11/11/2021 às 08h00min - Atualizada em 11/11/2021 às 08h00min

A ratoeira é para todos

IVONE ASSIS

Os ratos e as histórias existem desde que o mundo é mundo. Como tudo isso começou, não sabemos, porque, em algum momento, deu bug no oceano e a garrafa que guardava as histórias bateu no casco do navio daquele que ia a contar mais histórias, e ploct. Quebrou-se. O contador de histórias sobreviveu daquele trágico acidente e se pôs a narrar o acontecido. Seus parentes e amigos também passaram a relatar o fato e logo havia muitas novas histórias, com várias versões... É assim que as histórias surgem e invadem o nosso imaginário, e a forma como cada um vai recontar é fazer mais história ainda. Afinal, quem conta um conto, aumenta um ponto.

Esopo, nascido na Grécia Antiga 600 anos antes de Cristo, foi um exímio contador de histórias, e se tornou um dos fabulistas mais citados e conhecidos do mundo. Mais tarde, suas histórias se tornaram a pedra fundamental de escritores como Fedro e La Fontaine. Platão, ao citar Esopo em sua literatura, ensina-nos o quão relevante eram as contações no quesito representação da sociedade, como reflexão dos fatos. Contudo, não havia pessoas nessas fábulas, mas, sim, animais personificados. E na fala e comportamento desses animais encontrava-se “a moral da história”, para se pensar a conduta humana.

Quando vemos essas fábulas sem valor algum, repudiadas nas prateleiras do mercado, é que nos damos conta do quão decadente anda o novo saber, no quesito interpretação de textos e, consequentemente, interpretação social.

Em uma dessas fábulas, conta-se que um Rato da cidade, certa vez, indo ao campo, foi convidado a jantar com o Rato do campo. O anfitrião levou o convidado até sua toca e lhe preparou uma refeição à moda da roça, com ervas e raízes, ao que o convidado comentou: “— Compadre, tenho pena de ti e da pobreza em que vives”. Dizendo isso, convidou o amigo a ir morar com ele na cidade, e ali veria o que era riqueza e fartura. O camponês aceitou o convite. Na casa grande e luxuosa, os dois se fartavam na despensa, quando, de súbito, entra o zelador e dois gatos. Aqueles dois ratos, desesperados, correram cada um para um lado. O Rato da cidade correu logo para a sua toca, mas o Rato do mato trepou pela parede, dizendo: “— Fica-te com a tua fartura, que eu antes quero comer raízes no campo, onde não há gatos nem ratoeiras e se vive sem sobressaltos”. Assim nasceu a máxima “Mais vale um rato magro no mato, do que um gordo na boca do gato”.

Já na fábula “A ratoeira e o rato”, conta-se que, enquanto um rato observa, pelo buraco na parede, vê o fazendeiro e sua esposa abrindo um pacote. A imagem da comida já se formou determinada em sua mente, e comê-la seria só uma questão de tempo. Mas logo viu que se tratava de uma ratoeira, e entrou em pânico, anunciando, desesperado, a toda a colônia. “– Há uma ratoeira na casa, uma ratoeira na casa!”. A galinha o ignorou, porque isso não a ameaçava; o porco se disse incapaz de socorrê-lo; a vaca o ignorou com desdenho... e assim foi toda a bicharada. O rato entendeu que estava sozinho nessa batalha. À noite, clapt! A ratoeira, como era de se esperar, fez sua primeira vítima. A mulher do fazendeiro correu a ver o que era, e lá estava uma cobra venenosa, que a picou. A mulher ficou muito febril, então, o fazendeiro mandou que se fizessem uma canja de galinha, para que sua mulher melhorasse; muitas pessoas vieram visitá-la. Matou-se o porco, para alimentar o povo. A mulher morreu. Vieram muitas pessoas ao funeral, então foi a vez de a vaca virar a refeição. E assim “limpou-se” o terreiro, não deixando dúvidas de que, na sociedade, o problema de um é sempre problema de todos. O pensar coletivo é essencial para o sucesso. Somos, igualmente, responsáveis pela resolução dos problemas, do contrário, seremos todos vítimas, igualmente, porque a ratoeira é para todos.

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.




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