30/10/2021 às 08h00min - Atualizada em 30/10/2021 às 08h00min

A relação da doença periodontal com as doenças sistêmicas

JOÃO LUCAS O'CONNELL

Vários estudos científicos prévios relatam uma importante associação entre a Periodontite (doença do periodonto bucal) e doenças sistêmicas, como doenças cardiovasculares, Diabetes, parto prematuro, derrame, artrite reumatoide, doenças autoimunes e outras. Essas análises mostram que as infecções presentes nos tecidos periodontais podem agravar, ou até mesmo participar do surgimento destas e de outras desordens sistêmicas. 

A Periodontite é uma doença infecto-inflamatória que acomete inicialmente o tecido gengival e, com o tempo, as estruturas de suporte dos dentes (cemento, ligamento periodontal e osso). Dificilmente está associada a dor importante, somente nos casos de processos inflamatórios agudos. As características inflamatórias locais são: edema, secreção e sangramento que pode ser espontâneo durante a higiene bucal ou à sondagem. Causa grande prejuízo estético, halitose, falta de segurança ao mastigar pela mobilidade dentária e pode culminar com a perda de um ou mais dentes.  

O processo de associação da doença periodontal em doenças sistêmicas baseia-se na entrada de bactérias e seus produtos, provenientes da placa bacteriana, na corrente circulatória. É interessante observar que em pacientes com Periodontite moderada a severa, a área inflamada ao redor dos dentes é surpreendentemente larga e seu tamanho pode ser comparado à área da palma da mão ou ser ainda maior, nos casos de Periodontite muito avançada. Além desta passagem natural de bactérias e de seus produtos para os tecidos e para a corrente sanguínea, podem ocorrer bacteremias transitórias importantes durante atos simples do cotidiano, como a mastigação e a escovação dental. Isto tudo resulta em um aumento considerável na quantidade de citocinas inflamatórias em nível sistêmico e na sensibilização e ativação continuada do sistema imunológico.

Uma das alterações sistêmicas relacionada à doença periodontal que vem sendo sempre estudada é a Diabetes. Existem evidências de que a infecção periodontal prejudica o controle glicêmico dos diabéticos. Já está documentado também um aumento de complicações associadas ao Diabetes em pacientes que apresentam Periodontite. Pacientes diabéticos apresentam altos níveis de marcadores inflamatórios no sangue, como TNF-α, IL-6, proteína C reativa e fibrinogênio, os quais estão relacionados a um aumento da resistência à ação da insulina. Desta forma, a presença da doença periodontal resulta na elevação dos níveis sanguíneos destes marcadores, o que induz maior resistência à insulina, prejudicando o controle glicêmico que vai, por sua vez, levar a uma série de complicações relacionadas à hiperglicemia. 

O mesmo processo inflamatório periodontal é a base para explicar porque as periodontites crônicas podem afetar o perfil lipídico e conduzir a eventos coronarianos agudos. Alguns tipos de citocinas podem alterar o metabolismo lipídico e promover a hiperlipidemia. Além disso, DNA de bactérias periodontais foram observados em amostras de artérias coronárias, apoiando o conceito de que esses microorganismos podem estar associados com a produção também de proteínas inflamatórias locais (não só sistêmicas) que levam ao desenvolvimento e progressão da aterosclerose. 

Está cada dia mais comprovado que uma boa saúde bucal é fundamental, não só para evitar problemas nos dentes e gengivas, mas também para diminuir o nível de proteínas inflamatórias circulantes. A inflamação sistêmica está intimamente relacionada com a piora de níveis de glicose, colesterol, fatores de coagulação e com um aumento da incidência de inúmeros transtornos como a piora do Diabetes e um aumento na incidência de eventos cardiovasculares. Além de todo o exposto, também há uma nítida associação entre infecções na boca com uma maior incidência de infecção das valvas cardíacas (endocardite infecciosa). Diante disso, é importante chamarmos a atenção para a necessidade de cuidado diário com a saúde bucal. Os cirurgiões dentistas e médicos devem encorajar seus clientes a ter bons hábitos de higiene no sentido de prevenir o desenvolvimento de patologias orais, bem como recomendar o tratamento quando verificarem a existência das mesmas.

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
 
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