06/08/2017 às 05h53min - Atualizada em 06/08/2017 às 05h53min

Quase sem esperança

ALEXANDRE HENRY ALVES* | COLUNISTA

Garoto ainda, eu vi a luta pelas Diretas Já e fiquei feliz com o mineiro que tinha sido eleito para a presidência do país. Mesmo sem entender quase nada de política, pela pouca idade, eu via as pessoas falando do Tancredo, do fim do regime militar e de um novo futuro, palavras que me faziam sentir que algo de bom estava para acontecer. Só que Tancredo não assumiu. No dia em que ele faleceu, eu tinha aula de datilografia e me lembro bem da minha professora dizer que a escola não funcionaria naquele dia porque nosso presidente tinha falecido. Aí veio Sarney e ainda algum resquício de esperança, que se perdeu quando a gente não achava carne para comprar no açougue por conta dos planos econômicos que tornavam a pecuária um negócio impossível – e isso era só uma pontinha do desastre econômico.

Vieram as primeiras eleições diretas em muito tempo. Eu ainda não votava, mas já tinha um pouco mais de consciência e acompanhei atento a eleição. Dona Zilpa, uma professora de matemática da minha escola, passou três meses falando no ouvido da gente que, se o Lula ganhasse, nós teríamos que dividir nossos quartos com crianças pobres. Sim, ela disse isso. Era eleitora do Ronaldo Caiado, que à época tinha menos idade que eu tenho hoje, mas já era um grande defensor dos ruralistas. Foi uma eleição e tanto! Confesso que torci para o Collor no segundo turno, porque realmente o “sapo barbudo” causava medo com suas ideias. Eu tinha sido menino no final da Guerra Fria e, além da Dona Zilpa, ouvira de muitas pessoas histórias sinistras de comunistas.

Lamento pelo Brasil e por Collor. Ele tinha tudo para ter construído um país promissor. Naquela época, creio que conseguiria a aprovação de praticamente tudo o que quisesse no Congresso, pois era o primeiro presidente eleito democraticamente em décadas e isso dava a ele muita legitimidade. Pena que virou o que virou. Aí, veio o Itamar Franco e a piada só não foi maior porque a economia começou a entrar nos eixos no final do governo dele.

Fernando Henrique Cardoso nunca me encantou muito. Era um presidente com estilo, organizou a economia e parecia ter boas ideias para o país. Mas, como eu disse, nunca me encantou. Quando percebi que sacrificara a economia para conseguir se reeleger, aí é que qualquer resquício de admiração foi embora. Seu segundo mandato desceu quadrado e, por isso, fiquei empolgado com as eleições de 2002. Lula se elegeu e veio então a década em que mais senti esperança em relação a nosso país. Tudo parecia que iria dar certo, não? Foi um tempo em que eu melhorei bastante profissionalmente e ainda coloquei as finanças pessoais em ordem depois de um pequeno desastre na virada do milênio. Pela primeira vez na vida, acreditei que realmente iríamos romper o círculo vicioso de pobreza, corrupção e subdesenvolvimento. Um sentimento que não tive com Tancredo, Collor ou FHC.

Não preciso dizer que essa esperança se desfez. Mas, tenho que ressaltar que nunca tive tanta desesperança em relação ao nosso futuro como agora. Não que eu não ache que vamos virar um país bem mais desenvolvido. É que passei a acreditar que eu não vou ver isso acontecer. Seremos um Brasil muito melhor, sim, daqui a várias décadas. Talvez meus netos vejam uma nação que conseguiu superar um sistema desigual e desonesto, que corroía suas entranhas desde quando os primeiros europeus por aqui deram as caras. Mas, eu não vou ver.

Para finalizar: escrevo este texto de Fortaleza, uma das capitais do Brasil que eu ainda não conhecia. Viagem com a família, incluindo meu irmão médico que foi chamado logo cedo pela recepcionista do nosso hotel para socorrer um hóspede que acabara de ser esfaqueado, simplesmente porque estava andando no calçadão da praia sem dinheiro para dar para o ladrão. Isso às 8h30 da manhã, com sol forte. Na noite anterior, tínhamos voltado para o hotel em um táxi no qual o rádio trazia discursos inflamados de deputados buscando impedir uma investigação contra o presidente, enquanto o motorista falava ao celular dirigindo, correndo e com os vidros abertos sem se preocupar com o vento incômodo no rosto de duas crianças no banco de trás, uma delas com três meses de idade. Coisas assim e outras bem piores, que nossos olhos e ouvidos recebem todos os dias, tiram-me a esperança quase por completo. Quase. Porque eu sei que, algum dia, quando Collor, Lula, Temer e todos nós formos apenas personagens de um passado nada saudoso, teremos um país melhor. Pena que eu não vá ver.

(*) Juiz Federal e Escritor - www.dedodeprosa.com

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