03/10/2017 às 16h50min - Atualizada em 03/10/2017 às 16h50min

Me engana que eu gosto

Continua a 'xepa' do governo Temer

ANTONIO CARLOS DE OLIVEIRA | COLUNISTA

A xepa. O resto. O fim. A sobra. Essa parece ser a atual fase do governo Temer.

Mas afinal, qual o preço da cadeira de presidente do Brasil? Michel sabe que é alto, mas tem se mostrado disposto a pagar até o último centavo. Desde o impeachment, para se manter no poder, ele tem “comprado” essa posição.

Desde seu primeiro dia no poder, Temer se mostrou excessivamente contraditório. Para começar, quando assumiu seu posto, ele apresentou seu ministério completamente patriarcal e branco: não havia mulheres, nem negros no primeiro escalão indicado pelo peemedebista. Imediatamente foi fortemente criticado. Uma semana depois, na tentativa de minimizar os comentários, recebeu no Palácio do Planalto 20 parlamentares mulheres de vários partidos de sua base aliada.

Além disso, Michel tentou fazer grandes mudanças para mostrar a diferença entre seu estilo de governar em relação à gestão anterior. Com sua experiência como ex-presidente da Câmara, Temer passou a negociar a votação de projetos de seu interesse diretamente com as bancadas do Congresso Nacional, e como conseqüência, deu início à conhecida romaria de deputados e senadores visitando o palácio do planalto após o expediente. Usando do poder da caneta, ele manipulou os interesses dos parlamentares com o uso do dinheiro público, distribuindo benesses aos congressistas. Com isso, obteve o apoio incondicional do Legislativo, e essa aproximação foi fundamental para aprovar, no ano passado, a emenda constitucional que estabeleceu um limite para os gastos públicos, por exemplo.

Mas a xepa não para por aí. Para construir sua base no parlamento, Temer também concedeu cadeiras na Esplanada dos Ministérios para vários senadores e deputados de vários partidos diferentes.

Temer também propôs ao Congresso as reformas na Previdência Social e na Consolidação das Leis do Trabalho, porém também atingiu uma taxa histórica de desemprego. Mas como no fim da feira se troca resto de verduras em mal estado por desconto para agradar o consumidor, Temer tentou compensar esse desgaste com a liberação do saque das contas inativas do FGTS.

Mas, mais do que os problemas econômicos, a xepa também chegou e causou crises políticas. Desde que assumiu, Temer viu integrantes de seu governo envolvidos em inúmeros problemas. Prova disso é que alguns dos seus principais conselheiros políticos pediram demissão, pois foram massacrados por denúncias de corrupção, a exemplo de Romero Jucá (PMDB-RR) e Geddel Vieira Lima (PMDB-BA).

Logo depois foi a vez de Fabiano Silveira pedir demissão da chefia do Ministério da Transparência, devido a uma gravação na qual ele criticava a Lava Jato e dava consultoria a políticos investigados pela operação. Também houve a troca de farpas com Renan Calheiros e o presidente, que fez duras críticas ao colega de partido.

Enfim, vários atos, e todos parecem desesperados. Mas é preciso pensar estrategicamente. O que está acontecendo com a promessa de um novo país, sem corrupção e cada vez mais igualitário? Nunca se viu tantas denúncias contra um presidente empossado. Nunca se presenciou tanta miséria em um país de políticos cada vez mais milionários. A visão idealizada fracassou.

A esperança de um Brasil para todos, parafraseando o antigo governo, não chegou. O que mudou foi que passamos de anacolutos, para mesóclises, o que em outras palavras, significa que saímos de uma desconstrução gramatical imposta "goela" abaixo, para cairmos em uma cafonice pseudointelectual na tentativa de mostrar serviço.

Não por acaso, nessa semana, a aprovação do governo Temer teve a pior taxa: 5%. De acordo com o instituto Datafolha, 89% da população é favorável à autorização de abertura de processo contra o presidente Michel Temer, também acusado de organização criminosa e obstrução à Justiça. Talvez eles nos enganem. Mas isso não significa que gostemos. Fica uma reflexão: até onde vai a “xepa” da feira livre do Brasil?

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