25/05/2017 às 14h17min - Atualizada em 25/05/2017 às 14h17min

Brasília tem maior protesto contra Temer

Manifestação foi marcada pela presença da Força Nacional de Segurança e por homens do Exército e da Marinha

AGÊNCIA ESTADO | BRASÍLIA
Manifestantes atearam fogo em objetos nas ruas e em um dos ministérios / Foto: Marcello Casal Jr /Agência Brasil

Brasília teve ontem a maior manifestação contra o governo Michel Temer. Manifestantes e grupos ligados a centrais sindicais protestaram durante cerca de seis horas, na Esplanada dos Ministérios, contra as reformas e o presidente. No fim da tarde, os últimos militares a deixarem o gramado foram de um grupo da cavalaria da Polícia Militar do Distrito Federal. Homens do Corpo de Bombeiros apagavam as últimas fogueiras acessas pelos manifestantes, que foram acuados em meio a bombas e carros do choque até a rodoviária da cidade, onde, até o início da noite, ainda havia grupos protestando e polícia em volta. Militares do Exército fizeram a segurança da Esplanada e dos prédios públicos.

A manifestação pode não ter sido a mais violenta da cidade. Em 20 de julho de 2013, na onda de manifestações que surpreendeu o governo Dilma Rousseff, a polícia de Brasília deu início à tática de dispersar multidões com bombas. Na ocasião, o prédio do Ministério das Relações Exteriores foi invadido e o do Ministério da Saúde depredado pelos manifestantes. O protesto de ontem pode também não ter sido o maior da capital federal. Em 16 de março de 2016, cerca de 100 mil manifestantes, segundo números da Polícia Militar, ocuparam a Esplanada para pedir o impeachment de Dilma.

A manifestação de ontem, a maior contra Temer, foi marcada, porém, pela presença da Força Nacional de Segurança, um grupo militar que costuma não atuar na capital, e por homens do Exército e até da Marinha, que atuaram nas áreas em volta dos prédios dos ministérios. Chamou atenção também o aparato e o clima de tensão no Palácio do Planalto. A segurança da Presidência chegou a colocar 30 homens do batalhão da guarda presidencial com escudos em cima da rampa, um símbolo da política e arquitetura da cidade.

No entanto, toda a Praça dos Três Poderes, onde fica localizado o Planalto, já estava cercada. Não haveria manifestantes próximos para justificar a presença até de cachorros na segurança do palácio presidencial.

Organizado por diferentes entidades sindicais e políticas, o protesto foi marcado ainda pela fragmentação dos discursos. Enquanto um carro de som pedia para manifestantes resistirem às ações da Polícia, outros faziam apelo para que o público recuasse diante das bombas. A tática da polícia de dispersar a multidão foi a mesma de protestos passados, houve lançamento de bombas no grosso da multidão que estava no gramado entre os prédios do Itamaraty e do Ministério da Justiça, mais acima do gramado do Congresso.

VIGILÂNCIA

Tropas armadas com fuzis e escudos guarnecem prédios

Após as manifestações, dispostos no entorno dos ministérios, soldados do Exército portavam escudo transparente e alguns mantinham fuzis bem à vista. A entrada das tropas na Esplanada foi discreta. Os soldados chegaram em caminhões que estacionaram nas vias que ficam na parte de trás dos prédios. 
Aos poucos, os ministérios passaram a ser protegidos pelas Forças Armadas. Um dos primeiros foi o das Comunicações. Soldados do Exército cercaram o entorno de todo o edifício e ficaram dispostos com distância de cerca de cinco metros entre eles. Armados, os homens vestiam roupa camuflada e usavam protetores peitorais e nas pernas, como uma espécie de armadura. Nas mãos, escudos transparentes com a inscrição do Exército.

O mesmo esquema foi usado no Ministério da Agricultura. Em formação semelhante, soldados portando fuzil guarneceram o entorno do Ministério da Fazenda - que sofreu invasão e foi esvaziado durante a tarde. Manifestantes chegaram a atear fogo no auditório do prédio.

Os fuzis usados pelas tropas permitem uso de bala de borracha ou munição tradicional, mas os soldados não disseram qual tipo estava sendo usado. Na Fazenda, seguranças privados foram pegos de surpresa, mas comemoraram a chegada do reforço, já que o edifício costuma ser alvo constante de manifestantes. Ontem, vidros foram quebrados.

REAÇÃO

Oposição vê na medida 'estado de exceção'

O decreto do presidente Michel Temer que autorizou a atuação das Forças Armadas contra os protestos em Brasília colocou por terra as tentativas do presidente do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE), de dar normalidade e continuidade às votações. 

A senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) leu o decreto de Michel Temer em plenário, o que incitou as manifestações. "Isso aqui abre um precedente grave no País. Podemos estar caminhando para um regime de exceção, que é gravíssimo para a nossa democracia".

O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) usou a Constituição para afirmar que o presidente não poderia convocar as Forças Armadas nessas condições. "A atuação das Forças Armadas para Garantia da Lei e da Ordem (GLO) ocorrerá após esgotados os instrumentos destinados à preservação da ordem pública. A única ameaça às instituições neste momento é a permanência de Michel Temer na Presidência da República. O que o presidente fez foi, na prática, usar o estado de defesa”, argumentou. À noite, o senador protocolou, no Supremo Tribunal Federal (STF), um mandado de segurança contra o decreto presidencial.
Câmara.

A vice-líder da oposição na Câmara, deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ), afirmou que opositores vão exigir na Justiça a suspensão do decreto do presidente Michel Temer. "Esse decreto é ilegal", afirmou a deputada ao sair de reunião no gabinete da presidência da Câmara com lideranças da base aliada, da oposição e o presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Segundo a parlamentar fluminense, durante o encontro, Maia negou que tenha pedido ao Planalto o uso das Forças Armadas para reprimir os protestos. Reforçando o que havia dito em plenário, o presidente da Câmara afirmou que só pediu o envio de homens da Força Nacional de Segurança. "Ele diz que não pediu. Então, que ele venha a público e diga que o governo errou ao dizer que ele que pediu", afirmou Jandira. 

"Não me lembro de ter visto isso nem na ditadura militar. Não é um ato normal. Já tínhamos visto o acionamento da Garantia da Lei e da Ordem em presídios nas favelas do Rio de Janeiro, mas não para reprimir movimentos sociais", afirmou o líder do PT, Carlos Zarattini (SP), em discurso no plenário. 

Em nota, o presidente do PT, Rui Falcão, classificou o governo de Michel Temer de "golpista e ilegítimo" ao mostrar "sua face mais autoritária e antidemocrática". 

No início da noite, aos gritos de "Fora Temer", a oposição se retirou do plenário da Câmara em protesto contra o decreto. PT, PDT, PSB, Rede, PSOL e PCdoB alegam que a medida representa na prática a decretação do estado de exceção. "A ditadura militar começou assim, de forma sutil", disse a líder do PCdoB, Alice Portugal (BA). Com a saída da oposição, os governistas sugeriram votar medidas provisórias sem a obstrução do grupo. "Presidente, a gente poderia aproveitar para votar a reforma da Previdência", sugeriu um parlamentar no microfone.

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