25/06/2017 às 05h22min - Atualizada em 25/06/2017 às 05h22min

Autismo é tema de congresso em julho

Uma das palestrantes é Asperger e mãe de menina autista

WALACE TORRES | EDITOR
Carolina Almeida descobriu ser Asperger depois que a filha foi diagnosticada com autismo / Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação

 

Aos dois anos e meio de idade, a filha de Carolina Almeida foi diagnosticada com autismo clássico, que é caracterizado por problemas com a comunicação, interação social e comportamentos repetitivos. A partir do diagnóstico, a filha passou a fazer terapias e ser acompanhada por especialistas como fonoaudiólogo e pedagogo que entendiam sobre a deficiência. “A Isabel era uma criança completamente diferente do que ela é hoje, evoluiu muito”, conta Carolina.

Hoje Isabel tem 8 anos e muitos motivos para orgulhar a família. O principal deles provavelmente seja o fato de que, dois anos depois de receber o tratamento adequado, os profissionais que acompanhavam Isabel descobriram em Carolina traços da deficiência, e constataram que a mãe tinha a Síndrome de Asperger, uma forma mais amena de autismo. Este tipo de autismo tem algumas características distintas, como excepcionais habilidades verbais e problemas no convívio social. Era o caso de Carolina, que passou toda a infância, adolescência, juventude e muitos anos da vida adulta tentando entender a dificuldade de se relacionar com outras pessoas. “Passei 10 anos indo ao psicólogo tratando da questão da socialização, a dificuldade de ter contato com as pessoas, crise de ansiedade e uma certa fobia de estar no meio de multidão. Isso tudo era muito difícil pra mim”, relata Carolina, que chegou a sofrer com bullying na escola e ainda teve que lidar na mesma época com a separação dos pais.

O diagnóstico de Asperger foi o divisor de águas em sua vida. “Descobri que tudo fazia sentido e passei a entender melhor as coisas. Tirei um sentimento de culpa de dentro de mim e passei a ter mais qualidade de vida, a ter mais contato com outros adultos com Asperger”, diz Carolina, que só há um ano decidiu compartilhar sua experiência com outras pessoas. Esse “despertar” aconteceu durante um congresso em sua cidade, Montes Claros, no Leste de Minas Gerais, em que ouviu relatos semelhantes de pais e também portadores da Síndrome de Asperger. “Quando recebi o convite vi que estava na hora de falar também, me abrir para outras pessoas. Tive muito apoio do meu marido”, conta.

Essa experiência também será compartilhada com o público de Uberlândia, durante o Congresso Interdisciplinar sobre Autismo, que acontece nos dias 1º e 2 de julho no anfiteatro do bloco 3Q do campus Santa Mônica da Universidade Federal de Uberlândia. A programação completa será divulgada nos próximos dias. Carolina Almeida fará palestra sobre o tema “As interferências das disfunções sensoriais no cotidiano da pessoa com TEA”. Ela é graduada em Letras, funcionária pública, tem pós graduação em Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) e administra a página “Divulgue o Autismo” no Facebook.

A partir do último Manual de Saúde Mental, o conceito TEA passou a ser adotado para o autismo e outros distúrbios, como transtorno autista, transtorno desintegrativo da infância, transtorno generalizado do desenvolvimento não-especificado (PDD-NOS) e Síndrome de Asperger.

Sua palestra será um relato de mãe de autista, especialista no assunto, bem como a vivência com a síndrome e a necessidade de os pais estarem atentos ao comportamento dos filhos. “Se hoje ainda há dificuldade em identificar o autismo, imagina há 30 anos. Os sinais eram claros na infância, mas ninguém percebia”, diz.

 

MULTIDISCIPLINAR

Grupo tenta aprimorar processo de inclusão nas escolas

Um dos assuntos em destaque no Congresso Interdisciplinar sobre o Autismo será a questão da inclusão das crianças e jovens com a deficiência na escola. Segundo a pedagoga e mestre em Educação pela UFU Noemi Mendes Alves Lemes, ainda há muita dificuldade de professores e escolas tanto da rede pública quanto particular no processo de ensino e aprendizagem de autistas. “Hoje não tem essa questão da segregação. Os alunos estão inseridos na escola regular atendendo a legislação de uma proposta mundial sobre pessoas com a deficiência. Isso é muito bom, pois reconhece o potencial de todos, mas por outro lado é um grande desafio para o modelo de escola que temos hoje”, avalia Noemi. “É necessário repensar a prática pedagógica. Não é só abrir a porta e aceitar os alunos, é preciso garantir o aprendizado dessas pessoas, entender o perfil de cada um e trabalhar nesse contexto”, completa.

A especialista é coordenadora do Grupo de Estudo e Pesquisa em Transtorno do Espectro do Autismo (GEPTEA), que é ligado ao Grupo de Estudo e Pesquisa em Políticas e Práticas em Educação Especial da UFU. O GETPEA foi criado em 2012 e reúne profissionais de várias áreas do conhecimento, especialmente educadores da rede pública e particular, que estudam e identificam os problemas enfrentados nas escolas visando aprimorar o processo de inclusão dos alunos com autismo. Em 2016, o grupo identificou cerca de 600 alunos com algum grau de autismo na rede pública municipal de ensino. Numa audiência pública realizada há dois meses na Câmara Municipal, foi cobrado das autoridades uma parceria para realização de censo que permita identificar a população de autistas em toda a cidade.

Hoje, não há dados oficiais no Brasil a respeito do número de pessoas com a síndrome, havendo apenas estimativas da década anterior que apontam 1% da população. Essas estimativas, no entanto, tem crescido vertiginosamente a cada ano em função, principalmente, da conscientização do diagnóstico precoce. Cerca de 60% das crianças com autismo apresentam sinais do transtorno ao nascer. Quanto mais cedo for diagnosticada a deficiência, melhor será o resultado do tratamento, proporcionando melhora da qualidade de vida da criança e dos familiares.

“Estima-se que até o ano de 2020 teremos 15% da população em geral com autismo. Portanto, é preciso saber avaliar e diagnosticar corretamente os casos”, diz Noemi Mendes. “Hoje, temos uma pesquisa em andamento sobre mediação escolar e práticas pedagógicas. Estamos discutindo os casos no grupo e aliando teoria e prática para contribuir e aperfeiçoar o processo de inclusão desses alunos”, conclui.

 

Congresso Interdisciplinar

*Palestras previstas

- As interferências das disfunções sensoriais no cotidiano da pessoa com TEA

Palestrante: Carolina Almeida

 

- O tratamento homeopático dos sintomas do TEA

Palestrante: Maria Helena Rossi

 

- A aplicação dos indutores e modulares frequenciais no TEA

Palestrante: Luiz Donizetti Knupp

 

- Direitos e políticas públicas voltadas às pessoas com TEA

Palestrante: Tatiana de Oliveira Takeda

 

- O processo de inclusão e a mediação escolar no TEA

Palestrante: Noemi Mendes Alves Lemes

 

*a programação completa será divulgada nos próximos dias


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