13/01/2022 às 08h00min - Atualizada em 13/01/2022 às 08h00min

Enchente de sensatez e humanidade

IVONE ASSIS
As águas têm desabrigado muita gente, e não foram poucos os que perderam a vida, nos últimos dias, em consequência das mesmas águas turbulentas. Mas o fato é que elas têm o seu delta e também sua estação, e isso não se muda, mas o homem insiste em querer mudar a natureza, represando as águas, desmatando, matando as nascentes, desviando o curso de rios, ocupando as encostas, empesteando as águas e a terra com produtos tóxicos, entupindo rios, e vales, e córregos, e ruas, e bueiros... com toneladas e mais toneladas de lixos... A inconsequência de um prejudica a todos. Não há como olhar somente para o próprio umbigo quando a vida é em comunidade. Tito Macio Plauto (230 a.C. – 180 a.C.), à página 495, de sua obra “Asinaria: la comedia de los asnos”, tomo I, escreveu: “lupus est homo homini, non homo” (“O homem é o lobo do próprio homem”), mais tarde, Thomas Hobbes (1588-1679), por meio de seu clássico “Leviatã”, popularizou esta frase e, hoje, mais do que nunca, ela se encontra acesa no braseiro, viva no cotidiano da humanidade. Basta ligar o noticiário para se ver a interpretação dessa frase em todas as roupagens, e classes, e etnias, e lugares... É lamentável que homem, quase três mil anos depois, ainda não tenha se dado conta do significado da palavra. E, se deu, é incompreensível que ainda não tenha feito nada a respeito para mudar a realidade. É urgente que haja um surto de consciência humana.

Lendo Cecília Meireles, de quem sou grande fã, deparei-me com o poema “Enchente”, que diz: Chama o Alexandre! / Chama! // Olha a chuva que chega! / É a enchente. / Olha o chão que foge com a chuva... // Olha a chuva que encharca a gente. / Põe a chave na fechadura.

Fecha a porta por causa da chuva, / olha a rua como se enche! // Enquanto chove, bota a chaleira / no fogo: olha a chama! olha a chispa! / Olha a chuva nos feixes de lenha! // Vamos tomar chá, pois a chuva // é tanta que nem de galocha / se pode andar na rua cheia! // Chama o Alexandre! / Chama!”

Neste poema, enquanto leio-o em voz alta, ou ouvindo o barulho da chuva, soprado no som do “CH” e do “X” das palavras. Vejo um casal adentrando a casa, preocupados a saber do menino e correndo para acudir as coisas, para que não molhem; que se feche a porta, evitando a enchente que inunda as ruas; que se faça um chá; que se chame o menino (Alexandre), que brinca lá fora ou que “brinca com fogo”, haja vista a “chama” ser dúbia; que se acuda a lenha que está a molhar; que se cuide das faíscas, das chispas, das chamas, evitando incêndios. No convite a se tomar um chá, a poetisa coloca o sossego na alma, para que aguardem a hora certa para sair, enquanto a chuva não passa, que se viva o momento, na companhia da família, longe das ruas inundadas, respeitando a natureza ao sabor e ao aroma de um chá quente, no aconchego do lar. Enquanto isso, o chiado da chuva chega no encharcado telhado.

Com o exemplo deste poema, compreendo que não há necessidade de grandes feitos para se fazer a diferença na vida, basta cada um cuidar de sua parte e tudo ficará bem, porque assim a liberdade e o investimento de um não sufocarão o outro, e cada um usufruirá de seu quinhão com alegria. Pois, quando um grande não pensa nos pequenos, o alto preço é pago por estes “invisíveis”, e a todo momento deparamo-nos com a frase: “Perdi tudo” e, muitas vezes, “perdi todos”. As cidades, e campos, e estradas... são lugares de uso comunitário, é dever de todos cuidar como se cuidassem de suas casas, e quanto maior o empreendimento, maior é a responsabilidade para com o outro... para com todos. O progresso existe quando há enchente de sensatez e humanidade.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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