06/01/2022 às 08h00min - Atualizada em 06/01/2022 às 08h00min

O maior sentimento de todos

IVONE ASSIS
O ano de 2022 está em seu comecinho e incontáveis tragédias já assombraram milhares, milhões de pessoas. Parece que nem vi o 2021 acontecer e lá se foi uma semana do novo ano. Embora o ano novo tenha chegado, as coisas se mantêm as mesmas, as mesmas casas, os mesmos carros, os mesmos trabalhos... porque tudo é o que já era. O (re)novo renasce é dentro de cada um. Todavia, para que o novo seja bom, para que o renovo seja válido, é preciso saber amar incondicionalmente, é preciso respeitar e sonhar.

Vinícius de Moraes, em “Soneto do amor total” escreve: “Amo-te tanto, meu amor… não cante / O humano coração com mais verdade… / Amo-te como amigo e como amante / Numa sempre diversa realidade. // Amo-te afim, de um calmo amor prestante, / E te amo além, presente na saudade. / Amo-te, enfim, com grande liberdade / Dentro da eternidade e a cada instante. // Amo-te como um bicho, simplesmente, / De um amor sem mistério e sem virtude / Com um desejo maciço e permanente. // E de te amar assim muito e amiúde, / É que um dia em teu corpo de repente / Hei de morrer de amar mais do que pude”.

Infelizmente, muitos amantes já abriram o ano novo implantando tristeza no coração de tantas famílias. Bom seria que os amantes amassem. Bom seria que, em vez de rogar pragas, orasse pelo outro e por si. Em vez de maldizer, bendissesse... É com o amor, e somente o amor, que a vida pode melhorar. 

Em seu poema “Canção”, Cecília Meireles clama sobre a urgência do amor. O poema, presente no livro “Retrato natural” (1949), apresenta também a volatilidade do amor e a finitude do tempo: “Não te fies do tempo nem da eternidade, / que as nuvens me puxam pelos vestidos / que os ventos me arrastam contra o meu desejo! / Apressa-te, amor, que amanhã eu morro, / que amanhã morro e não te vejo! / Não demores tão longe, em lugar tão secreto, / nácar de silêncio que o mar comprime, / o lábio, limite do instante absoluto! / [...] Aparece-me agora, que ainda reconheço / a anêmona aberta na tua face / e em redor dos muros o vento inimigo…”.

Não estou a falar do amor de conveniência, em que os casais se juntam para ampliar suas riquezas, como muito bem escreveu o suíço Denis de Rougemont, em “História do amor no Ocidente” (2003, p. 29): “[...] o casamento se havia tornado para os senhores um puro e simples meio de enriquecimento e de anexação de terras oferecidas em dote ou prometidas em herança. Quando o negócio fracassava, repudiava-se a mulher. O pretexto do incesto, curiosamente explorado, não sofria objeção por parte da igreja: bastava alegar, sem muitas provas, um parentesco até o quarto grau para obter a anulação”. Mas, sim, falo de um amor verdadeiro, em que importa o bem estar do outro. 

No poema citado, Cecília convida o Outro ao amor, porque esperar não se justifica, uma vez que não amar é perder oportunidades. Pois, como poetizou Carlos Drummond de Andrade, em “As sem-razões do amor”: “Eu te amo porque te amo / [...] Amor foge a dicionários / e a regulamentos vários”. Embora os poetas falem tão intensamente e tão sublime sobre o amor, os ouvidos andam tortos demais, portanto insuficientes para que o amor consiga entrar. Ora, bem sabemos, se não há amor, de nada adianta.

É por meio da compreensão que se descobre o amor. Os casais são responsáveis pelos seus pares, também os pais foram feitos para amarem os filhos, assim como compete aos filhos amarem os pais. E não só, porque o amor e o respeito ao próximo deve estar sempre em primeiro lugar. Quando falamos em amor, estamos invocando o mais nobre dos sentimentos. E não cabe parcimônia no amor, haja vista que, quanto mais se distribui amor, mais ele se multiplica. Com amor é mais fácil atravessar os momentos difíceis, então, quando observamos tanta crueldade, só podemos deduzir que há uma falta absoluta de Amor, o maior sentimento de todos.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
 
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