13/09/2017 às 17h30min - Atualizada em 13/09/2017 às 17h30min

'Padre, uma pessoa que comete suicídio, vai para o céu?'

PADRE CLAUDEMAR SILVA* | LEITOR DO DIÁRIO

A primeira coisa a ser dita é a respeito do dom da vida. De fato, nós não nos bastamos. Não fomos nós os artífices da nossa existência. Viemos de um desejo profundo de outrem. Para os cristãos, Deus é a fonte e origem de toda vida. Por amor, Ele criou todas as coisas: o firmamento, os astros celestes, as águas, os oceanos, a terra, as plantas, os animais segundo suas espécies e, como obra-prima de sua criação, Ele fez o homem. Diz o poema do Gênesis, que Deus criou o homem do pó da terra, símbolo da fragilidade humana e da dependência da criatura em relação ao seu Criador (cf. Gn 2, 7ss). Logo, a vida não é uma propriedade do ser humano. Não cabe ao homem ou à mulher dispor como bem entender da sua vida. A vida é, antes de tudo, um dom que deve ser administrado da melhor maneira possível, pois, um dia, nós o devolveremos ao seu verdadeiro dono.

A esse respeito, afirma a Igreja: "Cada um é responsável por sua vida diante de Deus, que lhe deu e que dela é sempre o único e soberano Senhor. Devemos receber a vida com reconhecimento e preservá-la para honra dele e salvação de nossas almas. Somos os administradores e não os proprietários da vida que Deus nos confiou" (Catecismo da Igreja Católica § 2280). Diferentemente de Deus que é eterno, isto é, sem início nem fim, o ser humano é eviterno, isto é, com início, mas sem fim. Por isso, a vida em nós continua após esta existência terrestre. Não termina aqui, neste mundo. Assim professa o credo cristão: "[...] creio na comunhão dos santos, na ressurreição da carne e na vida eterna...". O apóstolo Paulo adverte: "Nenhum de nós vive exclusivamente para si e nenhum de nós morre apenas para si mesmo. Se vivemos, é para o Senhor que vivemos, e se morremos é para o Senhor que morremos. Sendo assim, quer vivamos ou quer morramos, pertencemos ao Senhor" (Rm 14, 7-9). 

Depois, prudentemente, é preciso considerar a complexidade humana e psíquica do sujeito. Não se pode prescindir da dimensão psíquica em nós. Para tanto, o Catecismo sublinha: "Distúrbios psíquicos graves, angústia ou medo grave da provação, do sofrimento ou da tortura podem diminuir a responsabilidade do suicida" (CIC § 2282). Desse modo, a Igreja leva em conta a pessoa humana na sua totalidade, sem reduzi-la a um único instante, e sem deixar de considerar as diversas dimensões existentes em nós. Todavia, apesar de ser um pecado gravíssimo, é importante que se diga acerca de quem cometeu suicídio: "Não se deve desesperar da salvação das pessoas que se mataram. Deus pode, por caminhos que só Ele conhece, dar-lhes ocasião de um arrependimento salutar. A Igreja ora pelas pessoas que atentaram contra a própria vida" (CIC § 2283). Afinal de contas, entre a morte da pessoa e o juízo pessoal, há o abismo da misericórdia divina. E mais. Quanto à morte, seja ela de que modo for, diz a Teologia Católica, dela nós teremos apenas a penúltima palavra. A última será sempre a de Deus.

Infelizmente, há países que instrumentalizaram o suicídio como "morte assistida". Holanda, Bélgica e Suíça, por exemplo, legalizaram as clínicas especializadas no chamado "suicídio assistido". Casos como esses confirmam o quanto nossa sociedade está enferma. Os valores inalienáveis de antes, como a vida, por exemplo, estão sendo desconsiderados enquanto os contra-valores de outrora, como a morte, são postos como os valores de agora. Alguém que atenta contra a própria vida é, antes de tudo, uma vítima. Para tanto, é importante que a família e os amigos estejam atentos e ajudem, sobretudo, por meio do diálogo franco e do acompanhamento afetivo. Às demais instituições, sociais e religiosas, espera-se que deem suas contribuições efetivas quanto à manutenção e preservação da vida digna para todos. Que os poderes públicos invistam em bons hospitais e disponibilizem acompanhamento psicológico e terapêutico para os necessitados de ajuda. E que a ninguém falte a sincera sensibilidade para acolher e a honesta empatia para não julgar.

(*) Diocese de Uberlândia

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