30/10/2017 às 05h04min - Atualizada em 30/10/2017 às 05h04min

A diversidade lucrativa

ALEXANDRE HENRY ALVES* | COLUNISTA

Um estudo conduzido pela Universidade Técnica de Munique, que é considerada uma das três melhores universidades da Alemanha, perguntou a 171 empresas da Suíça, Áustria e Alemanha o quanto elas eram inovadoras e o quanto tinham diversidade em suas equipes de trabalho.

A parte da inovação foi abordada a partir da contabilização da porcentagem do lucro da empresa que era originária de produtos ou serviços lançados nos três últimos anos. Em síntese, a intenção era saber se o lucro com inovação, representada por esses novos produtos e serviços, era significativo perto do lucro total da empresa. Queriam os pesquisadores medir a inovação a partir do que interessa para o capitalismo, que é dinheiro por ela gerado. Já a parte da diversidade foi mensurada a partir de seis fatos, incluindo país de origem, gênero e idade dos trabalhadores. O objetivo final da pesquisa era verificar se empresas com uma força de trabalho mais diversificada eram capazes de ser mais inovadoras e lucrativas.

O resultado da pesquisa, como narra Rocío Lorenzo em sua palestra no TED (procure por “Want a more innovative company? Hire more women” em: www.ted.com), foi categórico: sim, quanto mais diversidade nos recursos humanos de uma empresa, mais ela é inovadora. Um dos gráficos apresentados na palestra mostra que o lucro gerado pela inovação é visivelmente maior, por exemplo, em empresas que possuem mais de 20% de mulheres nos cargos de direção. Em palavras mais claras, o que ficou comprovado é que, se você quiser manter o seu negócio um passo adiante dos demais e lucrar muito com isso, você deve fazer um esforço para que a sua equipe, incluindo (principalmente) o alto escalão, seja composta por pessoas de gêneros, idades e origens diversificadas.

Em sua palestra, Lorenzo diz que ela nunca pensou em ser uma defensora da diversidade. Seu trabalho é ser uma conselheira de negócios. A instituição que conduziu a pesquisa é um centro tecnológico de ponta, com sede na poderosa e capitalista Munique, polo econômico de uma Alemanha que é um dos modelos para os donos do dinheiro. Em síntese, esse estudo não partiu de uma fonte ligada a movimentos da esquerda política já engajados, desde sempre, em políticas sociais afirmativas e na busca pela diversidade. Esqueça, portanto, a onipresente guerra de torcidas organizadas entre direita e esquerda.

Depois de ouvir a fala de Lorenzo, eu fiquei refletindo por um bom tempo sobre os números apresentados e concluí que eles não deveriam surpreender ninguém. A criatividade depende do que é diferente, do que é novo. É óbvio que um homem e uma mulher, juntos, podem pensar em produtos e serviços mais inovadores do que dois homens juntos. Cada um carrega a sua própria experiência, possui a sua própria e diferente visão do mundo. O mesmo se pode dizer da união de forças entre jovens e idosos, brancos e negros, europeus e latinos, cristãos e muçulmanos e por aí em diante. A própria natureza impõe a diversidade. Tanto é assim que os animais, seres humanos incluídos, enfrentam graves consequências quando buscam a reprodução com aqueles que são mais próximos, como irmãos. As doenças autossômicas recessivas são absolutamente mais frequentes em casamentos consanguíneos, especialmente aqueles entre parentes próximos. O fato de que a diversidade é positiva e a homogeneidade é negativa não é uma simples construção filosófica humana, mas uma característica natural dos seres vivos.

Voltemos aos negócios. Imagine que você tem uma companhia de tecnologia que queira criar um aplicativo de alcance mundial, capaz de gerar lucros imensos. Você ainda não sabe o que esse aplicativo fará, mas já sabe que ele deve ser bem recebido em pelo menos cinquenta países. Para criar tal ferramenta, você confiaria mais em uma equipe homogênea, formada apenas por homens brancos ocidentais na faixa dos trinta anos, ou confiaria mais em uma equipe com engenheiros de ambos os gêneros, cada qual de um canto do planeta e com as mais variadas experiências culturais e de vida? Se você ainda prefere a primeira equipe, temo que a sua companhia não sobreviva muito tempo no mercado.

Lorenzo lembra, ao final de sua palestra, que empresas como a Alibaba (gigante chinesa do e-commerce), o JP Morgan e a Apple já implantaram essa diversidade e já possuem, por exemplo, mais de 20% de mulheres em suas lideranças. Essas empresas, como é notório, são grandes sucessos mundiais. Elas sabem que a diversidade não é apenas um grito de guerra da esquerda, mas uma necessidade vital para o desenvolvimento do próprio capitalismo. E você? Ainda duvida dos benefícios da diversidade?

(*) Juiz Federal e Escritor - www.dedodeprosa.com

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