01/05/2018 às 18h23min - Atualizada em 01/05/2018 às 18h23min

Radiohead: quando o imediatismo é o seu pior inimigo

ADREANA OLIVEIRA | EDITORA
Thom Yorke no Soundhearts Festival no Allianz Parque | Foto: Stephan Solon/Divulgação
 
Em 2001, recém-saída da faculdade, fiz minha primeira cobertura internacional para um jornal do interior de Minas Gerais: Rock in Rio 3. Câmera em uma mão e gravador de fita K7 na outra, fazia entrevistas e passava as impressões para o papel. Era uma maratona para revelar as fotos, scanear e mandar para a redação (a um custo altíssimo) para dois dias depois ver o resultado na página impressa com o comprometimento com cada história.

Há pouco mais de uma semana fiz minha mais recente cobertura internacional: Soundhearts Festival, em São Paulo. A atração principal, Radiohead. O público, 30 mil pessoas. Com uma das mãos seguro um smartphone que me permite fotografar, gravar e registrar detalhes. Minutos após o show – e até mesmo durante ele –, pipocam “críticas” e inúmeros vídeos compartilhados para quem não seu deu ao trabalho de sair de casa falar mal.

Aprendemos com o passar dos anos a não chegar mais cedo caso não seja do seu agrado alguma atração e a fechar os olhos e fazer uma imersão que o show do Radiohead requer. Aquele momento não voltará e quando se perde tempo demais tentando registrá-lo se perde o melhor da festa. Quando se tem uma ligação emocional com a música não importa se seu ingresso é o mais caro, o mais barato ou uma credencial. Vale o que aquela arte soma na sua vida e isso não se mede de imediato. 

Essa foi a segunda passagem da banda, formada em 1985 na Inglaterra, por terras brasileiras. A primeira foi em 2009 com shows também no Rio e em São Paulo, onde voltaram neste ano no festival que contou com Junun, Flying Lotus e Aldo the Band. Dos quatro, assisti três shows. Ouvi setlists diferentes que abrangem agora quase três décadas de uma carreira nada linear.

Felizmente ainda há bandas como o Radiohead que não faz álbuns ordinários, não permite que escolham seu setlist e não dependem de uma simpatia forçada para produzir. 

No domingo, 22 de abril, no Allianz Parque, executaram 26 canções em quase duas horas e meia de show. Mesmo em meio a uma pequena multidão, quem estava ali deveria valorizar cada segundo. Afinal, era um entre mais de 30 milhões de pessoas que deve ter um álbum do Radiohead em casa.

Da estreia, “Pablo honey” (1993), nenhuma música, nem a que os colocou no radar mundial, a bela, triste e simples “Creep”. Eles já não eram mais os mesmos em 1995 em “The bends”, representado por “My iron lung” e “Fake plastic trees”, que fechou o show. Houve comentários que a música não tem “clima” para tal. E daí? O “astral” do show quem define é o artista. Deve ser! Ou não haveria razão para termos papeis tão diferentes.

Quem foi adolescente nos anos 90 foi agraciado com a obra-prima “Ok Computer” (1997), uma ruptura com tudo que rolava na época. Um misto de belas melodias e letras que até hoje fazem sentido tocadas de uma forma que só eles conseguem. “Você parece tão cansado, infeliz/ derrube o governo/ eles não falam por nós”, canta Thom Yorke em “No surprises”, uma das quatro canções de “Ok Computer” executadas no Allianz. Não combina com 2018, não é de se respeitar?

Outros discos vieram. O mais recente “A moon shaped pool” (2016) traz “Daydreaming”, que abriu a noite. A cada álbum uma história que dá ao Radiohead a característica de não ser unanimidade. Os fãs devem se satisfazer com um “Obrigado” aqui e ali, uma ou outra falha de execução das mais humanas que acontecem diante de nossos olhos levadas na brincadeira pelos músicos.

A presença de duas baterias durante o show deu tanto vigor à apresentação e pouco se falou disso. Phil Selway e Clive Deamer, que acompanha a banda desde 2011, eram dois corações incansáveis. Em uma banda composta por multi-instrumentistas Jonny Greenwood reina de forma casual. Seu irmão, Colin, tem um backing vocal que muitas vezes é o protagonista da canção e um sorriso ímpar. Ed O'Brien quase não se apresenta à frente com sua guitarra, mas é firme em sua performance e Thom é aquele cara que, como poucos, sabe que uma multidão mesmo de fãs, pode ser cruel. Por isso, parece estar ali no seu melhor momento consigo mesmo. Agrade ou não.
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