02/09/2017 às 05h24min - Atualizada em 02/09/2017 às 05h24min

Uberlândia inspira artistas que buscaram novos horizontes

Mesmo morando em outros lugares, eles levam consigo o nome da cidade que os projetou

ADREANA OLIVEIRA | EDITORA
Helena Manzan em seu ateliê a céu aberto no Castelo San Vizenzo, em Molise, Itália / Foto: Divulgação

 

A arte de Uberlândia espalha-se pelo mundo e deixa sua marca na música, nas artes plásticas, na atuação e direção. Acolhedora como é, a cidade recebe por aqui pessoas para as quais ela acaba se tornando pequena, mas para quem vale dizer que elas saem da cidade, mas a cidade não sai delas. A artista plástica Helena Manzan e o diretor e ator Jorge Farjalla são somente dois entre muitos exemplos de uberlandinos que sempre fazem referência ao seu segundo berço. Graduados pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) – ela em Artes Visuais, ele em Artes Cênicas –, sempre destacam o papel da cidade mineira em suas vidas.

Helena Manzan nasceu em Tupaciguara (MG), onde viveu até os 8 anos de idade, quando veio para Uberlândia e aqui morou por 34 anos. “A partir de 1998 comecei a expor na Europa, em de 15 de outubro de 2002 me transferi definitivamente para a Itália com meus filhos, Camilla e Gustavo, na época com 14 e 11 anos, respectivamente”, contou ela, que hoje vive em um castelo, o San Vicenzo, em Molise.

O contato com o cerrado e com a Amazônia está sempre visível nos trabalhos de Helena Manzan, preciosidades aos olhos de que tem a chance de contemplá-los. “O Cerrado é muito forte na minha arte. A infância na fazenda me proporcionou uma grande bagagem criativa. Minha arte vem da terra, das árvores, dos cristais, da água e dos animais”, explicou. Helena conta que passou por uma simbiose das culturas brasileira, de sua família materna, e italiana, de seus avós paternos. “Isso me trouxe força e inspiração.”

A artista gosta de vivenciar a paisagem da Amazônia, onde ainda realiza pesquisas por meio da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), com apoio do professor doutor André Quagliatto. O material obtido em uma das expedições ao rio Araguaia, em 2011, a levou a expor na 54ª Bienal de Veneza. “Produzi vídeos importantes com as batidas do coração de jacarés, tartarugas e suçuaranas, além do registro do vento, das águas e das folhas”, contou a artista.

Para Helena, viver na Europa a fez reconhecer e valorizar ainda mais suas raízes brasileiras e, por isso, escolheu morar em um lugar com uma paisagem natural linda e longe das grandes cidades na Itália. “Aqui meu contato com a natureza é frequente e direto”, comentou a artista, que já pintou obras com a terra do Araguaia, folhas e frutos secos e com os movimentos dos lagartos pássaros. “Na Amazônia tudo se inicia de um observar, ou seja, de um respiro. Tudo respira, o homem, as pedras, o vento, a chuva.”

Nesses 15 anos de Itália, Helena Manzan aprendeu o idioma local naturalmente, mas não esconde seu sotaque verde-amarelo. De certa forma, o fato de ser brasileira torna, mesmo que indiretamente, seu trabalho mais interessante. “Aqui eles adoram a nossa musicalidade e se interessam muito por minha técnica e originalidade. De certa forma, a energia do Brasil se reflete na alegria e na energia do meu trabalho, nas cores, nos materiais. Dessa forma, eu uso a emoção brasileira com meu amor pela arte”, contou ela, que trabalha em peças de uma nova mostra que terá muitas cores, e um pouco dessa inspiração vem da festa do Congado, que ela tanto adora.

Em breve teremos um filme sobre a arte de Helena Manzan. “Este documentário está em produção há seis anos. Os idealizadores visitaram meu ateliê e se encantaram com minha história. Devem filmar em breve no Brasil para finalizar”, adiantou ela.

Helena afirma que sempre se recorda de quando via os aviões passarem sobre a fazenda em que morava, em uma casa simples às margens do rio das Velhas, e pensava que um dia estaria em um deles, sonho que só se realizou na fase adulta. E o sonho é algo que se vive todo dia e, mesmo no belo castelo em que se instala, é viva em sua lembrança a Uberlândia onde se formou. “Uberlândia foi sempre moderna, sempre oferecendo possibilidades. Eu venho das turmas do Senac, do Conservatório Estadual de Música Cora Pavan Capparelli, da UFU, das empresas como Grupo Algar, enfim, é um polo comercial e cultural esplêndido e tem uma luz única”, disse a artista.

 

TEATRO

Público local foi o estímulo principal de Jorge Farjalla

Jorge Farjalla defuma o teatro em Belo Horizonte, hábito que começou em Uberlândia / Foto: Divulgação

O ator e diretor Jorge Farjalla é natural de Catalão (GO) e viveu em Uberlândia entre 1998 e 2007, quando se mudou para o Rio de Janeiro. Estudou Artes Cênicas na UFU e depois atuou como professor na instituição. “Uberlândia tem um papel ímpar na minha história, foi aí que comecei a alçar voos. Dentro do próprio curso, ainda como discente, meus trabalhos já eram reconhecidos em Festivais de Teatro pelo país, principalmente minha assinatura como diretor e encenador”, contou Farjalla. Ele explica ainda que a UFU, somada à sua vontade, permitiu que se tornasse o aprendiz que é até hoje. “Aprendo sempre! Uberlândia e o povo daí abraçaram o meu trabalho, me deram estímulo para seguir em frente”, recordou.

Estudioso da obra de Nelson Rodrigues, Farjalla esteve em Uberlândia recentemente com o espetáculo “Dorotéia” – na plateia, muitos amigos que o viram despontar como ator nos palcos da cidade. “Ainda sou ator, mas ele, o meu ator, está dormindo, por enquanto. Mesmo como ator, eu sempre dirigi meus trabalhos no âmbito da academia. Não foi fácil e ainda não é. Se Deus quiser, nunca será”, enfatizou. Para ele, chegar a uma cidade como o Rio, ser engolido pela massa “pseudoartística” e sobreviver foi a parte de maior aprendizado. "Dorotéia" foi a coroação de 10 anos vividos de arte na Cidade Maravilhosa. “Seguir com o espetáculo para Uberlândia foi um momento importante para mim e minha carreira”, afirmou.

Farjalla mantém laços de muito amor e carinho por algumas pessoas da cidade que fortaleceu o seu ímpeto pelo teatro, pela arte, pela vontade, principalmente dentro da UFU. “Éramos um grupo que fez o curso acontecer com nossa força artística e nossa vontade. Sempre me lembro que, quando cheguei, o curso ainda não era reconhecido pelo MEC. Lutamos muito. Não há o que não goste ou o que não me faz falta hoje. Me faz falta a proteção que a universidade nos dava naquela época. Mas não penso muito para não ser tão saudosista”, contou o diretor, que preserva algumas de suas tradições da época de Uberlândia, como defumar os teatros antes das apresentações.

Desde 2008, Farjalla também tem pesquisado a linguagem do cinema em curtas-metragens. Agora, com o "O Cravo e a Rosa – O Documentário", sobre os 60 anos de carreira de Rosamaria Murtinho e Mauro Mendonça no Teatro, Cinema e Televisão do Brasil, é o momento certo para sua estreia como longa documentário. “Trata-se de uma trajetória impecável de vida na arte. Pretendo estreá-lo aí, quando possível. A uberlandense Sílvia Spolidoro assina o roteiro, fiz o convite a ela quando fui convidado pela produtora e idealizadora Kellys Kelfis, para dirigir o longa. Não há como não estrearmos aí”, afirmou Farjalla, que está ansioso principalmente por falar de um momento tão importante para a geração dele e as gerações seguintes, como a de Rosamaria e Mauro. “Entrevistei Fernanda Montenegro, Ary Fontoura, Nathalia Timberg, Wolf Maya e tantos nomes importantes para a nossa vida artística, que o filme permeia a vida na arte de todos eles”, afirmou o diretor, que dedicou dois anos ao projeto, em fase de finalização.


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