09/07/2017 às 05h35min - Atualizada em 09/07/2017 às 05h35min

Na dúvida, não compartilhe

ALEXANDRE HENRY ALVES* | COLUNISTA

Como só os maiores de 120 anos e os menores de seis meses ainda não usam redes sociais, aqui vai o meu conselho direto, para começar nossa conversa: na dúvida, não compartilhe. Esse não é meu único conselho. Outro essencial: tenha a dúvida como companheira de todos os dias. Junte então os dois conselhos e você terá uma receita segura para não sair reproduzindo bobagens nas redes sociais, algo que pode ser prejudicial não apenas para outras pessoas, mas para a sua própria imagem.

O assunto é tão sério que existem sites especializados na internet para desmontar mentiras que são disseminadas na internet. Um deles, o www.e-farsas.com, é bem antigo e pode te ajudar caso você ainda tenha dúvidas sobre o conteúdo de uma “notícia”. Mas, você não precisa pesquisar em sites como o E-Farsas toda hora. Basta utilizar um recurso que vem de fábrica em todo ser humano, mas que é ignorado ou subutilizado pela maioria de nós: o bom senso.

Peguemos o exemplo da notícia que vira e mexe alguém manda nas redes como se tivesse descoberto o elixir da juventude: brasileiro inventa carro movido a água. Sério que você acredita em algo assim? As maiores montadoras do mundo estão gastando bilhões para superar a era dos combustíveis fósseis, inclusive para descobrir um jeito de isolar o hidrogênio (presente na água e, portanto, semente da ideia do carro “movido à água”) sem que a energia gasta no processo seja maior do que a gerada posteriormente pelo hidrogênio, aí um sujeito qualquer descobre a solução, mas continua pobre e desconhecido. Você acredita nisso? Ah, dá um tempo! O mínimo de bom senso já faz com que você descarte essa bobagem desde logo.

Como eu disse, o problema é que as pessoas não usam o bom senso e acabam reproduzindo bobagens de forma impensada. E por que fazem isso? Quando é uma notícia como essa, de um carro que seria a solução para boa parte dos problemas da humanidade, é porque desejam acreditar que isso é verdade, por mais que a razão e a lógica indiquem o contrário. Vale mais o que eu quero que seja do que o que realmente é. Um resumo da tal “pós-verdade” de que se tem tanto falado há alguns meses. O sujeito lê aquilo ali e é tudo tão compatível com o que ele sonha ou acredita que não há como ser mentira, ao menos para ele. A verdade é o que eu acredito, não o que realmente é. Além disso, muita gente reproduz bobagens para ter a sensação de que é mais esperto do que o resto do mundo, para demonstrar que sabe de coisas que ninguém mais sabe. Afinal, desde o início dos tempos, conhecimento é poder.

Justamente nesse ponto é que mora a cilada. Quem divulga idiotices pregando que são verdades acaba passando a imagem de tolo, ao menos para aqueles que se preocupam em separar o real do ilusório. Frequentemente, fico decepcionado ao ver amigos reproduzindo notícias falsas. Eu me pergunto: como alguém pode mostrar tanta ignorância em uma só postagem? Não, eu não estou me colocando acima de ninguém, não estou achando que sou mais inteligente do que todo mundo. Talvez, e aí não há como negar, eu me ache com um pouquinho de bom senso a mais do que quem reproduz conteúdo evidentemente inverídico, mas é só isso. 

Enfim, reitero minha sugestão: na dúvida, não compartilhe. Olhe sempre a fonte daquela notícia. Se for no Facebook, veja qual é a origem da matéria compartilhada. Se for um blog desconhecido e a notícia for bombástica, entre nos sites dos grandes meios de comunicação e verifique se também estão publicando aquilo. Só os mais ingênuos acreditam que pode haver complô entre todos os jornalistas de renome para ninguém publicar uma notícia que causaria impacto gigantesco e imediato. Tudo o que um jornalista quer é dar um furo de reportagem, pois isso pode render nome na profissão e, claro, dinheiro. Assim, se aquela notícia não apareceu na grande imprensa, esqueça. É falsa. Além disso, use o seu bom senso sempre, mas sempre mesmo. Coloque a informação que você recebeu no banco dos réus e faça um pequeno interrogatório. Por que esse cara que inventou o tal carro movido à água ainda é desconhecido? Por que ele ainda é pobre? Por que milhares de cientistas formados nas melhores universidades ainda não descobriram isso? Rápidas perguntas podem ser suficientes para condenar a informação como mentirosa. Por fim, tendo tempo e paciência, digite na internet o título da notícia e, se for falsa, provavelmente você encontrará publicações desmascarando aquela bobagem. 

*Juiz Federal e Escritor - www.dedodeprosa.com

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