24/09/2017 às 05h10min - Atualizada em 24/09/2017 às 05h10min

Os camarões, a onda e a decisão do juiz

ALEXANDRE HENRY ALVES* | COLUNISTA

A grande polêmica dos últimos dias foi a decisão do meu colega Juiz Federal Waldemar de Carvalho, que proferiu decisão em uma disputa entre uma psicóloga e o Conselho de Psicologia sobre os limites dos tratamentos de reorientação sexual. Eu fiquei apenas acompanhando as discussões, já que a Lei Orgânica da Magistratura me impede de comentar decisões de colegas. Li alguns textos bem interessantes contra e a favor da posição que ele tomou, os quais serviram para me ajudar a refletir sobre o tema e para formar minha convicção, caso algo do gênero chegue até mim.

Mas, além desses textos interessantes, vi muita bobagem publicada, especialmente nas redes sociais. A única conclusão a que cheguei foi a de que a era dos 140 caracteres fez muito mal ao raciocínio dos seres humanos. Nossa reflexão parece espelhar uma timeline de uma rede social: recebemos mensagens curtas, manifestamos nossos pensamentos de forma rápida e emotiva, para depois passar para o assunto seguinte. Nesse exercício constante, permanecemos na superfície rasa de tudo, sem nunca parar a timeline para aprofundar em uma questão mais importante. Alguém grita “Pega ladrão!” e a manada já sai atirando pedra para tudo quanto é lado, sem nem saber quem é o ladrão, se há ladrão ou se algum crime foi cometido. O importante é não perder a onda, ainda que seja na condição de meros camarões, cuja cabeça abriga o coração e quase todo o sistema digestivo, deixando pouco espaço para o cérebro.

Poucos leram a decisão do juiz sobre o caso logo rotulado de “cura gay”. Mas, muita gente, logo que ficou sabendo da decisão, saiu imediatamente aplaudindo o magistrado por “permitir a volta dos bons tempos de moralidade”, ou, de outro lado, publicando fotos de beijos com pessoas do mesmo gênero, ironizando a decisão “retrógrada, machista e preconceituosa” do juiz. Em síntese, o importante era falar alguma coisa, mesmo que essa fala apenas revelasse que a pessoa não entendia nada do assunto e muito menos tinha lido a decisão que elogiava ou criticava.

Como eu disse, essa parece ser a tendência dos novos tempos. Hoje, lemos mais do que há algumas décadas, pela minha percepção. Passamos o dia todo lendo e escrevendo. Acontece que nos limitamos a textos com 140 caracteres ou pouco mais do que isso, quase sempre em redes sociais. Às vezes, nem lemos direito, na ânsia de clicar logo no botão de encaminhamento da mensagem. Enfim, se estamos mais envolvidos com a escrita, deixamos totalmente de lado a qualidade e a profundidade. Uma prova disso é qualquer texto com mais de dez linhas ser chamado de “textão”. Como assim? Textão não seria um escrito de centenas de páginas? Não! Na era dos 140 caracteres, qualquer coisa com duas vezes mais do que isso é uma mensagem muito longa, suficiente para ser rotulada de “textão” e, na maioria das vezes, nem lida.

Em síntese, estamos nos tornando mais ignorantes, pois a superficialidade não ajuda a desenvolver o raciocínio. Por outro lado, essa mesma superficialidade abre espaço para manifestações de camarão, como eu disse, como se nossa cabeça realmente estivesse ocupada muito mais pelo coração e pelo intestino. O problema é que manifestações emotivas ou impensadas podem ter consequências muito sérias. De repente, alguém publica uma notícia sobre determinada pessoa, outro alguém não lê direito, reproduz aquilo em uma rede social com um texto no padrão camarão e, em minutos, se esse outro alguém for famoso, o troço se dissemina pela internet afora. Entrando na onda, aparecem logo os atiradores de pedras e começam os debates sobre se foi morte morrida ou morte matada, quando a notícia original dava conta de que a vítima tinha apenas sofrido arranhões. Porém, a timeline é muito rápida e ninguém vai ler os “textões” explicando que o acusado não é um monstro, que não matou a vítima e que os arranhões foram apenas um gesto de defesa. Estrago feito na vida dessa pessoa, irreparável.

Outra consequência é a abertura de espaço para que políticos demagogos e populistas cresçam. Quando ninguém presta atenção direito ao conteúdo, é muito fácil se amparar em um discurso superficial, feito de frases feitas, como os gritos de um boiadeiro tocando a boiada.

Tempos tristes. De toda forma, não vou aderir aos novos padrões e vou continuar com meus “textões”, vou continuar dando pausas na minha timeline e vou, principalmente, continuar evitando dar palpite em assuntos sobre os quais ainda não me aprofundei. Sei que não estou sozinho nessa luta contra o imediatismo e o superficialismo e é isso o que ainda me dá alguma esperança.

(*) Juiz Federal e Escritor - www.dedodeprosa.com

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