02/10/2017 às 05h37min - Atualizada em 02/10/2017 às 05h37min

UFU atende 1,5 mil animais silvestres

Dados correspondem à média anual; 70% dos animais internados foram capturados fora do habitat natural

VINÍCIUS ROMARIO | REPÓRTER

Professor diz que Lapas-UFU precisa de doações; veado foi capturado em setembro em academia no Fundinho / Fotos: Vinícius Romario/Divulgação

 

O período de estiagem, que se encerrou, em Uberlândia, na última sexta-feira, foi marcado neste ano pelo grande número de queimadas em áreas de reserva. Com a destruição do habitat natural ocasionado pelas chamas, muitos animais fogem, e aqueles que não morrem atropelados ou feridos no caminho, chegam até os centros urbanos em busca de alimentos e abrigo. 

No dia 15 do mês passado, por exemplo, um veado silvestre foi capturado pela Polícia Militar (PM) de Meio Ambiente dentro de uma academia, no bairro Fundinho, setor central de Uberlândia. Após ser contido, o animal foi levado para Laboratório de Pesquisa em Animais Silvestres da Universidade Federal de Uberlândia (Lapas-UFU), onde passou por avaliação e cuidados até ser novamente solto. 

Segundo o coordenador do Lapas-UFU, professor André Quagliatto, atualmente existem cerca de 300 animais no setor. Cerca de 70% deles foram capturados fora de seu habitat natural.

Ainda de acordo com ele, vem aumentando em 20% ao ano o número de animais encaminhados para o Lapas-UFU. “Tem havido uma conscientização maior da população, que quando nota um animal ferido ou fora da natureza, aciona os órgãos responsáveis, que trazem esse animal para a gente. Como a UFU serve de referência, temos recebido animais de todo o Triângulo Mineiro”, afirmou Quagliatto.

Sobre a permanência desses animais no hospital, o professor conta que varia muito. “Ficam os que estavam feridos ou filhotes. Aqui eles recebem todo o tratamento necessário para os ferimentos ou para eventuais doenças, além da alimentação servida com base no que necessita cada animal”, disse Quagliatto.

Ainda de acordo com ele, por ano, 1,5 mil animais silvestres passam pelo Lapas-UFU, uma média de quatro animais por dia. “A rotatividade é muito grande. Muitos têm problemas mais fáceis de resolver e logo são devolvidos à natureza. Outros são destinados para pesquisa e até para zoológicos, mas quem decide isso é o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) ou Instituto Estadual de Florestas (IEF)”, afirmou Quagliatto.

 

ANIMAIS

Atualmente, no Lapas-UFU existem alguns animais comuns no Cerrado, mas difíceis de serem vistos livres na natureza, dentre eles, uma suçuarana e um lobo-guará. “Esse lobo está com a gente há um ano. Ele foi atropelado e chegou aqui muito ferido, com hemorragia, além de ter perdido um olho”, disse Quagliatto.

Segundo o professor, o animal já está recuperado e continua internado somente para adquirir força nos músculos das patas. “Como foi uma recuperação lenta, ele perdeu força, e depende dessa força e agilidade para viver na natureza”, explicou o professor.

Há também no local um animal exótico de três metros de comprimento e que causa espanto em muita gente. Trata-se de uma píton, cobra natural do continente asiático. “É até interessante como esse animal veio parar aqui. Há cerca de três anos um homem foi visto andando com ela enrolada no pescoço pelas ruas de Uberlândia. A polícia apreendeu o animal e trouxe para cá”, conta Quagliatto.

Há ainda no Lapas-UFU 16 jacarés, cinco lagartos, duas araras, 30 cobras e serpentes, 60 tartarugas, 20 papagaios, três cachorros-do-mato, uma raposa, além de outras diversas aves.

Laboratório de Animais Silvestres da UFU cuida de 16 jacarés, dentre outros animais / Foto: Vinícius Romario

 

PESQUISAS

Diversas pesquisas são conduzidas pelos professores e alunos no setor de animais silvestres da UFU, mas, segundo André Quagliatto, duas merecem mais destaque. A primeira tem o intuito de comprovar os malefícios que os agrotóxicos trazem aos animais. “Fazemos essa pesquisa in vitro, com ovos de serpentes”, disse o professor.

Segundo ele, os resultados já mostram que diversos distúrbios podem ocorrer com animais expostos a agrotóxicos, como problemas genéticos e até de reprodução.

Na segunda pesquisa, feita em parceria com o Laboratório de Bioquímica e Toxinas Animais (Labitox), a intenção é usar moléculas do sangue de serpentes no combate a células cancerígenas.

Além das pesquisas, alguns animais participam de projetos de educação ambiental, caso de um gavião e uma coruja que estão no Lapas-UFU. “Nos os adestramos e damos toda a condição, assim, quando formos a uma escola, podemos levar o animal, que de uma maneira mais positiva vai gerar um impacto sobre aquela criança. Não precisamos incomodar outro animal que esteja solto”, disse Quagliatto.

Lobo-guará foi capturado muito ferido e fraco; animal está há 1 ano no Lapas-UFU / Foto: Vinícius Romario

 

DIFICULDADES

Segundo André Quagliatto, as dificuldades financeiras que atingem toda a UFU também afetam o setor de animais silvestres. “Precisamos muito de doações, principalmente de alimentos, como frutas, ovos, leite, rações”, disse Quagliatto.

Quem estiver interessado em doar pode entrar em contato pelo telefone 3225-8433. “Mas sempre falo que quem quiser doar, venha primeiro fazer uma visita aqui, e ver que o que fazemos é sério e feito de maneira correta”, afirma Quagliatto.

 

PM DE MEIO AMBIENTE

Captura está cada vez mais frequente

Segundo o comandante do Pelotão de Meio Ambiente da Polícia Militar, tenente Patrício Renato Ferreira, ainda não é possível quantificar o número capturas de animais silvestres na zona urbana de Uberlândia, apesar deste tipo de ocorrência estar crescendo na cidade. “As queimadas são os principais causadores”, afirma Ferreira.

Ainda segundo ele, no início do mês passado, quatro veados foram capturados na cidade em três dias, dois na mesma data. “Além das queimadas, temos uma região onde a agricultura e pecuária são fortes. Assim, as fronteiras do agronegócio vão aumentando, enquanto os espaços desses animais vão diminuindo, o que os força a virem para as cidades”, ressalta Ferreira.

Outro problema apresentado pelo militar são os locais de descarte irregular de lixo. “As pessoas vão e jogam alimento nesses espaços, o que acaba atraindo o bicho. Então, precisamos que a população também tenha essa consciência”, disse Ferreira.

A Polícia Militar do Meio Ambiente é o órgão responsável pelo recolhimento e apreensão de animais silvestres. Ainda de acordo com Ferreira, assim que avistar um animal silvestre, mesmo que ferido, o que se deve fazer é entrar em contato com as autoridades competentes. “Caso a pessoa tenha conhecimentos, ela também pode fazer a contenção e encaminhar o animal para UFU, mas, se não, o melhor é acionar a autoridade competente”, disse.

Nesses casos, o tenente recomenda entrar em contato com o Corpo de Bombeiros, por meio do 193, ou com a Polícia Militar do Meio Ambiente, por meio do 190 ou 3257-6400. “Temos técnicas e equipamentos específicos para a captura desses animais”, afirma.

 

ATROPELAMENTO

Morrem 15 animais por segundo

Segundo o Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas (CBEE), as estimativas mostram que mais de 15 animais morrem nas estradas brasileiras a cada segundo. Diariamente, devem morrer mais de 1,3 milhões de animais e ao final de um ano, até 475 milhões de animais selvagens são atropelados no Brasil.

Ainda de acordo com CBEE, a grande maioria dos animais mortos por atropelamento é de pequenos vertebrados, como sapos, pequenas aves, cobras, entre outros. Do total, aproximadamente 430 milhões de animais mortos por atropelamento são de pequeno porte. O restante dos 45 milhões se dividem em 40 milhões de animais de médio porte, como gambás, lebres e macacos, e 5 milhões de grande porte, como onça-parda, lobos-guarás, onça-pintada, antas e capivaras.

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