30/07/2017 às 05h18min - Atualizada em 30/07/2017 às 05h18min

A semente da frustração (ou o contrário)

ALEXANDRE HENRY ALVES* | COLUNISTA

Há anos, eu ouvia que aquele exame era terrível. Você tinha que, em jejum, beber um troço extremamente doce e ficar duas horas só com aquilo no estômago até poder colher o sangue. Quando revelei que iria me submeter a esse castigo, as narrativas só se intensificaram. Parecia que vomitar seria a parte mais amena do procedimento. Assim, com a expectativa de estar caminhando rumo à cadeira elétrica, eu levantei logo ao raiar do dia e fui ao laboratório. Tensão crescente, fui então apresentado à minha algoz: uma garrafinha com 300 ml de um líquido branco, que a enfermeira definiu como um refrigerante de limão sem gás. Logo refrigerante de limão, a única coisa que já me causou alergia alimentar a ponto de me levar para o hospital! Mas, como não sou homem de refugar, peguei o troço e tomei de uma vez só, embalado na máxima maquiavélica de que o bem se faz aos poucos e o mal, de uma vez só.

Até que desceu muito mais tranquilo do que eu imaginei. Mas, vamos com calma! O líquido branco ainda teria que parar no meu afrescalhado estômago. Por isso, fiquei quieto na poltrona do laboratório, esperando o monstro emergir a qualquer instante. Notebook ligado para trabalhar, ainda refleti se não era melhor desligá-lo para evitar alguma tragédia sobre o teclado. Decidi que não. Qualquer coisa, era só virar de lado e a bagunça ficaria só no chão. Continuei então a corrigir os trabalhos dos meus alunos no computador, prevendo que, após a tragédia, eu não teria forças para continuar com aquela tarefa urgente.

Duas horas depois, eu tirei sangue, passei na padaria, comprei pão e tomei café com a minha esposa. O remédio para náuseas continuava intocado no bolso e o estômago reclamava apenas do jejum de alimentos sólidos que beirava as quinze horas. Fora isso, nada de anormal. Café tomado, refleti então que o exame não era a coisa mais agradável do mundo, mas estava longe de ser a tragédia grega que me pintaram ao longo de anos.

Mais uma história para a minha velha máxima de que a expectativa é a mãe da frustração, ou o contrário. Quando se espera muito por algo, geralmente a realidade fica aquém do que você esperava. Aliás, esse é um dos motivos pelos quais eu evito ler ou ouvir qualquer comentário quando sei que está em cartaz um filme que pode me agradar. Não gosto de saber de nenhum detalhe justamente para não gerar expectativa alguma. Certa vez, ouvi durante meses um amigo falar maravilhas sobre o filme “A vida dos outros”. Quando fui assistir à produção alemã, vencedora do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2007, decepcionei-me. Não era uma obra ruim, de maneira alguma. Acredito que se eu a tivesse visto sem nunca ter ouvido nada sobre ela, teria achado sensacional. Mas, a expectativa exagerada obliterou as qualidades que o filme tinha.

Na semana que passou, aconteceu algo semelhante. Em viagem a São Paulo, fui a dois restaurantes que ocupam boas posições no ranking do Trip Advisor, o famoso site de viagens. Para a minha sorte, reli alguns comentários sobre o primeiro deles e vi que muita gente estava dizendo que era até um restaurante bom, mas que não justificava estar entre os dez primeiros do ranking. Com isso, reduzi a minha expectativa e até que gostei bastante do lugar e do prato que a minha esposa pediu (o meu não estava legal). Já no segundo restaurante, fui com o mesmo nível de expectativa que meus olhos tinham quando se iniciou “A vida dos outros”. Resultado? Claro, assim como em relação à obra audiovisual, até que gostei do lugar e dos pratos, mas achei que não estavam no mesmo nível dos elogios repetidos que ouvi ao longo de anos.

Esses exemplos que eu dei podem encontrar situações semelhantes em praticamente tudo na vida. Se alguém elogia demais a beleza do moço, você provavelmente não vai enxergar nele um deus grego quando finalmente conhecê-lo. Se falaram muito mal do restaurante aonde você está indo, há uma boa chance de você até achar a comida razoável. Tudo é assim: expectativa e realidade se chocando, como dois polos que se repelem. Claro, existem as pessoas sugestionáveis que balançam para o lado que disseram que o vento está levando, ainda que um vendaval esteja soprando no sentido contrário. Para essas pessoas, a realidade será aquilo que alguém disser que ela é, não importa que os próprios sentidos digam o contrário. De toda forma, sendo normal ou sugestionável, a minha dica é nunca deixar que grandes expectativas tomem corpo, positivas ou negativas, para que não deturpem o que a realidade te trará.

(*) Juiz Federal e Escritor - www.dedodeprosa.com

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