01/11/2017 às 15h59min - Atualizada em 01/11/2017 às 15h59min

Eventos marcam 500 anos da Reforma Protestante

ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER | FOLHAPRESS
Local onde o documento conhecido como "95 Teses" teria sido fixado por Lutero / Foto: Gertrude K.

 

O que você sabe sobre Martinho Lutero? A dona de casa Sarah Quincy, de 37 anos, confessa: não muito. Ela é protestante, assim como toda a sua família, assim como a maioria dos 45 presidentes que seu país, os EUA, já teve (John Kennedy foi a exceção católica, e a filiação religiosa de Abraham Lincoln é tida como enigma).

"Até pouco, eu acharia que estavam falando do Martin Luther King e diria, ué, mas ele não foi o cara dos negros?", diz. Só recentemente Sarah aprendeu em sua igreja que o pastor e ativista de direitos civis no século 20 foi batizado em homenagem a um monge que travou batalha própria na Alemanha medieval, 500 anos atrás.

Em 31 de outubro de 1517, Luther (Lutero, em português) iniciou o cisma que abalaria para sempre a Igreja Católica, até então um monopólio de fé no Ocidente. A narrativa que entrou para a história: o monge pregou na porta do castelo que abrigava a Igreja de Todos os Santos, em Wittenberg (1h30 de Berlim), o documento conhecido como "95 Teses".

O quanto disso é mito – se o fez com martelo ou não, por exemplo– está aberto a discussões. Mas fato é que suas críticas provocaram um racha no mundo cristão, que passaria a ter vários ramos protestantes (de quem protestou contra o Vaticano), até chegar aos neopentecostais de hoje.

As mais célebres questionam a ideia de que alguém (leia-se: ricos) poderia se livrar "de toda a pena" comprando indulgências do papa. Outra questiona por que a abastada Igreja "não constrói com seu próprio dinheiro" uma basílica, "em vez de fazê-lo com o dinheiro dos pobres fiéis".

Sarah, marido e filho viajaram à Alemanha nas férias. A família encheu a cesta em uma loja de souvenires em Wittenberg, que busca capitalizar em cima do quinto centenário do marco zero da Reforma Protestante. Levam biscoitos e cervejas com o rosto de Lutero nos rótulos.

Os 500 anos do movimento iniciado pelo conterrâneo estão sendo comemorados por toda a Alemanha, com eventos e exposições concentradas sobretudo em Berlim, Wittenberg e Eisleben –cidade onde Lutero nasceu, em 1483, mesmo ano de inauguração da suntuosa Capela Sistina.

O filé deste turismo religioso está em Wittenberg, que preserva a casa – hoje um museu– onde o primeiro protestante viveu a maior parte da vida. Conhecer o lar de Lutero e da mulher, Catarina de Bora, pais de seis filhos, custa € 12 (R$ 44). De lambuja, uma mostra contígua traz obras de arte e objetos que reproduzem o cotidiano no século 16.

Na porta da casa-museu, a atriz Alexandra Husemeyer, de 42 anos, apresenta-se vestida como a mulher do reformador. "Catarina tinha autoestima tão alta que pediu Lutero em casamento", diz.

Ela não é a única a se caracterizar à moda antiga. Quem quiser gastar 75 minutos e € 250 (R$ 925) pode ser escoltado por três atrizes no papel de "fofoqueiras" dispostas a contar todos os "babados" de 1535.

Em outro passeio, por quatro horas e € 46 (R$ 170), o turista é conduzido por uma intérprete que faz as vezes de criada de Lucas Cranach (1472-1553), pintor que retratou o amigo Lutero e também "nudes" renascentistas de mulheres. Roteiro: "Numa hora tardia, vá a lugares dos sacerdotes e prostitutas. [...] Seguindo esta caminhada noturna, você será recebido em um cardápio erótico e moderado de seis pratos".

As banalidades do dia a dia também estão na atração "Os Frívolos das Casas de Banho", que reconstrói o então popular banho público – das "fornicações" às "pomadas para prevenir a gravidez indesejada" (€ 225, ou R$ 833).

As ruas de paralelepípedo que abrigam essas trupes, no centro histórico de Wittenberg, não levam apenas a igrejas e construções antigas. Há ao menos três estúdios de tatuagem. Marcar na pele a silhueta de Lutero é um hit, diz o dono do estabelecimento.

Já em Berlim, a mostra "Der Luthereffekt" (o efeito Lutero) no museu Deutsches Historisches Museum remonta a globalização do movimento iniciado meio milênio atrás por Martinho Lutero, como, por exemplo, o hábito que os americanos têm de carregar suas bebidas alcoólicas em sacos de papel pardo. Comum em cidades dos Estados Unidos, o veto a beber álcool na rua, e até a predisposição a esconder garrafas que nem sequer abertas estão, teria a ver com as raízes de um país 50% protestante. Para um fiel, afinal, o ato de se embriagar não é de Deus.


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