10/04/2018 às 05h41min - Atualizada em 10/04/2018 às 05h41min

Autistas têm dificuldade para chegar ao mercado

Existem mais de 360 mil vagas para as pessoas com deficiência no País, mas oferta para cidadãos com TEA é pequena

DA REDAÇÃO
Especialistas durante o Ciclo de Palestras sobre a inclusão do autista na educação regular, na sexta-feira, em BH | Foto: Sarah Torres

Pessoas com transtorno do espectro autista (TEA) têm plena capacidade de trabalhar normalmente. Essa foi a conclusão apresentada por especialistas durante a programação da Semana de Conscientização sobre o Autismo, que terminou na sexta-feira (06), na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). Ao fim do evento, representantes de entidades e autistas falaram de suas experiências de inclusão no mercado de trabalho.

Maristela Barros, da Associação de Apoio à Deficiência Nossa Senhora das Graças (Agraça), de Belo Horizonte, falou do trabalho de assessoria para inclusão laboral de pessoas tanto com autismo severo (déficits graves em habilidades de comunicação, habilidades sociais pobres e movimentos repetitivos estereotipados) quanto com o chamado autismo de alto desempenho (habilidade social comprometida, mas outros tipos de qualidades desenvolvidas).

“Existem mais de 360 mil vagas disponíveis para as pessoas com deficiência no Brasil, mas a deficiência intelectual não é vista como a melhor opção para a empresa, então a oferta é significativamente menor. A inclusão depende mais da empresa do que do indivíduo, e o respeito é fundamental”, analisou Maristela.

Da mesma instituição, Luciana Braga Guerra citou algumas das características das pessoas com o TEA, como o déficit na comunicação, os interesses restritos e a forma de comunicar, o que pode sugerir insensibilidade. “Eles têm um vocabulário literal, então podem parecer arrogantes e não vão entender metáforas ou figuras de linguagem. Mas possuem inúmeras competências, como a lealdade, a disciplina e produtividade, muito úteis no mercado em diversas funções”, explicou.

POTENCIAL CAMUFLADO

A psicóloga e representante da startup Avulta, Emanuelle Fernandes, falou do trabalho de psicologia cognitiva e sobre como o sistema desenvolvido pela Avulta faz a ponte entre os autistas e as empresas. “Descobrimos o potencial camuflado dessas pessoas e montamos o perfil delas, descobrimos em quais áreas elas podem ser mais bem aproveitadas, e damos consultoria para que as empresas consigam encontrar essas pessoas. O foco é nos talentos e habilidades”, reforçou.

O psiquiatra Walter Camargo citou um exemplo didático sobre as potencialidades das pessoas com TEA no mercado de trabalho. “Eu conheci um hiperativo que trabalhava no almoxarifado; era um desastre porque ninguém nunca o achava lá e ele era muito desorganizado. Quando foi substituído por uma pessoa surda, a situação melhorou demais porque essa pessoa era disciplinada, focada e organizada; não ficava conversando, era muito produtiva. Então eu penso que é uma questão de aproveitar o potencial de cada um no que aquele cargo pede”, completou.

Ele destacou ainda que a sociedade brasileira tem pouca experiência na contratação das pessoas com TEA, que possuem várias das características vistas como as de um bom profissional pelas empresas. “São honestos, não atrapalham o ambiente de trabalho com fofocas, são pontuais, extremamente concentrados. Eles podem e devem trabalhar, com acompanhamento para as questões nas quais eventualmente tenham dificuldade”, resumiu.
 
BARREIRAS

Preconceito ainda é o maior obstáculo

Em roda de conversa com adolescentes e jovens diagnosticados com TEA, muitos relataram a dificuldade de aceitação por parte da família, colegas de escola e faculdade como o maior obstáculo para o que a sociedade considera como uma “vida normal”.

Formado em história e estudante de direito, Henrique dos Santos de Barros foi diagnosticado com a síndrome de Asperger (transtorno que afeta a socialização) aos nove anos e o grande obstáculo que enfrentou foi na sua primeira faculdade, onde colegas chegaram a dizer que ele deveria ser “enjaulado”. “Adolescente, nunca me faltaram amigos ou coisas para fazer. O autista na universidade precisa ser um assunto mais discutido. Estou me engajando nessa luta para que outras pessoas não passem pelo que eu passei”, afirmou.

SUPERDOTAÇÃO

Já a engenheira Maria Isabel Hogstein, que descobriu recentemente ter síndrome de Asperger, contou que, quando criança, recebeu apenas “metade do diagnóstico”, o de superdotação. “Era considerada muito inteligente para ter algum problema. Os profissionais precisam ser menos clínicos e mais empáticos; precisam olhar com uma profundidade maior para as pessoas, especialmente as crianças. Eu cresci sem apoio nenhum e tive de descobrir sozinha como lidar com isso", relatou.

O estudante de ensino médio Raphael Sales Bessa Rodrigues disse que tem se dedicado ao “fim da psicofobia na sociedade”. “O que mais me afetou foi o preconceito que enfrentei na escola. As pessoas precisam ter mais compreensão, informação e, acima de tudo, respeito”, completou.
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