06/11/2021 às 08h00min - Atualizada em 06/11/2021 às 08h00min

Covid e Coração: Qual a relação?

JOÃO LUCAS O'CONNELL

Temos visto, nos últimos meses, uma diminuição do ritmo de crescimento de novos casos e também de óbitos em nossa região. Entretanto, muitos pacientes que tiveram Covid durante a primeira onda da doença e, mais recentemente, durante a segunda onda (este ano) têm nos procurado no consultório com dúvidas em relação à possíveis sequelas deixadas pela doença no coração e nos vasos sanguíneos.

 

Na coluna de hoje, discutiremos a íntima relação das doenças cardíacas com a Covid. Desde o início da pandemia, cardiologistas do mundo inteiro começaram a chamar a atenção para a íntima relação que existe entre estas doenças. O vínculo se dá por vários fatores: 

 

Primeiro: já está muito bem estabelecido que os pacientes que já são portadores de doenças cardiovasculares e que adquirem a infecção pelo novo coronavírus têm uma chance muito maior de evoluírem com gravidade do que os pacientes previamente hígidos. Assim, pacientes com antecedentes de infarto, hipertensão, angioplastias, cirurgias cardíacas prévias deveriam se cuidar ainda mais para evitar o contato com o vírus e também deveriam ser monitorizados rigorosamente caso apresentem sintomas de Covid. Isto é ainda mais importante se, além de cardiopatas, forem idosos ou também portadores de obesidade, hipertensão, diabetes, doenças pulmonares, renais, hepáticas, neoplásicas ou que levem a deficiências do sistema imunológico.

 

Segundo: sabemos que uma minoria de pacientes acabam desenvolvendo uma resposta inflamatória mais exacerbada contra o vírus. Estes indivíduos, muitas vezes, desenvolvem um quadro de pneumonia viral que pode levar a uma resposta inflamatória sistêmica importante e à ocorrência de uma Síndrome Respiratória Aguda Grave, secundária à infecção viral. Já está bem estabelecido que pacientes que apresentam documentação de dano miocárdico secundário à esta agressão inflamatória, detectados através de alterações clínicas ou em exames laboratoriais (troponina, eletrocardiograma, ecocardiograma), acabam evoluindo com maior gravidade e também maior chance de óbito intra-hospitalar. Este pior prognóstico dos pacientes internados que apresentam lesão cardíaca aguda vale tanto para pacientes previamente cardiopatas quanto para pacientes que nunca haviam apresentado problemas cardíacos anteriormente. 

 

Terceiro: temos detectado a presença de sequelas cardíacas em parte dos pacientes que se recuperaram bem da Covid. Mesmo pacientes que apresentaram quadros leves de Covid podem apresentar alterações cardíacas que têm permanecido por, pelo menos, alguns meses. Pesquisas científicas bem conduzidas já detectaram que pelo menos um terço dos pacientes que apresentaram Covid, apresentaram também evidências de miocardite ou de pericardite (inflamações no músculo cardíaco ou na capa fibrosa que envolve o coração). Além disso, a inflamação secundária à infecção viral também pode danificar os vasos sanguíneos e aumentar a coagulabilidade sanguínea, aumentando a chance da ocorrência de vários eventos cardiovasculares graves, como o infarto agudo do miocárdio, o acidente vascular cerebral e a embolia pulmonar. Todas estas alterações e agressões ao tecido miocárdico e aos vasos sanguíneos aumentam a chance de outras sequelas crônicas como a Insuficiência Cardíaca pós Covid, a Hipertensão Arterial Pulmonar e as arritmias cardíacas benignas e malignas. O risco da ocorrência de morte súbita algumas semanas após a Covid também é aumentado. 

 

A pandemia da Covid já vitimou milhões de pessoas no mundo todo! Esta tempestade global também nos trouxe enormes transtornos sociais, físicos, psíquicos e afetivos. Assim, é muito triste saber que mesmo que o indivíduo evolua bem e se recupere da doença, ainda pode ficar com sequelas...Mas, é importante destacar que a grande maioria dos pacientes que entram em contato com o vírus acaba evoluindo bem, tanto na fase aguda quanto tardiamente. A ocorrência de doença cardíaca grave secundária à Covid, apesar de existente, ainda é rara! Apesar disso, como não sabemos ao certo quais são os pacientes que irão evoluir com maior gravidade, todo cuidado continua sendo pouco! 

 

A melhor maneira, até aqui, de se evitar a ocorrência de complicações graves da doença é a evitando-se o contato com o vírus ou diminuindo a chance de reações graves contra ele! A melhor maneira de se fazer isso é através da vacinação! Assim, mesmo que a vacina não proteja 100% das pessoas contra a gripe provocada pelo novo coronavírus, ela certamente torna muito rara a possibilidade de complicações cardíacas provocadas pela Covid. Além disso, vale ressaltar que, apesar de casos descritos de miocardite (inflamações do músculo cardíaco) terem sido descritos, especialmente em pacientes jovens, o benefício das vacinas continua maior que o risco, mesmo para esta população! O risco de prejuízo ao coração, aos vasos sanguíneos e ao pulmão provocados pela eventual doença aguda ainda é maior do que o de qualquer vacina. Mesmo para os mais jovens…


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.




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