27/02/2018 às 17h02min - Atualizada em 27/02/2018 às 17h02min

Arte que se reinventa a todo momento

Arquiteto e artista plástico Caetano de Lima fala dessa relação de duas diferentes profissões que dialogam

ADREANA OLIVEIRA | EDITORA
Caetano de Lima entre duas de suas obras que estão na exposição em cartaz na Galeria Ponto Azul até 23 de março | Foto: Adreana Oliveira

Quem visitar a galeria Ponto Azul até o dia 23 de março será agraciado, logo na entrada, com uma belíssima imagem de uma pessoa com um semblante misterioso, um pouco melancólico, sobre um cavalo robusto, bonito mas que também parece carregar uma certa melancolia. A tela de Caetano de Lima, que tem exposição de seus trabalhos de 2017 desde a última sexta-feira na galeria, convida o espectador a entrar e apreciar ainda mais seus traços que, apesar de uma leveza ímpar, carregam diferentes nuances a cada criação.

Professor de Arquitetura da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas, Caetano é artista plástico autodidata. “Procuro informação no inconsciente. O que eu pinto não é racional. Se durante a pintura eu sentir relação com outras coisas e começar a entender a obra eu paro. Preciso ir até o fim, quando fico louco com o presente que cada obra me dá ao se tornar essa expressão inconsciente”, explicou o artista, que esteve em Uberlândia para a vernissage de sexta-feira.

Caetano mora em Jaguariúna (SP). Lá tem um haras onde fica seu ateliê. Sua ligação com os cavalos, muito presentes na mostra, vem desde que nasceu e ele chegou, inclusive, a montar por esporte durante 33 anos. Hoje, sua relação com a arte é vista como uma conquista de vida. “Tenho 60 anos e desde a primeira exposição que fiz, aos 12 anos, que foi em um jóquei clube,muita coisa mudou. Meu ateliê fica em um lugar muito tranquilo, sossegado, e um refúgio onde me sinto livre”, contou.

As telas em exposição trazem um misto de rostos, formas, paisagens que cada espectador pode dar sua interpretação em uma viagem particular. “A arte começa com ‘ar’ e o que é o ar se não vida? É a arte que leva todos os nossos sentidos lá para cima. É infinita, se reinventa a todo momento, é uma estrada sem fim. É a arte que vai me moldar”, afirmou.

Para o artista, a Arquitetura e a Arte caminham juntas. “A arquitetura e escultura não se diferem, exceto pelo fato de que arquitetura não é escultura. Quando você coloca a porta, as iluminações projetadas, o cano de água,  traz uma condição de vida na escultura, é diferente de uma construção bonita. Ela é uma escultura que você pode habitar”, explicou.

Ele destaca os prédios de Brasília como obras plásticas que funcionam como escritórios. “Tem uma história interessante de época da construção de Brasília. Certo dia, às quatro horas da manhã, o arquiteto Oscar Nieymeyer, junto com seu calculista, Joaquim Cardoso, parou diante do Planalto e disse: ‘Joaquim, observe esta bela escultura porque de hoje em diante ela vai virar arquitetura. O arquiteto, primeiramente, é um escultor”, disse.

Como artista, arquiteto ou cidadão, Caetano percebe a  importância na interação com as cidades em que vivemos, com as pessoas, para compreender tudo isso e utilizar em seu trabalho, principalmente em tempos em que as apreciações e convívio coletivos parecem ameçados. As pessoas estão cada vez mais conectadas, dentro ou fora de casa, longe desses espaços coletivos que tantas experiências interessantes podem trazer.

“No século passado tivemos o movimento moderno. Até então era o clássico e com o movimento moderno veio a plasticidade. Foi a conquista de um século mostrando que a gente pode pensar de uma outra maneira”, explicou.

Ele completa que a Arquitetura vinha de um raciocínio industrial assim como o movimento moderno. Ele cita o arquiteto, urbanista e pintor Le Corbusier (1930-1965) que disse que a casa é uma máquina de morar. “É a indústria produzindo a casa. As ruas, os carros funcionam, os prédios não caem porque a indústria é técnica. Agora percebemos que esta questão não é a mais importante porque a técnica nós já dominamos, agora precisamos dominar o bem-estar, o espírito humano. Esse espírito agora é o movimento”, disse.

Para Caetano é imprescindível se trazer a arte, a humanidade para o projeto, é o que faz dele um lar. “A técnica não resolve tudo. Todas as cidades que nasceram no século 20 em todo o mundo têm uma cara fria, que não desenvolve cidadania e não agrupa pessoas como cidadãos. Cidades inteligentes falam de automação, economia de energia... eu morar em um apartamento que acende as luzes automaticamente quando entro pode não agregar valor à minha existência, é preciso entender isso. Quero chegar em casa, tirar os sapatos, estar com a família, é esse sentimento que temos quando estamos realmente em casa”, disse.

Caetano acredita que a cidade e suas normas em si já traz uma carga técnica muito pesada. “Prefiro povoado”, brincou.

SERVIÇO

O QUE: Exposição “Pinturas 2017”
QUEM: Caetano de Lima
ONDE: Galeria e Atelier Ponto Azul (Rua da Carioca 1581-A, Morada da Colina)
QUANDO: até 23 de março com visitação de segunda a sexta das 10h às 18h e aos sábados das 10h às 12h
ENTRADA FRANCA
INFORMAÇÕES: 3214-9082
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