04/03/2018 às 05h22min - Atualizada em 04/03/2018 às 05h22min

Novas metodologias de ensino ganham espaço em Uberlândia

Escolas têm variado sistemas pedagógicos, o que pode deixar pais confusos na hora de matricular os filhos

ISABEL GONÇALVES | REPÓRTER
Atividade desenvolvida na escola Miri Piri Uberlândia, que baseia sua metodologia no Kundalini Yoga | Foto: Miri Piri Uberlândia/Reprodução/Facebook

Nos primeiros dias de aula, o tempo que os filhos passam nas escolas trazem aos pais dúvidas que envolvem questões como espaço físico, material didático e utilização de novas tecnologias no ensino. Atualmente, novas linhas pedagógicas adotadas em cada instituição, uma vez que a educação tradicional tem sido substituída por outros estilos, também têm deixado os pais meio fora de órbita. Naquele bate-papo entre pais sempre aparecem novidades e a dúvida surge: será que fiz a escolha certa? Ou apenas falta um pouco de conhecimento de como se organizam as escolas?

Tidas como recentes para os brasileiros, linhas pedagógicas seculares e agora importadas da Europa vêm sendo agregadas e ganhado força. Neste contexto, além de uma formação acadêmica, há uma busca pelo desenvolvimento da formação social. Desse modo, são valorizadas a arte, a natureza, o lado emocional do ser humano, a formação de um indivíduo independente, entre outros quesitos. Em Uberlândia, encontrar instituições com diferentes metodologias de ensino é cada vez mais comum.

Para a psicopedagoga Eliane Ferreira Santa Cecília, os pais devem priorizar a escola dos filhos pensando no perfil da criança e na forma como as linhas metodológicas são inseridas. Ela diz que não há um método mais eficaz do que o outro, portanto, cabe aos pais entender qual estilo se adapta melhor às necessidades do seu filho. “Existem crianças mais agitadas, que talvez se sintam mais inseridas em escolas tradicionais, pela presença de regras e normas mais definidas. No caso de alunos mais introvertidos, talvez as instituições mais sóciointeracionistas se enquadrem melhor”, disse.

A psicopedagoga também esclarece que, apesar da escola descrever em seu plano pedagógico uma metodologia, muitas não conseguem cumpri-las pelo fato de os professores não estarem preparados ou optarem por estilos diferentes. O contrário também acontece em escolas tradicionais, quando o corpo docente traz para a sala de aula métodos de ensinos alternativos. “As instituições e os pais precisam se atentar para o tipo de formação do docente. Através de semanas pedagógicas, cursos e palestras, as escolas podem repassar aos educadores a metodologia da escola, reforçar algumas práticas propostas”, explica.

De acordo com a pedagoga Marielly Lopes, a maioria dos pais não compreende os conceitos pedagógicos ou tem conhecimento sobre as linhas pedagógicas de cada local, apenas está em busca de locais seguros e com boa estrutura física para os filhos. Por isso. “O pai pode matricular a criança em um espaço e só depois de alguns meses perceber que aquele tipo de ensino não é o mais adequado para a criança, que se mostra cansada, indisposta ou agitada durante o ano letivo. Acontece também de o pai esperar que espaços sóciointeracionistas sejam como colégios tradicionais, com enfoque no rigor, castigos e muitas tarefas. Esse diálogo evita muitas frustrações”, disse.

ESCOLA TRADICIONAL 

No ensino tradicional, a prática conteudista é centrada no professor – que transmite o conhecimento ao aluno – e acredita que, para formar um estudante crítico e questionador, é necessário se ter uma base sólida de informação. Em geral, as instituições apresentam uma rigidez quanto as normas e condutas durante o aprendizado.

Com foco no alto desempenho dos alunos e no acúmulo de conteúdo, as escolas que adotam uma metodologia tradicional costumam atrair pais que prezam pelo cumprimento de regras e costumes mais conservadores. 

Em grande maioria, as escolas públicas costumam aplicar o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil tendo como base esse ensino tradicional. Entretanto, em algumas instituições, o corpo diretor e os docentes aliam pontos de metodologias mais alternativas para tentar conquistar os estudantes.

ESCOLA CONSTRUTIVISTA 

No Brasil, o construtivismo é o método alternativo de ensino mais difundido entre as escolas que desejam fugir no ensino tradicional. Em suma, essa metodologia, baseada nos estudos de Piaget (1896-1980), foca no aprendizado como construção, onde a criança entende o mundo por assimilação e sempre com uso da sua realidade como referência, ou seja, ela utiliza de conhecimentos que já possui para compreender o novo.

Em Uberlândia, a Escola da Criança - Espaço de Adolescer é uma das instituições que segue esse estilo de educação e defende que o ensino precisa ir além do acesso a conteúdos informativos, favorecendo o cultivo de pensamentos singulares e sensíveis em cada estudante e profissional, de forma que haja uma reflexão sobre a existência humana e realização pessoal. A Escola da Cidade e a Escola Viva Uberlândia também seguem a linha construtivista.

ESCOLA SOCIOINTERACIONISTA 

Ainda na linha Construtivista, as escolas sociointeracionistas defendem a importância da relação do sujeito com o meio, partindo da noção de que o aluno constrói o seu conhecimento através da vivência social, ao longo de um processo histórico, cultural e social. Nesses espaços, o intuito é respeito à bagagem histórica da criança, assim como o estímulo a se manifestar, participar e torna-se ativa no contexto social, fazendo com que seus valores sejam respeitados. Em Uberlândia, instituições como o Colégio Curumim e a Escola Meu Pé de Laranja Lima utilizam essa linha de ensino.

De acordo com a pedagoga Marielly Lopes, essa linha pedagógica é composta por um conjunto de posturas de professores e alunos. “No sociointeracionismo, defende-se a importância de reconhecer que a criança faz parte de um contexto, traz vivências de seu cotidiano para a escola. Além disso, trata da valorização da aprendizagem cognitiva, entendendo que todo ser humano respeita um desenvolvimento dentro de cada faixa etária. E o terceiro pilar dessa linha fala do afeto, no sentido de que a criança que desenvolve um vínculo afetivo com a escola aprende com prazer, e esse conhecimento se torna significativo”, explica.

KUNDALINI YOGA
 
Na Miri Piri Uberlândia, o ensino baseia-se no Kundalini Yoga (posturas, respirações e meditações), pensando no desenvolvimento neuromotor, na cognição, na concentração e no relaxamento da criança, e na humanologia, que, por meio da meditação e de histórias, conduz a criança a uma compreensão aprofundada dos processos de construção das personalidades, ajudando a eliminar traumas e medos, fortalecendo a autoconfiança e a disciplina.
 
A escola também oferece a Gatka, uma arte marcial que aumenta o equilíbrio entre corpo, mente e espírito, despertando o aluno para o destemor, a compaixão e a tranquilidade. Através dos exercícios físicos as crianças ganham vigor e treinam suas mentes para se tornarem mais focadas, alertas e responsáveis. A prática da arte marcial também fortalece a identidade individual e o respeito à liberdade do outro através da reverência e da compaixão.
 
Além dos fundamentos citados, a Miri Piri, tendo como base as diretrizes do Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil, organiza seus conteúdos em torno de três eixos, sendo eles: arte e linguagem, movimento e expressão corporal; conhecimento do mundo natural e social; e iniciação à matemática e aos jogos. 

A escola atende crianças que se encontram na faixa etária dos dois aos cinco anos – Educação Infantil.

ESCOLA LOGOSÓFICA 

Nas escolas que se baseiam na Logosofia, o intuito é promover o conhecimento de si mesmo, a integração do espírito com as leis universais e o domínio das funções de aprender, ensinar, pensar e realizar. Em linhas gerais, essa pedagogia se baseia no conhecimento e no afeto, além de ter como intuito libertar as faculdades mentais para que o sujeito compreenda os verdadeiros objetivos da vida e se sinta motivado e mais consciente de seus atos.
 
Em Uberlândia, o Colégio Logosófico disponibiliza Educação Infantil e Fundamental I.
 
ESCOLAS MONTESSORI

Entre as metodologias de ensino mais famosas está o linha montessoriana, desenvolvida pela médica e pedagoga italiana Maria Montessori (1870-1952). Focada no ensino ativo, ela enfatiza os exercícios de concentração individual e, nos primeiros anos da criança, estimula a manipulação e montagem de objetos. Dentro dessa linha, o educador é entendido como um guia que ajuda as crianças a superar as dificuldades, o que difere de forma significativa do estilo tradicional.

Na cidade de Uberlândia, o Colégio Ressurreição Nossa Senhora estabelece quesitos montessorianos dentro de sua metodologia de ensino, que abrange os ensinos infantil, fundamental e médio.

ESCOLAS MUNICIPAIS
 
O Projeto Escola da Inteligência, apoiado pela Prefeitura de Uberlândia, promove em escolas da rede municipal valores socioemocionais ao longo de todo o ano.
 
A ação, que atendeu 4 mil alunos de 13 unidades da zona rural em 2017, também acontecerá em cinco escolas da zona urbana neste ano.  Até o fim do calendário letivo, os alunos das Escolas Municipais Irmã Odelcia Leão Carneiro, Dr. Joel Cupertino Rodrigues, Professora Carlota Andrade Marquez, Olga Del Fávero e Professora Stella Saraiva Peano terão contato com o projeto.
 
O trabalho é realizado pelo Instituto Hortense, do cantor Leo Chaves, e o Instituto Algar. Vinda de Ribeirão Preto (SP) e criada pelo Dr. Augusto Cury, a Escola da Inteligência leva para as unidades o desenvolvimento dos códigos da inteligência. Nessa formação, os professores aprendem a desenvolver as habilidades socioemocionais neles mesmos e nas crianças, para que seja possível lidar melhor com os problemas e desafios da vida.
 
Para a secretária municipal de Educação, Célia Tavares, os resultados obtidos em 2017 foram de grande proveito para servidores e alunos. “É um trabalho maravilhoso, que aumenta a autoestima e o autoconhecimento dos alunos, incluindo os pais e familiares em todo o processo. O resultado é interessante porque engloba valores como responsabilidade e amizade”, afirma.
 
Ainda de acordo com a secretária, é bastante positivo que, neste ano, mais alunos sejam beneficiados. “É uma satisfação para o município termos ampliado a parceria. Percebemos que esse trabalho é feito em todo o país, geralmente em redes particulares. Nós somos referência por oferecermos esse conteúdo na rede pública”, comentou.
 
PARTICIPAÇÃO FAMILIAR
 
Além de pensar no estilo de educação adotado pela escola, os pais devem se atentar ao fato de que a participação familiar é fundamental no processo de aprendizagem e formação individual. Conforme o ano letivo avança, é natural que o ritmo de atenção dos pais com a rotina escolar dos filhos diminua e, segundo a gerente de Pesquisa e Desenvolvimento do Itaú Social, Patrícia Mota Guedes, especialista em educação, algumas ações simples podem ser colocadas em prática mesmo diante da correria cotidiana.
 
“O envolvimento da família tem impacto direto na vida escolar e no aproveitamento do aluno. A educação se pratica a qualquer tempo, em diversos espaços. Um olhar atento identifica oportunidades de conhecimento, torna o aprendizado uma atividade leve, prazerosa e ajuda a intensificar a relação entre pais e filhos”, explica.
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