28/01/2018 às 05h23min - Atualizada em 28/01/2018 às 05h23min

Vício em jogos é tido como doença

Jogos no videogame, computador e outros dispositivos tecnológicos podem causar dependência e transtornos à saúde

LAURA FERNANDES | APRIMORAMENTO PROFISSIONAL
Tecnologia tem aumentado busca por atendimento nos consultórios / Foto: Divulgação

Pessoas que passam horas do seu dia à frente de computador, ou outros dispositivos tecnológicos, mergulhadas, de modo obsessivo, em jogos eletrônicos. Este assunto vem ganhando importância crescente e fez com que a Organização Mundial de Saúde (OMS) tomasse a decisão de incluir o vício em videogames ou jogos digitais como um distúrbio mental na próxima edição da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID), que será apresentado neste ano, na Assembleia Geral do órgão.

O CID traz códigos, sinais ou sintomas para as doenças e é usado por médicos e pesquisadores para rastrear e diagnosticar enfermidades. A psicóloga Marcionila Rodrigues da Silva Brito, especialista em atendimento adulto e infantojunevil em Uberlândia, afirma que a decisão da Organização Mundial da Saúde de tornar o vício em jogos eletrônicos um distúrbio facilita o tratamento dessas pessoas, pois amplia a preocupação com esse público. “Muda o olhar do profissional e da sociedade quanto a isso. Passam a ter um maior e melhor cuidado”, explica Marcionila.

Um exemplo levantado pela especialista são os planos de saúde, que não cobrem tratamentos desconsiderados doenças, mas a partir dessa decisão da OMS passam a incluir este tipo de atendimento em seus serviços.

Apesar dos inúmeros prejuízos atribuídos à prática, Marcionila afirma que os jogos podem trazer benefícios ao desenvolvimento, esclarecendo que o que influencia nesta distinção são as escolhas por parte do jogador: tipo de jogo e tempo destinado à prática.

A psicóloga explica que o jogador saudável usa o computador para ter um lazer e não tem prejuízo das outras funções do seu dia-a-dia, ao contrário do viciado, que perde qualidade de vida e a afetividade em troca de horas à frente do aparelho eletrônico. “Ele fica de frente para o computador e de costas para o mundo”, ressalta.

Marcionila relata que o viciado tem dificuldade com a rotina de sua vida normal: não tem horário certo para comer, dormir, tomar banho, se relacionar, e, no caso de pais, cuidar de seus filhos. Quando criança ou adolescente, é comum apresentar dificuldade para ir à escola.

O próprio corpo do dependente em jogos fica debilitado por conta da perda de movimentação. “Essa pessoa fica parada, pescoço curvado para o computador, às vezes até mal sentada ou mal colocada, o que prejudica a coluna, além do metabolismo e nutrição por não se alimentar direito”, acrescenta a psicóloga, que ainda inclui problemas psicológicos com o vício. “Há perda afetiva com as pessoas de maior vínculo: filho, esposa, marido, amigos. E muitas vezes, no caso de adultos, interferência da produtividade no trabalho”.

A psicóloga conta que já atendeu pessoas muito novas com esse tipo de problema e afirma que o maior índice de procura por atendimento está entre os adolescentes e jovens, apesar de haver crianças e adultos apresentando o vício em jogos eletrônicos.

TRATAMENTO

Querer ajuda é primeiro passo para superar a doença

Para o tratamento deste tipo de transtorno é necessário, inicialmente, independentemente da faixa etária, que a pessoa ou os pais, no caso de crianças e adolescentes, procurem um psicólogo para que ele possa medir o grau do vício eletrônico do paciente de forma a melhor orientá-lo.

Neste momento, a psicóloga Marcionila Brito reforça a importância da abertura do paciente em aceitar a opinião do outro e o estabelecimento da mudança como objetivo.

A profissional afirma que a tecnologia tem enchido os consultórios, e que o grande problema é que muitas vezes o paciente faz o diagnóstico, mas não aceita o problema e resiste à mudança. Ela conta que muitos adultos viciados nos jogos eletrônicos procuram ajuda por conta própria em seu consultório e conseguem mudar, mas aqueles adolescentes que são encaminhados, de certa forma obrigados, pelos pais e não seguem a prescrição do especialista não obtêm resultado no tratamento. “Nós só conseguimos contribuir com quem quer ajuda”, frisa.

Para libertar-se do vício, a especialista explica que é necessário mudar os hábitos. No caso de crianças, ela orienta o pai a tirar o aparelho eletrônico do contato do filho e substitui-lo por um brinquedo. Já no caso de adolescente, ela alerta à restrição da utilização do aparelho eletrônico. “É necessário marcar hora e colocar limites”, orienta.

Marcionila esclarece que é importante já estabelecer ao filho o “autocuidado”, desenvolvendo assim sua maturidade. “É preciso mostrar o quanto ele está se prejudicando para que ele mesmo se cuide, desta forma ensinando a fazer suas escolhas”, explica a psicóloga. E caso perceba que está afetando o comportamento do adolescente, ela orienta tirar o aparelho do contato do filho, pois isso pode aumentar o grau da dependência. Neste caso especificamente, ela ressalta a importância da inclusão de outras atividades no dia a dia desse jovem, pois a ausência da tecnologia aliada à falta de ocupação pode gerar comportamento agressivo.

Quanto às pessoas adultas, Marcionila alerta ao bom senso. “A pessoa não pode prejudicar suas relações sociais, familiares e amorosas por conta da tecnologia”, aconselha. A psicóloga entende aquelas pessoas que trabalham com a tecnologia, inclusive em casa, mas orienta ao afastamento do aparelho eletrônico durante um período de tempo para que possa estabelecer relações interpessoais.

Outra medida importante para a mudança de comportamento nesse momento é incluir atividades que estimulem a sociabilização e exercício físico. “Cuidar do corpo e da alma com coisas sadias e buscar relacionamentos afetivos” são as orientações que a psicóloga indica aos diferentes pacientes que estão em busca de mudanças, que ainda acrescenta a importância da leitura.

Marcionila explica que até mesmo uma conversa de quem tem dependência em jogos com alguém que seja de fora de seu convívio diário pode auxiliar na recuperação. “Talvez a pessoa não tem condição de custear uma ajuda, e esse apoio gratuito também é um pouco mais complicado, então às vezes um amigo, uma outra pessoa jovem ou parente próximo que tenha ascendência sobre a pessoa pode conversar e ajudar a organizar a vida dela”, explica a especialista. 
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