10/12/2021 às 08h00min - Atualizada em 10/12/2021 às 08h00min

Borboleta

WILLIAM H STUTZ
Estranha cena. Uma sala de espera de um escritório, 22º andar, ar condicionado, muitas janelas, muito vidro. Silêncio de hospital, frieza tal e qual. Pessoas incompreensivelmente absortas em sentimentos indecifráveis, cumprimentos breves com a cabeça e mais nada. Ambiente de competição e de poucos amigos. Cotidiano. Distraído lancei olhar para um grande vaso de plantas num canto da sala. Vi movimento. Curioso me aproximei e para meu espanto, pousada em uma flor vermelha havia uma borboleta. Era uma borboleta comum, nem tão bonita quanto suas primas coloridas das matas, nem tão feia quanto suas outras parentes urbanas bruxas. Era apenas uma borboleta. Claro que se observássemos bem de pertinho, poderíamos notar discretos fios dourados ladeados de azul turquesa em suas asas, numa simetria singela, mas perfeita. 

Era uma borboleta vestida para o trabalho e não para uma festa de gala ou uma apresentação de Béjart no Opéra National de Paris. Fui até a janela e tentei imaginar como esta frágil criatura poderia ali ter chegado. Não havia praças, quintais e nem simples canteiros lá embaixo. Se uma corrente de ar a trouxe, como entrou se as janelas fechadas isolavam o local do mundo de verdade? As pessoas da sala disfarçadamente acompanhavam minhas idas e vindas - vaso janelas - deve ser louco, lia-se em suas expressões. De volta ao vaso, desta vez decido a esclarecer este mistério. Meus Deus! A flor é de plástico! Plástico mesmo, assim como todas as outras plantas do vaso, no lugar de terra pedras redondas e brancas! 

A borboleta mesmo assim está ali e com sua trombinha enrolando e desenrolando parecia se deleitar com um néctar que com certeza ali não havia. Fixei mais uma vez os olhos na pequena, pareceu olhar para todos na sala, um por um, depois me olhou com ternura, sorriu, piscou-me o olho e voltou sua atenção para a sua não-flor. Eu não queria sair dali; tive medo de minha triste vida. 

Minas (para Milton Nascimento) 
Um pouco das Minas, das esquinas, dos clubes dos bares, das montanhas sem mares; dos horizontes, das fontes, cachoeiras imensas, geladas; das águas paradas de lagos piscosos, dos rios murmurantes serpenteantes, das Gerais, das terras altas, das veredas estreitas, tortuosas das gentes alegres, às vezes um tanto belicosas, das broas de fubá, da cozinha no quintal, do fogão de lenha da comida deliciosa Dos sons imaginários De novas estrelas, De cenouras em feiras modernas, Dos mil tons tão lindamente festejados, dos anjos, as vozes.

Sem palavras 
Num lampejo de insensata lucidez rompeu com o mundo. Pediu demissão da família, da medíocre vida que levava, de tudo. Cansou, jogou a toalha. Não queria mais. A rotina parecia lhe carcomer a alma já triste o suficiente com o tudo à sua volta. Não fez testamento, não praguejou. Simplesmente desistiu e pronto, parou. Nu entrou no mar gelado, sentiu o cheiro salgado da espuma a empurrar-lhe o corpo. Sobre sua cabeça o negro céu da noite despedia-se dele, não haveria estrelas nem luas em seu derradeiro mergulho. Nada o salvaria de si mesmo e nem queria. Cansou, só isso. Não, não é doce morrer no mar. Não era exatamente um final feliz. Para ele, a melancólica tristeza era seu testemunho final. Haveria outras vidas onde poderia se sentir melhor, mais produtivo, mais útil? Prestes a descobrir lançou um último olhar para as luzes da cidade já longe na praia. Uma única última lágrima também salgada juntou-se ao infinito de águas negras. Afadigado foi-se.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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