25/03/2018 às 05h27min - Atualizada em 25/03/2018 às 05h27min

Taxistas falam do serviço em tempos de aplicativos

Profissionais pedem regulamentação para novos formatos e parte deles entende que há espaço para todos

VINÍCIUS LEMOS | REPÓRTER

A profissão de taxista existe na Lei há menos de 50 anos no Brasil, mas nunca foi tão discutida desde que, em 2014, a gigante Uber chegou ao País, ao se instalar no Rio de Janeiro. O serviço de transporte de passageiros em veículos pequenos como conhecemos, sendo uma concessão municipal, ganhou um novo braço - cada vez mais musculoso. Em Uberlândia, a profissão reúne cerca de 300 concessões, que incluem os donos das autorizações e uma série de motoristas auxiliares. 

Quando em setembro de 2016, o serviço de transporte via aplicativo desembarcou na cidade que, ironia, se chama Uberlândia, a história dos taxistas locais também mudou. Assim como parte dos hábitos da população também mudou. Do medo e da raiva iniciais sobre a Uber, o que impera entre a maioria dos taxistas uberlandenses é que há espaço para todo mundo, inclusive no que tange à fiscalização e deveres para os motoristas do aplicativo.

A história da família do hoje taxista Clinger Castro Bittencourt com a profissão é quase tão antiga quanto a regulamentação do transporte no Brasil. A primeira Lei sobre o transporte público individual, e que o associava à profissão de taxista, data de 1969. Menos de dez anos depois, em 1978, o pai de Clinger, Mirésio Belizer começou sua carreira no transporte, inclusive montando base na principal praça de Uberlândia, a Tubal Vilela. O que ele fez até se aposentar. No caso de Bittencourt, há cinco anos ele viu uma oportunidade na carreira que o pai teve e começou a dirigir um táxi. Rapidamente, entretanto, passou a ver a atividade com grande dificuldade.

“Você trabalha mais e ganha menos. Trabalhava 24h e descansava 24h. Agora, nas folgas eu trabalho também, até às 18h, para complementar. Eu criança meu pai já era motorista de táxi, ele gostava da profissão e eu também gosto, mas ficou mais difícil nos últimos dois anos pra gente aqui em Uberlândia, disse o taxista. Na prática, Clinger Bittencourt fazia mais de 20 corridas em um turno, hoje chega a 12 quando o dia é bom. Ele atende no Terminal Rodoviário da cidade, local onde a rotatividade dos carros brancos com os pequenos luminosos no teto também mostra lentidão para um ponto de tamanho movimento de pessoas. É fácil encontrar filas de mais de uma dezena de veículos parados.

São até 3h de espera, como explicaram os taxistas do local em entrevistas feitas pelo Diário. Foi numa dessas esperas que o também taxista Ismael dos Reis Davi contou que em 21 anos de profissão, pela primeira vez, pensou em deixar o serviço. Hoje ele faz um terço das 30 corridas que já chegou a fazer em períodos melhores. “Hoje eu fico quase 24h na Rodoviária, às vezes até cochilo no carro sem ir em casa. A namorada reclama e diminuiu o contato com os filhos”, contou.

REGULAMENTAÇÃO

Em resumo, o que querem todos com quem a reportagem conversou inclusive outros personagens não mencionados aqui é a regulamentação entre o serviço prestado pela Uber e outros aplicativos. E que o mercado não se torne predatório em relação à profissão do taxista, que paga taxas mensais e anuais ao Município. A deslealdade da concorrência estaria aí. A visão é, de certa forma, diferente daquela que levou à confusão em janeiro de 2017, quando um taxista e um motorista da Uber chegaram às agressões na porta da mesma Rodoviária onde Clinger e Ismael trabalham. Acusações de transporte clandestino, burlando o aplicativo, são comuns ainda hoje.

MUDANÇA

Uma visão diferente nos tempos da modernidade

Consultada pela reportagem, uma empresa prestadora de serviços de táxi por telefone de Uberlândia explicou que o momento é de ter uma nova visão do mercado. A empresa agrega taxistas, que pagam R$ 600 por mês, de acordo com apuração do Diário, e são chamados quando um cliente solicita o transporte e por conta disso não chega a ter problemas de faturamento diretamente pela redução de corridas, mas reduziu em mais de 30% o valor da mensalidade. A perda de motoristas não foi significativa, segundo a empresa informou, mas que o foco do atendimento mudou.

A parceria e convênio com outras empresas, que terceirizaram suas frotas, foi uma dessas vias. A central de atendimento por telefone ainda funciona e o foca foi para empresários ou executivos. Por isso, corridas de fim de semana se tornaram secundárias e o filão se transformou transportes em horários comerciais entre segunda e sexta-feira.

Chamou a atenção que a empresa registrou aumento nas corridas de bairros periféricos, principalmente os mais novos como o Pequis, onde as aplicativos estão em modo dinâmico por mais tempo e cobram mais caro. Entretanto, a concorrência é tida na empresa como algo sem volta e que a fatia foi reduzida para todos mundo.

25 QUESTÕES

Sindicato pede uma Lei e sugere a modernização

Aos colegas de profissão, o Sindicato dos Condutores Autônomos de Veículos Táxi de Uberlândia sugere modernização para se manterem no mercado. Ao poder público, pede uma lista de 25 pontos para que a futura legislação local seja vista pela categoria como igualitária. O presidente da entidade, Roque de Moraes, contudo, não poupa parte dos colegas de algumas críticas, com a resistência da tentativa implantação de aplicativos antes mesmo da chegada da Uber.

“Tentei três aplicativos e não tivemos adesão. Há falhas nos atendimentos. No futuro há espaço para os táxis e também para a Uber, mas é preciso disciplinar”, disse Moraes. Ele complementou explicando que é preciso entender que a demanda vai ser menor para eles e que a melhor maneira de se manterem no mercado é serem mais modernos e melhores nos atendimentos. “No aeroporto eu vi uma situação que era de 35 táxis, apenas três, naquele momento, terem má- quinas de cartão. Hoje 40% da frota de Uberlândia têm (máquinas do tipo)”, afirmou.

Com um projeto de Lei aprovado no início deste mês na Câmara dos Deputados, no qual a atividade de transporte de passageiros por meio de aplicativos traz determinações para que os Municípios regulamentem posteriormente, o sindicato dos taxistas local protocolou na Prefeitura faz uma série de pedidos na futura legislação municipal. Entre os pedidos estão a limitação do número de veículos atrelados aos aplicativos, proibição de que carros do tipo façam pontos fixos, cobrança de tributos como ISS e ocupação do solo, certidões de antecedentes criminais, exigência de que o veículo seja de Uberlândia e que haja uma cota para automóveis adaptados para pessoas com deficiência.

PREFEITURA

Por meio de nota, a Secretaria de Trânsito e Transportes informou que “está trabalhando para que haja a regulamentação do serviço de mobilidade por meio de aplicativos, de forma que seja garantida a concorrência leal entre os prestadores de serviço e taxistas”. Informa também “que aguarda a sanção presidencial do Projeto de Lei aprovado na Câmara dos Deputados e no Senado para definir quais ações serão tomadas no intuito de atender a lei e aos interesses dos usuários do transporte”.

As permissões dos taxistas no Município têm duração de cinco anos, podendo ser prorrogadas por iguais e sucessivos períodos dentro das necessidades do poder público e mediante o pagamento na taxa no valor R$ 6.362,70 dividido em 2 vezes. Por Lei é preciso que a cidade tenha um táxi para cada 1,6 mil habitantes. Se a população estimada pelo IBGE no Município é de 676,6 mil habitantes, seriam necessários cerca de 420 táxis em Uberlândia. Aproximadamente 120 a mais que o existente hoje.

ENQUETE

As razões de quem escolhe o serviço

"Às vezes, os taxistas não andam gentis. Não são todos claro. (Uso) o táxi devido ter um local fixo, um telefone, passa mais segurança."
(Damares Lopes)

“Quando precisei de Uber parecia mais uma carona remunerada, com menos profissionalismo e conhecimento que os taxistas. Acho até mais seguro.”
(João Carlos Joca)

“Sempre. Pela agilidade, por não ter preocupação com estacionamento, por causa do valor.”
(Agaonny Cesário)

“Com a chegada do Uber o atendimento dos táxis melhorou muito. Usei esses dias e vi uma diferença nos preços também, agora tem muita gente dizendo que táxi é mais seguro, conheço algumas pessoas que dirigem e nem são cadastrados na Prefeitura.”
(Fábio Côrtes)
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