20/01/2022 às 08h00min - Atualizada em 20/01/2022 às 08h00min

Café com pão

IVONE ASSIS
Acordei ao som do Canarinho da Terra, que todas as manhãs vem avisar que o Sol já acordou. Canção mais bela não poderia existir, para me convidar à lida diária. Deus pensou nos mínimos detalhes, quando fez o mundo. Aquele canto maravilhoso foi brotando em meus sonhos, até que eu abrisse os olhos e entendesse que na rua já corriam muitos carros. Aquele passarinho cantava sua canção, bela e profunda, agradecendo ao Criador, por mais um amanhecer. Onde ele mora, não sei, mas todas as manhãs vem cantar para mim.

O relógio marcava 5 horas. Fui esfregando os olhos, bocejando... Era praticamente um caso de amor mal resolvido; de um lado, a cozinha me chamava para fazer o café, do outro, o cobertor implorava para que eu ficasse mais um pouco. Embora preferisse a emoção, dei ouvidos à razão. Coloquei o pão no forno, enquanto acabava de acordar.

Enquanto meu amor passava o café, e o chá de frutas borbulhava... no rádio, o inesquecível Goiá cantava “[...] Os lindos campos onde canta a seriema, / E o inhambuzinho a piar no entardecer, [...] Meu Deus que recordação, tenho mesmo que chorar. / [...] Quanta saudade do meu Rio Paranaíba, / Em suas margens vi nascer a esperança; [...] Que me deu força e paz que um artista deseja. / Minas Gerais, te envio com emoção, / A mais pura gratidão de minha alma sertaneja. [...] São lugares bem lembrados, cada um tem seu papel; / São os sonhos da criança, misto de saudade e dor, / Do poeta sonhador, filho de Coromandel”.

Assim como o poeta e cantor Goiá, nestes dois últimos anos, muita gente não amanheceu, obrigando alguém a diminuir o pó de café, nas manhãs de saudade. Esse encerrar ciclos trouxe-me à lembrança uma crônica da escritora Mônica Cunha, publicada no livro “Entre um café e outro” (2013, p. 87), que diz: “Não é fácil quando se tem a certeza de que não haverá mais a cumplicidade no olhar, nem o abraço demorado. Subitamente, um silêncio ressentido. O dia já não tem mais a hora ansiosamente esperada, foi preciso engolir suspiros, retirar a xícara, diminuir o pó do café [...]. Enxugar as lágrimas e seguir em frente”. O texto nasceu há nove anos, mas está tão vivo que ainda dá para sentir o calor da xícara.

Passados dois anos de confinamento, o mundo parece meio estranho. Mas sempre que durmo, deixo um ontem para trás, enquanto carrego a esperança de que logo reencontrarei o Sol. Então, pela manhã, vou renascendo, como o passarinho ao sair do ovo, devagar, ressabiado, cheio de expectativas, com medo e determinação ao mesmo tempo. Daqui a pouco, pego-me a escrever, e as histórias vão enchendo os livros, que enchem a vida, que, em um ciclo, enchem os livros outra vez.

Como escreve o brasiliense Evandro Valentim de Melo, em “Entre livros e cafés” (2020, p. 88): “Verdadeiro deleite é sentar-me à mesa de um estabelecimento que mescla café e livros, tendo à frente um cappuccino e um montinho de livros. Cheiros de café e de livro combinam qual feijão com arroz, pastel com caldo de cana; Milton Nascimento com Fernando Brant, Ivan Lins com Vitor Martins...”. Em “Prosas para o café” (2019, p. 136), esse mesmo autor escreve: “O café da manhã que a esperava continha salada de frutas, bolo de cenoura e suco de laranja”. Ora, ora, nota-se cada amanhecer como sendo um “café da manhã”, cada qual vem de seu jeito. O meu veio com o canto do Canarinho do peito amarelo; a música antiga, no rádio; o pão, o chá e o café quentinhos. E mais que isso, veio com sintomas de gratidão e esperança...

Fiquei pensando na beleza do amanhecer. Todas as manhãs a vida abre um caderno de oportunidades e expectativas, então, cada espécie vai “nascendo” a seu jeito. Cantores cantam, médicos medicam, cozinheiros cozinham, escritores escrevem, pintores pintam, costureiros costuram, poetas poetizam... E foi assim que me encontrei com Manuel Bandeira, em seu “Trem de ferro”, que ia dizendo: “Café com pão / Café com pão / Café com pão”.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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