02/11/2021 às 08h00min - Atualizada em 02/11/2021 às 08h00min

Bordado e poesia

ENZO BANZO
Abertura de Portas Igreja do Rosário

Sou filho da minha mãe, como qualquer pessoa. Sou filho de Cleusa Bernardes, que privilégio! Como é privilégio de qualquer pessoa ser filha da própria mãe, na profunda singularidade que as fazem únicas. Mas eu falaria dos poemas de minha mãe mesmo se não fossem os poemas de minha mãe; porque Cleusa Bernardes, corujice à parte, é uma senhora poeta.

Dona Cleusa, pura vivacidade aos 70 anos, acaba de lançar novo trabalho, em companhia da trama coletiva que é o projeto Flor de Chita. Reúne, nessa empreitada, dois dos tantos talentos que compõem sua complexa tessitura: o poema e a costura. "Meu pai era poeta, com cal e areia", cantou em "Poesia Concreta", que musiquei e gravei no meu disco "Canção Escondida". "Minha mãe era costureira", poderia ter escrito, em poema autobiográfico, no contraverso do pano.

"Bordado e poesia" (Editora Subsolo, 2021) é o nome desse trabalho, um livro. Ou, devo dizer, mais que um livro: uma peça rara de valorização da memória coletiva que constitui a cultura, e das imensas potências criativas que daí se podem desdobrar. Conto um pouco melhor: anos atrás, quando minha mãe e Graziela Zocal desenvolviam o projeto Flor de Chita, com bordadeiras do bairro Morada Nova (foram parar até na Ana Maria Braga, vejam só), ocorreu à lúdica mente da Tia Cleusinha (como tantos a chamam) criar pequenos poemas para cada um dos diferentes pontos do bordado: ponto cruz, ponto reto, ponto rococó, ponto margarida... Por algum tempo, os textos ficaram guardados na gaveta, entre linhas, tesouras, agulhas e retalhos.

Ocorreu a elas, então, publicar esse livro: cada poema ao lado da imagem de um bordado tecido com o respectivo ponto; e conseguiram o apoio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (PMIC). Não bastasse a costura da poesia, tramaram que as figuras partiriam de paisagens arquitetônicas do patrimônio histórico de Uberlândia: de fachadas que reconhecemos de imediato, como as do Mercado Municipal ou da Igreja do Espírito Santo do Cerrado (projetada por Lina Bo Bardi) a detalhes que nos passam despercebidos, como os mosaicos do calçadão da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, a lira do coreto da Praça Clarimundo Carneiro, o portão da Casa da Cultura. 

Pesquisaram, fotografaram; Eduardo Bernadt (que assina todo o belo projeto gráfico) criou os croquis; a teia sempre quer se expandir, e vieram as bordadeiras da Unai (Universidade Amiga do Idoso), projeto de extensão da UFU do qual D. Cleusa também participa. Chegou a malfadada pandemia, e no meio de tanta dor e medo, as reuniões virtuais eram frequentes: as linhas davam força para que a vida se mantivesse. E a cidade, ausência sentida nos confins do isolamento, recriava-se nos bordados.

Pareando a tela impressa, estão os poemas. Os versos de Cleusa Bernardes alcançam o profundo poético pelo lapidar da forma e pela aparente singeleza. Podem ser metalinguísticos: "do jardim pousa no pano" (ponto margarida); paradoxais: "ponto atrás / anda pra frente? / cria palavra / ou borda gente?" (ponto atrás); despropositados de propósito: "bordar um sol com ponto sombra? / que despropósito" (ponto sombra); fatais: "na trama que emaranha fins e fios / o destino da aranha é sempre a mosca" (ponto aranha).

A força criativa, em "Bordado e poesia", alinha-se e desalinha-se, dança no ressignificar das formas que parecem ter estado sempre ali, a serem desvendadas pelo olhar revelador e sempre novo do poético: "no pano de prato / no forro da mesa / na colcha da cama / antiga poesia / beleza contida / paz e simetria" (ponto cheio). O filho coruja limpa as lágrimas nos olhos arregalados.

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.



 
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