20/04/2018 às 20h08min - Atualizada em 20/04/2018 às 20h08min

Tradição das benzedeiras ainda resiste em MG

IZAMARA ARCANJO | FOLHAPRESS
Capela do Rosário é um dos pontos turísticos de Milho Verde, cidade de benzedeiras | Foto: Instituto Estrada Real
 
É em uma casa cercada de plantas medicinais que vive Maria Mercita Cunha. Aos 86 anos, dona Mercita vai ao quintal e, diante de um pé de guiné, pede permissão à natureza para usar seus poderes de cura. Enquanto isso, um rapaz a espera na cozinha para ser benzido. Ela segura algumas folhas da planta e começa a rezar.

"Benzer é isso. É a gente fazer uma prece para ajudar uma pessoa, mas tem que ter o dom", afirma. Terminado o rápido ritual, Mercita joga no próprio quintal as folhas da erva. "É a natureza que vai consumir com as folhas que eu usei e levar o problema da pessoa embora", diz.

A ex-lavradora e benzedeira costuma ser requisitada por moradores e por turistas que a procuram em Milho Verde, distrito de Serro, a 315 km de Belo Horizonte.

O distrito fazia parte do antigo Arraial do Tijuco, atual Diamantina, reconhecida como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco.

Foi em Milho Verde que nasceu Chica da Silva, escrava alforriada que atingiu posição de destaque na sociedade e se tornou uma das personagens mais importantes do período colonial brasileiro.

É em Milho Verde que, como Dona Mercita, vivem outras seis benzedeiras, mulheres que insistem em preservar o ato de benzer. A prática, que é uma herança do catolicismo popular português, mistura no Brasil influências indígenas e africanas e vem desaparecendo, muito em função dos avanços de outras práticas religiosas, dos avanços científicos e do desinteresse dos mais novos.

Para o artista plástico Paulo Jader de Meira, de 56 anos, o benzimento é infalível. "Sempre recorro a uma das benzedeiras aqui da região. O que elas têm em comum é a vontade de fazer o bem. São todas pessoas de bem", afirma.

Dalva Fernandes Siqueira é benzedeira desde os 20 anos. Hoje, aos 78, diz que as pessoas perderam a fé –por isso ainda não encontrou quem quisesse seguir o que aprendeu com sua mãe. "Antigamente não tinha médico nada, só Deus. Só remédio do quintal, do mato. Hoje, o povo confia primeiro na ciência."

Católica fervorosa, Dalva tem na porta de entrada de casa uma bandeira de Nossa Senhora do Rosário; na sala, um altar onde estão várias imagens de santos. Dalva faz questão de ressaltar que benze com brasas, água e com o poder do Espírito Santo. “Com a força desses três elementos, qualquer coisa é curada."

A dona de casa Geórgia Carvalho mora em São José da Lapa, na região metropolitana de Belo Horizonte, e aproveitou a ida a Milho Verde para benzer a filha, Ana Clara, de 5 anos.

"Ela foi benzida contra cobreiro com talos de plantas e eles foram colocados na fumaça do fogão à lenha para secar. Assim que os talos secarem, o cobreiro vai ser curado", afirma Geórgia.

OUTRAS RELIGIÕES

A mudança de prática religiosa também tem feito com que os benzimentos sejam esquecidos. É o que afirma a caçula das benzedeiras, Aparecida do Rosário Ferreira Montmor, de 53 anos. "Muita gente aqui se tornou evangélica e deixou de benzer as pessoas por considerar a prática proibida pela Bíblia", diz.

Mesmo sendo umbandista e mantendo um terreiro na cidade do Serro, ela segue firme, benzendo quem precisa.

"A umbanda não atrapalha os benzimentos. Acredito que a tradição vai se reinventando, senão já tinha morrido há muito tempo", diz.

É com sorriso e abraço forte que Maria das Mercês Santos, 81 anos, filha e neta de benzedeiras, recebe quem lhe procura para benzer. Mais conhecida como Maria Coração, devido à forma carinhosa como trata todos que a procuram, a benzedeira diz que hoje só atende crianças porque não tem mais forças para curar os problemas dos adultos.

"Tem que estar preparada, estar muito bem de saúde e ter muita fé, senão o benzimento fracassa e a gente vai até para a cama", afirma.
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