18/06/2017 às 05h37min - Atualizada em 18/06/2017 às 05h37min

Imediações da rodoviária viram espaço de usuários de drogas

Moradores de rua consomem crack e bebidas em praças e terrenos

WALACE TORRES | EDITOR
Moradores de rua passam o dia deitados na praça Nicolau Feres, onde há também tráfico / Foto: Marcos Ribeiro

 

Wanderci, 51 anos, está há 12 anos longe de casa. Nesse tempo, não tem nenhuma notícia dos quatro filhos, que moram em Ribeirão Preto. “Tem dia que a saudade dói, chega a sair lágrima”, diz. Aelton, 40 anos, separou da mulher há três anos e meio, mas tem contato com os filhos de vez em quando. “Deixei a casa pra eles e a mãe”, conta.

Histórias de vida parecidas, com relatos dramáticos e que têm como palco em comum as ruas de Uberlândia. Wanderci e Aelton fazem parte das estatísticas que só tem crescido na cidade. No inicio do ano eram mais de 1,1 mil pessoas vivendo nas ruas. Boa parte desse público está concentrado nas imediações do Terminal Rodoviário, no bairro Martins, onde a situação de vulnerabilidade não é o que mais preocupa. Guardadas as devidas proporções, a região tem se transformado numa pequena “cracolândia” de Uberlândia. Usuários da droga estão concentrados em grupos que ficam nas praças, terrenos baldios e imóveis abandonados. Fumam à luz do dia, à noite, sem nenhum constrangimento ou medo de repressão. Aliás, o sentimento mais evidente entre os grupos é a indiferença. Não há preocupação com a higiene pessoal, saúde, a aparência.

A presença de estranhos é algo que incomoda. A reportagem do Diário passou uma manhã inteira acompanhando à distância o comportamento de alguns moradores de rua nas praças da Bíblia, em frente ao Terminal, e Nicolau Feres, dois quarteirões acima. Ao se aproximar de um grupo e identificar-se como imprensa, a primeira reação é de desconfiança. “Ninguém quer falar nada aqui”, se adianta um deles. Também não se deixam ser fotografados ou identificados. De um grupo de 12 pessoas num canto da praça da Bíblica, quatro são mulheres. Os olhos vermelhos e as pupilas dilatadas evidenciam um provável consumo recente de crack. A conversa desconexa e os olhares de lado, evitando o contato direto, também são sinais de que o grupo quer o anonimato. Enquanto a reportagem tenta extrair algum diálogo, dois rapazes iniciam uma briga, rolam no chão, se agarram no pescoço um do outro. Ninguém separa. “Eles tão só brincando, não é de verdade”, conta outro rapaz quando a reportagem pergunta se ninguém iria ajudar.

Convivendo com o grupo está um garoto de 13 anos. Ele afirma que não é usuário de droga e que está ali por causa de “problemas com a família”. Debaixo de uma árvore estão seus pertences, uma mochila, colchão e coberta. Já faz um ano essa situação. Em outro canto da praça, Wanderci passa o dia no passeio na companhia de outras quatro pessoas. Ele disse que não é usuário de droga, mas confessa que não passa um dia sequer sem beber. De preferência, pinga pura. “Eu tenho vontade de trabalhar, mas a bebida não deixa”, diz ele, se lembrando que tem dotes de artesão.

Ao longo da praça é fácil perceber outros moradores de rua que também foram dominados pelo álcool. Em quase todo canto, há gente dormindo na grama. Nos estacionamentos, a disputa é por um trocado. Cada grupo ou indivíduo toma conta de um pedaço da rua. O dinheiro ganho como “guardador” é praticamente consumido no vício, segundo relata um trabalhador nas proximidades. O bar na esquina é prova disso. Em pouco menos dez minutos que a reportagem esteve no estabelecimento, pelo menos três rapazes compraram cerveja. Eram pouco mais de 10h da manhã. “É só bebida que eles compram, nada de comida”, diz o dono do comércio, José Vieira Rodrigues.

Relatos médicos apontam que o dependente de crack quase não come, nem dorme, o que provoca um rápido processo de desnutrição e emagrecimento. Segundo estudos amplamente divulgados sobre a droga, um usuário adulto pode perder até dez quilos em um único mês.

 

PERIGO

A presença de tantos moradores de rua e dependentes químicos na Praça da Bíblia deixa em alerta quem trabalha e vive por perto. Um taxista que trabalha há 17 anos no ponto do Terminal Rodoviário conta que à noite quase ninguém passa a pé pela praça. “Nos últimos cinco anos a coisa piorou e aumentou o fluxo. É muita cachaça e crack”, conta o motorista, que preferiu ter a idade preservada. Segundo relata, o grau de periculosidade também aumentou com a presença de traficantes e pessoas consideradas perigosas. “Não tem muito tempo, havia um usuário que estava uns cinco anos aqui na rodoviária. Quando a polícia fez uma abordagem, descobriu que ele era fugitivo de uma penitenciária de Goiás. Cumpria pena por homicídio”, diz.

No ponto da rodoviária são 41 permissionários de taxi, o que mantém boa parte dos usuários à distância. Mas, como em todo ambiente público, só não pode descuidar. “Outro dia furtaram o celular de dentro do carro de um companheiro”, relata o taxista.

Os relatos de perigo na região não têm o mesmo peso. Para o comerciante José Vieira Rodrigues, a praça da Bíblia já passou por momentos piores. “Há uns 15 anos isso aqui era mais barra pesada. Hoje a Polícia Militar está mais presente, tem abordagem toda hora”, diz o comerciante, que também tem o mesmo ponto há 17 anos. “Eu estou bem de frente à praça. A PM passa na porta toda hora. O problema maior é a pinga”, conta.

Na praça Nicolau Feres, o comerciante João Batista Martins tem uma visão um pouco diferente da situação. “À noite o cidadão de bem não atravessa a praça”, diz João Batista que trabalha e também mora em frente à praça. Segundo relata, à noite, a concentração de moradores de rua na praça é ainda maior, o que gera outras situações. “Aqui tem sexo ao vivo, uso de droga e até churrasco na praça”, diz.

A reportagem encontrou um fogão montado debaixo de uma árvore na praça Nicolau Feres. Ao lado, dois moradores de rua preparavam um monte de pedaços de frango para o almoço. Uma mulher disse que tinha casa, mas que preferia morar na praça. Ao seu lado, sentada num lençol estendido na grama, uma senhora com melhor aparência disse que estava ali “visitando a filha” que resistia em voltar pra casa. “A gente é mãe, tem que vir pra saber como está”, diz a senhora, tirando um documento da bolsa para mostrar que não era moradora de rua.

Do outro lado do passeio, a varanda do comércio de João Batista foi protegida por uma grade. “Tive que colocar, pois o pessoal passava a noite aqui fazendo de tudo”, conta. Em vários cantos da praça, era visível a presença de moradores de rua dormindo na grama enquanto outros rapazes andavam de um lado para o outro, alguns desconfiados pela presença da reportagem. E com as pupilas dilatadas.

Apesar da “ocupação” indevida e da prática de atos suspeitos, a praça Nicolau Feres consegue exercer o seu papel social. O espaço recebe manutenção diária da equipe de limpeza urbana, tem quadra esportiva, academia ao ar livre e, pelo menos durante o dia, é frequentada por jovens e adultos do bairro. Um casal de estudantes que trocava olhares sentado num aparelho de ginástica, um grupo de jovens que conversavam descontraídos em outro banco e até mesmo um patinador que aproveitava o espaço para se divertir no final de uma manhã de terça-feira eram a prova de que nem tudo ao redor transmite medo e insegurança.

 

RECOMEÇO

Ex-dependente faz artesanato para sobreviver nas ruas

Aelton Rodrigues Celestino, citado no começo desta reportagem, mora na rua há três anos e meio. Ele admite que foi usuário de crack durante muito tempo e afirma que largou o vício há dois anos. “Foi vergonha na cara que me fez largar”, conta. Ele é artesão e conta que fabrica 100 tipos de produtos. O carro-chefe são as vassouras feitas de PET, piaçava ou pelo. “Eu consigo fabricar 160 vassouras por semana”, diz Aelton, mostrando fotos dele trabalhando para comprovar sua experiência. Cada uma é vendida a R$ 15. “Agora eu só preciso de uma ajuda com o material para dar conta de produzir mais. A prefeitura me ajudou com a fábrica”, diz Aelton, explicando que utiliza um cômodo na zona sul para confeccionar o material. Questionado por quê, então, não dorme num abrigo ou uma casa alugada, ele diz que se acostumou com a rua. “Aqui eu tenho tudo, o pessoal traz comida, roupa, agasalho”.

Aelton se referia aos grupos de voluntários que diariamente levam alimentos, roupas e cobertores aos moradores de rua.

Segundo levantamento da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social, Trabalho e Habitação, hoje existem 32 grupos que fazem esse tipo de ação na cidade. A maioria é ligada a alguma igreja. Comerciantes e autoridades ouvidos pelo Diário avaliam essa prática com restrição. Eles afirmam que não são contra o trabalho voluntário. No entanto, o entendimento é que a oferta em abundância tem gerado um comodismo a muitos moradores de rua, que não precisariam sair à procura de alimento e produtos de necessidade básica para sobreviver ou até mesmo buscar uma ocupação. Outro fator apontado é que a distribuição de alimentos na rua não é o mais adequado.

 

TERMINAL RODOVIÁRIO

Polícia prendeu 50 pessoas por tráfico nas imediações

Com o aumento da população de rua no entorno do Terminal Rodoviário e a constatação de que há um comércio de drogas sendo fomentado na região, a Polícia Militar tem intensificado as abordagens.

De janeiro a maio deste ano, 50 pessoas foram presas por tráfico de drogas somente nas imediações do Terminal Rodoviário. Foram 37 ocorrências registradas desta natureza. Outras sete pessoas foram conduzidas por uso de drogas. Houve ainda no mesmo período seis ocorrências de perturbação do sossego, com seis presos, seis ocorrências de lesão corporal com 12 conduzidos e a apreensão de aproximadamente 1 mil pedras de crack e 200 buchas de maconha. Teve ainda o cumprimento de cinco mandados de prisão.

“Os problemas do Terminal Rodoviário e suas adjacências é muito mais complexo e abrangente, sendo imperioso o envolvimento de vários seguimentos da sociedade”, relata o comandante da 171ª Cia. de Polícia Militar, responsável pelo patrulhamento naquela região, capitão Miguel Ângelo Tatis Batista.

Em um documento que solicita ajuda das autoridades municipais, em resposta a um ofício da vereadora Michele Bretas, que também cobrava informações sobre o patrulhamento feito na região, o comandante cita o trabalho realizado por equipe de analistas criminais da PM que constatou que a maioria dos traficantes não permanece fixo na praça, além de transitar com pouco entorpecente. “A maior quantidade de drogas tem ficado acondicionada nos hotéis e pousadas, haja vista estes estabelecimentos no entorno terem preços de estadia acessíveis e baratos”, cita, pedindo ajuda do Município na fiscalização, apontando que alguns desses hotéis não possuem alvará de funcionamento ou estão com o documento vencido. No mesmo documento, a PM também pede que os terrenos baldios públicos no entorno sejam fiscalizados, bem como de particulares proprietários desses terrenos. “Para atuação direta da Polícia Militar, em caso de invasão, é imperiosa a representação por parte da vítima, ou seja, sem esta parte não temos como dar prosseguimento ao nosso trabalho”.

 

MORADOR DE RUA E MIGRANTE

Secretaria atendeu mais de 1,2 mil pessoas este ano

De fevereiro a maio deste ano, a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social, Trabalho Habitação fez o acompanhamento de 1.255 pessoas entre moradores de rua e migrantes. Desse total, 111 são novos casos. Pelo menos 102 pessoas foram direcionadas para alguma atividade profissional, sendo que apenas 20 deram notícia de que realmente permaneceram no trabalho. “Algumas foram direcionadas para outra cidade, onde têm parentes. Temos feito um trabalho de parceria com outros municípios para ajudá-las a conseguir uma ocupação e a encontrar os parentes”, disse a responsável pela Diretoria de Proteção Especial à População de Rua e ao Migrante, Vera Luce Souza Faria.

Segundo a diretora, atualmente há uma casa de passagem destinada ao público masculino e outra que acolhe famílias, sendo cada uma com capacidade para receber 35 pessoas por até 15 dias. As duas são subvencionadas pelo Município. “Estamos trabalhando para conseguir abrir mais duas casas com entidades parceiras”. Ela disse que este ano 145 pessoas e outras 15 famílias foram encaminhadas para esses abrigos. Outros 81 moradores de rua foram direcionados para Comunidades Terapêuticas. “Não podemos obrigar a pessoa a ir para um centro de reabilitação”, explica Vera Luce.

Somente no setor de migração, 548 pessoas foram atendidas até maio, das quais, 146 receberam passagens para o destino indicado por elas. Desses, pelo menos 15 migrantes foram encaminhados diretamente às suas famílias. “Estamos desenvolvendo um trabalho educativo e implementando mais rigor no fornecimento de passagens, pois temos muitos casos de ‘trecheiros’, que são pessoas que ficam fazendo turismo”, diz Vera Luce, dizendo que houve casos em que uma só pessoa chegou a receber 30 passagens ao longo de um determinado período. Para evitar esse tipo de situação, o Centro de Migração tem colocado como critério o intervalo de um ano para que seja fornecida uma outra passagem à mesma pessoa.

Com relação ao trabalho dos grupos de voluntários, Vera Luce informou que já houve uma aproximação com algumas entidades e pelo menos duas delas vão disponibilizar espaços para receber moradores de rua e oferecer alimentação e cuidados básicos com uma estrutura mais adequada. “Muitos grupos voluntários fazem um trabalho informal. Estamos orientando para que eles providenciem a documentação e se credenciem para receber subvenções”.

Sobre a situação de imóveis utilizados nas praças, como fogão, a Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbanístico informou que só pode fazer o recolhimento quando é constatado o abandono, e que a solicitação deve ser feita via Serviço de Informação Municipal (SIM) ou Divisão de Limpeza Urbana. Em relação a fiscalização dos hotéis e pousadas, a Secretaria de Planejamento Urbano precisa ser formalmente acionada ou receber denúncias. O documento a que a reportagem teve acesso, narrando o fato, ainda não havia chegado à prefeitura.


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