10/02/2022 às 08h00min - Atualizada em 10/02/2022 às 08h00min

A luz invade a vida

IVONE ASSIS
Em seu poema Resíduo, Carlos Drummond de Andrade afirma que de tudo fica um pouco. E como fica. O poeta escreve: “De tudo ficou um pouco / Do meu medo. Do teu asco. / Dos gritos gagos. Da rosa / ficou um pouco. // Ficou um pouco de luz / captada no chapéu. / Nos olhos do rufião / de ternura ficou um pouco / (muito pouco)”.

Se Drummond achava pouco sua temática, acreditando ter uma escrita de menor valor por abordar questões existenciais, enganou-se redondamente, pois também sua grandeza literária está nisso. Ele chegou a anunciar ao jornalista Geneton Moraes Neto, naquela que seria sua última entrevista, com publicação póstuma pelo Jornal do Brasil, de 22/08/1987, em que ele, ao ser indagado por sua motivação, responde o que sempre buscou foi “[...] tentar resolver, através de versos, problemas existenciais internos. São problemas de angústia, incompreensão e inadaptação ao mundo”. 

Drummond fez da vida concreta a sua fonte inesgotável de inspiração poética. Desse modo, em meio às pedras encontradas no caminho, o poeta foi plantando flores, mas não flores de jardins, simplesmente, são rosas espinhentas, que não se negam à sua condição dura de usar seus espinhos para proteger a fragilidade de suas pétalas... são rosas que sobreviveram ao pó do sapato que as esmagam todos os dias, e mesmo assim elas resistem, perfumadas, belas e inspiradoras, para motivar aqueles que, por vezes, tropeçam e caem na pedra que possa haver no meio do caminho.

O poeta continua: “Pouco ficou deste pó / de que teu branco sapato / se cobriu. Ficaram poucas / roupas, poucos véus rotos / pouco, pouco, muito pouco. // Mas de tudo fica um pouco. / [...] De teu áspero silêncio / um pouco ficou [...] / Ficou um pouco de tudo / no pires de porcelana, / dragão partido, flor branca, / ficou um pouco / de ruga na vossa testa, / retrato”. É nesta despedida que o poeta vai se apresentando. Tem-se aqui o retrato de um poeta conectado com o cotidiano. Em meio a tão poucos fragmentos, vamos encontrando, no leitura do poema, o muito que a saudade deixa, nos resquícios daqueles que um dia coloriram nossos jardins da vida. É estranho pensar que estando a rosa a nosso inteiro dispor, para que possamos cheirá-la, admirá-la, cobri-la de elogios... geralmente, preferimos arrancá-la da roseira, mesmo sabendo que estamos a arrancar seu fio de vida, e egoisticamente despetalamos a bela rosa em uma estúpida brincadeira de bem-me-quer, mal-me-quer. Inutilmente, a roseira tenta usar seus espinhos, para proteger a rosa, mas eles são frágeis demais, diante de tamanha fúria humana. Uma fúria que promove a cegueira, incapacitando o homem de ver a beleza que há nos sulcos do arado. Mas, “Se de tudo fica um pouco, / [...] por que não ficaria / um pouco de mim? no trem / que leva ao norte, no barco, / nos anúncios de jornal, / um pouco de mim em Londres, / um pouco de mim algures? / na consoante? / no poço? / Um pouco fica oscilando / na embocadura dos rios / e os peixes não o evitam, / um pouco: não está nos livros. // De tudo fica um pouco. / Não muito: de uma torneira / pinga esta gota absurda, / meio sal e meio álcool, / salta esta perna de rã, / este vidro de relógio / partido em mil esperanças, [...] / este segredo infantil... / De tudo ficou um pouco: [...] / o insuportável mau cheiro da memória. / Mas de tudo, terrível, fica um pouco, / e sob as ondas ritmadas / e sob as nuvens e os ventos / e sob as pontes e sob os túneis / e sob as labaredas e sob o sarcasmo [...] / fica sempre um pouco de tudo.

Desse modo, cansado das canseiras da vida, o gigante – o astro rei – cai sob a pateada dos sapos, fecha seus olhos por um instante, para refletir sobre tudo o que sobrou, e sobre suas decisões. Pensa em não voltar, mas se arrepende, compadece-se do homem, por causa das rosas que sobraram nos jardins, e pela manhã, abre os olhos outra vez, e outra vez a luz invade a vida.

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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