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08/03/2022 às 08h00min - Atualizada em 08/03/2022 às 08h00min

Dona Anna conta coisas

ANTÔNIO PEREIRA
Uma:
Conversei longamente com dona Anna Gonçalves Tomazelli há alguns anos. Algumas passagens do papo eu já publiquei, outras ainda não. Por exemplo, o caso do padre Alaor. Conto o que ela me passou e acrescento coisas que li nos jornais. O padre Alaor era de Araxá. Esteve pregando por aqui e como era radicalmente moralista e perigosamente franco, espantou os católicos da cidade. Criticou acerbamente a roupa de várias moças e senhoras presentes à missa.
 
Certa noite, um grupo de pessoas encapuzadas invadiu a casa onde ele estava hospedado, na praça da Matriz (Cícero Macedo), arrastaram-no para fora, levaram-no a um canto qualquer, despiram-no e passaram piche no seu corpo. Dona Anna diz que bateram nele.
 
Na manhã seguinte, a praça estava toda enfeitada com bandeirinhas vermelhas. Ah... foram os comunistas! E prenderam a rapaziada simpatizante. Na Delegacia não se provou nada contra ninguém e a rapaziada foi solta.           
 
O Roberto Margonari, comunista confesso, um dos recolhidos nesta ocasião, era casado com uma senhora muito católica, natural de Araxá. Lá um dia, o Margonari e a esposa foram lá ver parentes e sua esposa fez questão de estar com o padre Alaor e perguntar-lhe se foi mesmo a rapaziada de Uberlândia que o seviciou. O padre disse que os seus agressores não eram de Uberlândia, eram de Araguari. Que bateram nele, amarraram-no num poste e passaram-lhe piche.
 
Outra:           
Da família de dona Anna, só ela e o pai, Romualdo, eram comunistas. Os outros eram indiferentes. Falou-me a dona Anna de outras mulheres comunistas da cidade, da perseguição policial e das duas vezes em que seu pai foi denunciado. Na primeira, chegou a ser preso. Ele tinha uma banca de jornais na esquina da avenida Afonso Pena com a rua Machado de Assis. Vendia jornais comunistas, como o Voz Operária, e livros. A Polícia chegou como se fosse prender um grupo de combate.

Uma porção de soldados num caminhão, metralhadora etc e tal. Destruíram livros e jornais. Levaram o Romualdo para a rua Tiradentes, onde era a cadeia, e, de lá, para Uberaba. Tanto aqui, quanto lá, tentaram impedir a família de vê-lo. Aqui, o prefeito Tubal Vilela mandou um bilhetinho para o Delegado que permitiu a visita. Em Uberaba um Delegado liberal mandou que deixasse vê-lo. Depois de ouvi-lo mandou soltarem-no. Em Uberaba, os presos, homens e mulheres que eram de Uberlândia, ficaram numa cela só.     
     
Um delegado de Uberlândia resolveu ouvi-lo. Levou-o ao Fórum. Perguntou-lhe por que um homem de sua idade se envolvia com aquilo. Por ideal – respondeu. O sr. acredita que o comunismo chega ao Brasil? Disse que não porque os ricos mandavam no país e o povo era sem instrução. Depois de registrado o depoimento, o delegado pediu-lhe que assinasse ao pé da página. Negou-se alegando que só assinaria onde o texto terminava. Por que, perguntou-lhe o delegado. Porque nesse vazio aí, vocês, depois, colocam o que quiserem. Eu vou mandar prender o senhor, gritou a autoridade. E prendeu. Romualdo ficou mais uns dias enjaulado.
 
Fonte Anna Tomazelli

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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