23/03/2017 às 08h34min - Atualizada em 23/03/2017 às 08h34min

Ex-ministro critica divulgação da PF

Em Uberlândia, Mailson da Nóbrega questionou forma como operação foi divulgada e que gerou restrições ao país

Walace Torres - editor
Mailson da Nóbrega disse que país sofrerá consequências mas conseguirá reverter o quadro

Em palestra que abri u oficialmente a sexta edição da Feira do Agronegócio de Minas Gerais (Femec), ontem em Uberlândia, o ex-ministro da Fazenda do governo José Sarney, Mailson da Nóbrega, criticou a forma como a Polícia Federal divulgou a operação Carne Fraca, desencadeada na semana passada e que provocou a interdição de alguns dos principais frigoríficos do país, o afastamento de dezenas de fiscais do Ministério da Agricultura e ainda gerou reações no mercado externo, com vários países suspendendo a importação de carne brasileira. Segundo o ex-ministro, houve uma “espetacularização” das ações, ocasionando embargos num período em que a economia demonstra sinais de recuperação.

“Ninguém pode ser contra a investigação de casos de corrupção, e tudo indica que houve. Outra coisa é como se divulgou. A divulgação foi feita de tal forma que deu a impressão na sociedade brasileira de que havia uma crise sistêmica, que todos os frigoríficos estavam praticando alguma forma de utilização irregular de produto”, disse Mailson, em entrevista coletiva concedida após a palestra. Ele lembrou que o país tem 4,8 mil frigoríficos e que a manipulação de produtos fora da validade, entre outros problemas constatados, se resumiu a um número restrito de empresas. “Se a Polícia Federal sabia dessas manipulações há dois anos (...) se isso ia causar males à população, então deveria ter agido naquela época”.

Na sua avaliação, o país irá sofrer as consequências, como desemprego, redução das exportações, queda no faturamento das empresas, mas, uma resposta rápida do governo, como o afastamento dos fiscais suspeitos, a abertura para auditorias de órgãos internacionais e a mobilização junto aos países compradores, pode reverter o quadro mais rapidamente. “Até porque não tem como substituir o Brasil como supridor importante de produtos da alimentação em todo o mundo, particularmente de carnes.  O Brasil ganhou espaço no mercado de carnes por causa de sua eficiência, pela qualidade de seus produtos, do controle, isso vai se impor”, disse Mailson da Nóbrega, lembrando que o país é o maior exportador de carne do mundo. “O Brasil exporta mais carne do que os Estados Unidos porque nós somos mais competitivos do que eles. Mesmo que os EUA e parte da Europa preencham essa lacuna que se criou, em algum momento isso vai ser revertido”.

O ex-ministro da Fazenda destacou ainda que o episódio pode servir de lição para futuras ações da Polícia Federal. “Em alguns países é proibido divulgar investigação. Nos EUA a divulgação só é feita depois do julgamento final pelo Judiciário”. Ainda na sua avaliação, a divulgação mais criteriosa dos fatos poderia ter reforçado a reputação do país em relação ao tratamento da carne, e não a afetado, como aconteceu. “Se a Polícia Federal tivesse mostrado na forma de divulgar que era um caso isolado, e um grupo relativamente pequeno de frigoríficos envolvidos, o Brasil poderia mostrar que o nosso sistema é seguro, a qualidade é enorme, os controles são eficientes, e além disso, que o Brasil tem capacidade de detectar os desvios”.

 

REPERCUSSÃO

Frigorífico da cidade suspende abate

 

As restrições à carne brasileira por parte de países compradores e os reflexos no mercado interno já chegaram a Uberlândia. Ontem, durante a entrevista coletiva à imprensa, o economista Mailson da Nóbrega disse que soube momentos antes do evento da notícia de que um frigorífico da cidade suspendeu o abate de carnes e, consequentemente, prejudicou os produtores que já estavam escaldos para entregar o seu gado. “O estrago está feito. O grande esforço agora é para o país tentar minimizar o impacto e fazer com ele tenha menor duração possível”, disse.

O presidente do Sindicato Rural de Uberlândia, realizador da Femec, Thiago Fonseca, reconheceu que a repercussão da operação Carne Fraca pode afetar a expectativa de negócios durante os quatro dias de feira. “Isso atrapalha, mas acredito que o produtor tem conhecimento do seu produto e sabe que essa é uma questão pontual. Não podemos pensar que um setor nosso seja atingido por poucas pessoas que fizeram alguma coisa errada”, disse. Em relação à suspensão do abate por parte de frigorífico local, ele ressaltou que a questão está relacionada à estrutura de câmera fria, utilizada para armazenar os produtos. “Se não tiver escoamento da produção, não haverá onde colocar o produto. Quero acreditar que isso seja resolvido [a restrição da carne] em pouco tempo”, ressaltou.

 

 

REFORMA DA PREVIDÊNCIA

Recuo do governo pode abrir novas brechas

 

O anúncio do presidente Michel Temer, na noite de terça-feira, de que a proposta de reforma da Previdência não vai mais incluir a revisão das regras para servidores estaduais e municipais, criou uma situação de enfraquecimento do projeto, na avaliação do ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega. Segundo apontou, esse recuo abre brecha para que a proposta sofra novos ajustes em função de pressões de outros setores. “Isso não compromete mas cria uma dúvida, será que o governo vai recuar mais? Espero que essa brecha não seja capaz de pôr a perder a reforma”, disse.

A medida deve criar ainda um complicador para os governadores de Estados, uma vez que as corporações do setor público, como nas áreas de segurança, educação, Judiciário, Ministério Público, são mais poderosas a nível estadual do que a nível federal. “Será muito mais difícil aos governadores aprovarem reforma de seus sistemas de Previdência do que seria se o Congresso considerasse essa proposta do Governo Federal”.

Mailson da Nóbrega também falou sobre a reforma tributária, ressaltando que o atual governo não deverá fazer mudanças profundas na legislação. “Ao contrário do que muita gente espera, é muito difícil haver uma reforma tributária no governo Temer. Ela é uma reforma muito complexa que envolve a reformulação de todo o sistema, tem que envolver estados, municípios, grupos de pressão. O governo fará alguma coisa e isso é bom, como diminuir a burocracia do PIS/Cofins, mas não é a reforma tributária da qual o país carece”, frisou.

Questionado sobre a possibilidade de aumento de impostos, ele acredita que o governo deverá ir nessa direção. “O grau de rigidez do gasto público deixa muito pouca margem de corte para o governo. O governo tem que gerar um superávit primário este ano de R$ 139 bilhões. Se ele não cumprir essa meta, gera um problema de confiança, que pode impactar negativamente o setor público, e na percepção de risco do país. isso pode prejudicar o processo de recuperação da economia”, disse, avaliando que uma escolha racional seria a opção pela cobrança temporária de impostos. “Não sei qual. Mas diria que o mais indicado nesse momento, porque isso tem que ser feito rapidamente, seria aumentar a CIDE [contribuição que incide sobre os combustíveis] “.

 

SETOR PRODUTIVO

Entidades divulgam manifesto

 

Em nota oficial divulgada à imprensa, a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) e os Sindicatos Representativos da Indústria de Carnes e Derivados de Uberlândia e de Minas Gerais reconhecem a importância das ações destinadas a identificar e punir irregularidades no processo de produção e comercialização dos referidos produtos. As entidades ainda destacam que as empresas do setor estão submetidas a rigoroso controle sanitário e de qualidade por meio de órgãos públicos e, também, a severos processos internos de controle de qualidade. No entanto, ressalta a preocupação de se evitar “a propagação de informações genéricas, duvidosas, muitas vezes inverídicas, que só contribuem para macular a reputação de um setor estratégico para a economia do estado”. Segundo a nota, o setor é responsável, em Minas, por exportações que cresceram 24% nos últimos 10 anos, da ordem de US$ 800 milhões anuais, e geração de mais de 155 mil empregos, considerando toda a sua cadeia produtiva. Ao final, as entidades reafirmam o compromisso com a sociedade mineira e com o integral cumprimento dos parâmetros legais estabelecidos pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e pelo Serviço de Inspeção Federal.

 

EDIÇÃO

Femec espera receber 40 mil produtores

 

A expectativa da organização da Femec é receber 40 mil produtores rurais em quatro dias de feira no Parque de Exposições do Camaru. A proposta do evento é trazer para o visitante o que há de mais avançado em tecnologia destinada à produção agropecuária, como lançamentos de máquinas agrícolas, apresentação de genética de sementes de soja e milho com tratamento industrial, oferta de equinos para trabalho e lazer, venda de touros e matrizes selecionados geneticamente, além de amplo programa de cursos e palestras. São 28 atividades gratuitas até sábado.

O evento que oferece entrada e estacionamento gratuitos terá ainda Campos Demonstrativos de sementes de soja e milho, Prova Tambor Solidário, Expoinel, Pró-genética e Feirão Cavalos e Cia.

A feira desta vez terá uma ação solidária com a prova de Três Tambores promovida pela ACC – Associação dos Cavaleiros do Camaru –, com renda revertida para a AACD. Consulte programação completa em www.femec.com.br.


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