09/03/2017 às 11h19min - Atualizada em 09/03/2017 às 11h19min

“Manchester à beira mar”

POR KELSON VENÂNCIO

“Manchester à beira-mar” é um filme bem dramático e triste, mas totalmente diferente dos filmes do gênero que estamos acostumados a ver por aí. Com um roteiro bem simples, mas muito bem executado, a trama gira em torno de Lee Chandler (Casey Affleck), um jovem de boa família que trabalha como zelador em um prédio de Boston. Determinado dia, recebe a notícia de que seu irmão (Kyle Chandler) faleceu. Então, retorna para sua terra natal para se despedir do irmão e cuidar do sobrinho Patrick (Lucas Hedges). Lee descobre que o irmão deixou a guarda do filho para ele, mas que deveria se mudar para a cidade deles. O problema é que um trauma no passado de Lee faz com que queira distância daquele lugar.

Escrito e dirigido por Kenneth Lonergan, o longa troca o choro fácil pelo silêncio, o desespero nítido pelo trauma psicológico, uma história apelativa por algo mais contido e real. Esse tipo de narrativa parece chato e arrastado para muitos espectadores, que se sentem cansados durante alguns momentos da projeção. Porém, é no jeito de conduzir o filme que está a beleza da obra de Lonergan. Porque Lee Chandler é tão introvertido? O que de fato aconteceu com ele para que sua relação com as pessoas fosse tão complicada? O longa vai nos mostrando aos poucos, através de flash backs, a explicação para o jeito de ser do personagem principal.

E tudo no filme é melancólico. Desde os cenários que mostram um mar gelado com uma paisagem coberta de neve até a trilha sonora sofrida. E quando nos é revelado o motivo de Lee Chandler ser daquela forma, passamos a enxergá-lo de um jeito diferente, entendendo o que se passa em sua mente. Por que ele não quer se dar bem com os clientes, com o chefe, com as mulheres, com a própria família? Porque se mete em confusão e provoca brigas sem justificativa? Porque ele se "auto-flagela"? Tudo fica mais claro.

E é nesse contexto que Casey Affleck consegue fazer o melhor papel da vida dele, o que lhe rendeu um Oscar de Melhor Ator em fevereiro. E nesse instante você pode estar perguntando: "mas ele mal conversa no filme. Como pode ter ganhado tantos prêmios pela atuação"? É que uma boa atuação nem sempre precisa ser cheia de diálogos intensos pra ficar marcada na memória do público. Lembre-se que Charles Chaplin se tornou um ícone da Sétima Arte fazendo cinema mudo.

Casey Affleck de fato não fala muito, mas sua atuação corporal é fantástica. Ele carrega o peso da culpa por algo horrível que aconteceu em sua vida e faz um personagem reprimido, traumatizado e pouco expressivo, mas que transmite todos os sentimentos pelo olhar.

Mas o filme ainda tem Michelle Williams, que aparece pouco, mas que rouba a cena chorando desesperadamente e pedindo perdão ao ex-marido que mesmo assim não se redime da culpa que carrega nas costas. A cena emociona. Além disso, temos o jovem Lucas Hedges que faz bem seu trabalho contracenando com o ator principal da projeção e sendo o adolescente rebelde que está sem rumo na vida.

“Manchester à beira-mar” não é excepcional, chega a ser um pouco cansativo às vezes por ser diferente. Mas é um filme que na verdade pode ser o retrato de muitas pessoas que ficaram traumatizadas por algum tipo de acontecimento marcante e inesquecível em suas vidas. Ou seja, é um relato eficaz da própria realidade.

Nota 8


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