22/10/2017 às 05h30min - Atualizada em 22/10/2017 às 05h30min

Uberlândia tem 2,6 mil novos casos de Aids em cinco anos

Cidade é a terceira maior em números de HIV no Estado; idosos e jovens são grupos com incidência preocupante

VINÍCIUS LEMOS | REPÓRTER
Medicamentos são fornecidos no Ambulatório IST/AIDS Herbert de Souza / Foto: Vinícius Lemos

 

De 2012 até agora, 2.649 pessoas foram diagnosticadas com Aids em Uberlândia, a cidade que, segundo o Fórum Mineiro de Assistência–Aids, é a terceira maior em números envolvendo HIV no Estado. Apenas em 2017, 379 pessoas, incluindo duas crianças, foram notificadas para o tratamento contra o vírus no Município. Números que são preocupantes e chamam a atenção de órgãos que trabalham na prevenção, tratamento e acolhimento de pacientes soropositivos por ainda atingirem patamares alarmantes devido ao descuido da própria população. O uso de preservativos, ainda que altamente difundido, não é usual e acaba determinante para o atual quadro.

A curva do número de casos de Aids em Uberlândia aponta para um decréscimo de notificações em 2017, se comparado com os últimos quatro anos, mas está interpretação é incorreta, segundo o serviço de saúde. De acordo com dados do Ambulatório IST/AIDS Herbert de Souza, referência no Município, entre 2012 e 2015, houve um salto de 77 para 655 casos, o que seria o pico da estatística recente. Com 379 pessoas notificadas até outubro deste ano, o cenário apresentado é, na verdade, a acomodação de uma mudança de protocolo que ampliou o atendimento.

“Até 2012 a gente não notificava todo mundo para tomar a medicação, só os que tinham desenvolvido a doença em si. Em 2013 passou-se a notificar todo mundo que teve detectado o vírus, mesmo que não tenha desenvolvido a Aids”, explicou a coordenadora municipal do Programa IST/Aids e hepatites virais, Cláudia Maria Spirandeli.

O novo protocolo levou, então, a um aumento das notificações de pessoas que antes só faziam acompanhamento e passaram a ser medicadas. Dessa forma, a nova diretriz vinda do Ministério da Saúde é o chamado “90 – 90 – 90”, procedimentos que têm metas de diagnosticar 90% da população com vírus ou que tenha desenvolvida a doença, tratar ao menos 90% dessas pessoas, para que tenham reduzidas em 90% suas cargas virais, o que faz a doença ser indetectável nos exames.

Esse esforço visa criar novas formas de combater o avanço do problema: se houve um relaxamento no uso da camisinha, estimula-se o diagnóstico, o tratamento e mantém campanhas para que o preservativo não seja esquecido. Com mais pessoas tratadas com os medicamentos oferecidos gratuitamente na rede pública de saúde, pacientes com o vírus terão maior qualidade de vida e diminuem em grande porcentagem o risco de passarem o vírus em futuros relacionamentos.

Uma das formas de promover conscientização e tratamento é a aplicação dos chamados testes rápidos. Em média, são feitos 600 testes do tipo em Uberlândia, cujo resultado sai em 20 minutos e também é gratuito. Após a infecção pelo HIV, o sistema imunológico demora cerca de um mês para produzir anticorpos em quantidade suficiente para serem detectados pelo teste. Por conta disso, o mais aconselhável é que se faça o exame após esse período. Por isso, o teste não é uma ferramenta indicada para ser usada de maneira indiscriminada e a todo momento. O ideal é a prevenção no ato sexual.

 

SEXO ORAL

Sendo assim, ainda que os números desse ano não atinjam o mesmo patamar de registros anteriores, eles ainda são considerados altos. Um fator mais específico que tem colaborado para isso são mitos ou desconhecimento em relação ao sexo oral. “Muitas pessoas ainda acham que o sexo oral é uma forma de sexo completamente segura e que dispensa o uso do preservativo. Há quem ache que assim como não se transmite Aids pelo beijo, o mesmo aconteceriam com o sexo oral, o que não é verdade”, disse Cláudia Maria Spirandeli.

 

PERFIL

Em termos de faixa etária, Uberlândia segue os mesmos perfis que a média nacional, com jovens e idosos apresentando taxas preocupantes de contaminação. No caso dos jovens, a maior parte dos novos casos está nas pessoas com idades entre 16 e 29 anos. Pesquisas recentes mostram aumentos significativos de soropositivos com mais de 60 anos, de acordo com o Ambulatório Herbert de Souza.

O fato de Uberlândia ser uma cidade universitária e também um local de turismo de negócios contribui para elevar os números nesses dois grupos. O uso de álcool e drogas e a grande oferta de sexo pago também ajuda nesse sentido. São catalogadas cerca de 400 casas de prostituição na cidade, além de oferta via internet. “Nesse caso, levamos testes para serem feitos nesses locais de encontro e orientamos as pessoas”, contou Spirandeli.

 

MINAS GERAIS

Como maior cidade e sede da Superintendência Regional de Sapude (SRS), Uberlândia concentra 80% dos casos de HIV/Aids da região de 16 Municípios no Triângulo Mineiro. Em todo o Estado de Minas Gerais, de acordo com dados da Secretaria de Estado de Saúde, 35.960 casos de HIV/Aids foram noticiados entre desde 2007 até outubro de 2017. Nesse mesmo período, foram 3.626 mortes. O que chama a atenção é que a mortalidade vem caindo no Estado, com redução de 70% em 10 anos. Em 2007 foram 480 óbitos e até agora, em 2017, o número não passou 144 falecimentos.

 

AUMENTO DE CASOS

Sífilis preocupa entre gestantes

Com um crescimento de 48% nas notificações de gestantes com sífilis nos últimos cinco anos em Uberlândia, essa infecção sexualmente Transmissível (IST) se destacou. Em 2012 existiam 22 gestantes notificadas, o que chegou a 120 casos até agora em 2017. Os casos sempre foram obrigatórios de notificação para o tratamento. As causas não são diferentes da Aids e envolve a falta de cuidado e o não uso da camisinha, segundo o Ambulatório Herbert de Souza.

A doença chama a atenção porque demanda um cuidado que envolve toda a família para que a sífilis não seja transmitida para o bebê. “Ela tem que fazer o tratamento correto. O parceiro também tem que ser tratado e temos de deixa-los conscientes do risco que a criança corre. Se esse processo não acontecer da maneira correta, a mãe vai se recontaminando e isso aumenta as chances de passar para o bebê”, explicou a coordenadora do Programa IST/Aids e hepatites virais, Cláudia Spirandeli.

 

RNP

Instituição dá apoio desde 1999

Criada em por uma pessoa que se descobriu portadora do HIV, em 1999, a Rede Nacional de Pessoas Vivendo e Convivendo com HIV e Aids (RNP) oferece acolhimento a mais de 850 pessoas e tem o objetivo de melhorar a qualidade de vida tanto de quem tem a doença quanto daqueles que convivem com os pacientes. A instituição, que fica na rua Ya Nasso, no bairro Planalto, zona oeste de Uberlândia, recebe, inclusive, pessoas de fora da cidade.

“Nós estimamos que só na cidade haja 5 mil pessoas em tratamento contra a Aids. Nós fazemos o acolhimento para que a pessoa não se sinta sozinha. Há ainda um grande preconceito. Queremos inserir essas pessoas novamente na sociedade e que elas se aceitem”, disse o presidente a RNP, Edival Cantuário.

O dinheiro para manutenção do trabalho vem de subvenções, como a que existe com a secretaria de Saúde de Uberlândia, além de projetos contemplados por outras instituições ou mesmo o Ministério da Saúde. Isso garante atendimentos psicológicos, jurídicos e também dentro de grupos de autoajuda.

A RNP também promove visitas a hospitais e domicílios para auxílio das pessoas diagnosticadas com a Aids. Recentemente, a instituição fez uma parceria para recebimento de estudantes de Medicina que vão fazer estágio e ajudarão na aplicação de testes rápidos.

A Rede recebe pacientes encaminhados de postos de saúde ou mesmo do Ambulatório Herbert de Souza. Com um trabalho que foi levado a 20 escolas da cidade, recentemente a RNP ganhou prêmio com uma peça teatral que fala sobre as novas formas de prevenção contra a Aids.

 

RELATO

Jovem ainda tem rotina de cuidados intensos

Há cinco anos, Firmino (nome fictício) começou um acompanhamento psicológico por causa da convivência de quase 10 anos com a Aids. Ele descobriu que portava o vírus aos 23 anos e, por um período, pensou que não poderia mais viver, chegando a tentar suicídio. Homossexual, ele disse que sofreu preconceito dentro de casa, quando em brigas com o pai foi dito a ele que além de ser gay, ele levou a Aids para sua família.

Recuperado do período mais difícil de sua vida, o atendimento psicológico tem o intuito de melhorar sua socialização, uma vez que Firmino tem uma vida relativamente normal, salvo pela preocupação intensa em manter a rotina de sua medicação.

Ele contou que se fechou por conta das inúmeras decepções que teve durante a vida, todas causadas pelo preconceito, e hoje está focado em seu tratamento. “Eu saí do meu primeiro armário, a minha sexualidade, mas o segundo é de ferro, que é preconceito”, afirmou.

 

Aids em Uberlândia

Notificações ano a ano

2012

Adultos: 75

Crianças: 2

 

2013

Adultos: 453

Crianças: 3

 

2014

Adultos: 454

Crianças: 2

 

2015

Adultos: 655

Crianças: 4

 

2016

Adultos: 622

Crianças: 0

 

2017 (até outubro)

Adultos: 377

Crianças: 2


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