tornaram clientes da versão grátis primeiro e que a maioria deles é jovem. Troy Carter, que gerencia as parcerias do Spotify com artistas, diz que o investimento na versão gratuita do aplicativo, que antes desagradava as gravadoras, agora faz mais sentido, porque os usuários mais jovens acabam fazendo deslanchar carreiras e a versão grátis já é mais rentável para a indústria musical.

"É compreensível que alguns artistas precisavam ser convencidos que os usuários de graça eram tão importantes quanto os pagantes. Dez bilhões de vezes por mês alguém ouve uma música de um artista que não conhecia", afirma Carter. "Essa é a maior rádio da história do mundo." 
 
AMÉRICA DO SUL

Brasil tem sido um gigante adormecido, diz executivo

"Acho que o Brasil tem sido um gigante adormecido por anos e acho que o próximo grande hit da América Latina a estourar globalmente virá do Brasil", afirma Jesús López, CEO da Universal Music na América Latina e Península Ibérica, no Global Music Report 2018.

Segundo o relatório da Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), principal mapeamento do setor, a receita do país cresceu 17,9% em relação ao ano anterior, arrecadando R$ 943,6 mi (US$ 295,8 mi). Assim, o Brasil, que é o maior mercado da América Latina, se recupera de uma retração de 3% em 2016.

O mercado global, por sua vez, cresceu 8,1% e faturou R$ 55,2 bi (US$ 17,3 bi), marcando um crescimento pelo terceiro ano consecutivo, após uma década em queda.

O maior responsável pelo progresso foi, segundo a IFPI, o streaming, modalidade de música digital que se tornou a maior fonte de receitas com 176 milhões de assinantes ao redor do mundo. Plataformas como Spotify, Appple Music e Deezer geraram R$ 21 bi (US$ 6,6 bi) para o setor, representando 38,4% da receita total.

"Os últimos dados da IFPI mostram claramente que o streaming continua sendo o maior condutor de toda a receita da música gravada, apesar do fato de que sua penetração ainda é relativamente baixa pelo mundo", disse Hans-Holger Albrecht, CEO da Deezer, em comunicado à imprensa.

Para Paulo Rosa, presidente da Pró-Música Brasil, o potencial de crescimento do streaming ainda é enorme, especialmente no Brasil. "Se você levar em conta que a gente tem em torno de 5 milhões de assinantes de streaming no Brasil, em um universo de 180 milhões de smartphones, para não falar de tablets e computadores, ainda existe um mercado a ser explorado por essas plataformas", disse.

Apesar do crescimento, a receita do setor global ainda corresponde a 68,4% da que o mercado faturou em 1999, auge da indústria fonográfica. Uma projeção da Goldman Sachs divulgada em agosto de 2017, a indústria deve se recuperar até 2030.

Rosa, no entanto, diz que prefere se ater aos dados atuais, já que o mercado muda a cada dia com evoluções tecnológicas. "Voltar aos níveis de 1999 é totalmente possível, mas depende do que acontecer nos próximos anos. Qualquer aposta envolve um pouco de especulação, de futurologia", comentou.

Até que se reestabeleça como nos tempos áureos, a indústria se articula contra a violação de direitos autorais, por melhores remunerações e aposta em experiências com realidade virtual e aumentada.

"Elas ainda não são propriamente uma realidade", diz Rosa. "Mas é uma possibilidade, você pode ter um produto com o qual você se coloca ou é colocado dentro de um estúdio ou no palco de um show."
 
Spotify, Appple Music e Deezer geraram R$ 21 bi em 2016

SPOTIFY

35 milhões de canções
159 milhões de clientes
71 milhões pagam pelo serviço
 
BRASIL

180 milhões de smartphones
5 milhões de assinantes de streaming
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