29/10/2021 às 08h00min - Atualizada em 29/10/2021 às 08h00min

Três em um

WILLIAM H STUTZ

A menina e o mar

A menina vira e revirava seus mapas do livro de geografia.
Mineira que era nunca tinha visto o mar, e sonhava; 
não entendia por que suas Gerais não tinha nem um pedacinho de seu sonho.
Não é justo. 
Outros além do mar tinha muita água até em seus nomes:
Rio grande ( um no sul, outro no norte )
Alagoas ( puxa, pensava, além de mar tem um monte de lagos )
Rio de janeiro ( não lhe bastava o mês e o rio !?)
Não é justo.
Olhava o desenho de Minas Gerais.
Parecia uma bruxa de conto de fada.
Um narigão cheirando Mato Grosso,
No coco a Bahia.
Na nuca o Rio e o Espírito Santo.
Não é justo.
Decidiu
Seria rica, talvez política importante, compraria um pedaço de terra que ligaria,
enfim Minas Gerais ao Atlântico e ponto Pacífico.
E em seus sonhos justiça finalmente seria feita.

 

Estrela do sul

A primeira chuva caiu.
Goteiras em meu telhado centenário vindos
da Estrela do Sul, tão centro oeste.
A chuva cai e ouço;
Atento.

Quantas pedras de brilho sob vocês
foram trapaceadas?

Quantos gemidos de amor sussurrados 
em catres barulhentos impregnaram seu barro colorido?

Depois das primeiras chuvas vocês, como taruiras
mudam de cor.

Capa e Bica com seus segredos.
Umas com os olhos no céu, outras com os olhos em mim 
e em mortos portugueses.


Rendição

- Papai, você realmente morou aqui quando não tinha nada? Olha só este asfalto e essa ponte quase pronta.

- Naninha essa ponte quase pronta, está quase pronta há mais de 30 anos. Tanto que para podermos chegar a Aparecida do Taboado e Lagoa Santa vamos ter que pegar a mesma balsa que sua mãe e eu usávamos para ir a Paranaíba. Naquela prainha de cascalho pescávamos Tucunaré e Corvina quase todo  dia, e não usávamos, vara não era só na linhada. 

Um vento quente soprou seu rosto, seus olhos fitaram as marolas da represa, seu pensamento foi longe. Viu a magnífica Cachoeira dos Índios, hoje submersa nesse mundaréu de água. 

Lembrou do bando do Sobrinha e imaginou as fogueiras em acampamentos montados pela jagunçada bem ali perto, preparando paca assada para a janta. 

A fuga constante da voluntariosa Captura famosa por sua perversidade e, por nunca perder o rastro de bandido algum. 

A pólvora, a emboscada em Campo Florido - traição - a morte do Sobrinha dormindo. Dizem que alma de quem morre dormindo reluta em ir de encontro ao juízo do seu final. Não sabe que morreu, fica ai assombrando... 

- Pai quando você era pequeno tinha televisão?

- Televisão colorida não Tiquinho mas que tinha, lá isso tinha --opa - não sou tão velho assim filhote.

- Essa balsa tá demorando, vamos pescar?

- Sem chance , não temos linha, anzol e muito menos lambari de isca.

- Então conta uma estória do seu tempo aqui?

- Uma do tempo em que os bichos falavam, serve?

- Serve. 

- Bom o povo conta eu re-conto e ponho meu contra ponto. Tinha um tal de Nestor Brandão, vindo lá do Goiás, tinha comprado terras perto do Pé de Galinha, aquele lugar lá trás que passamos, onde estava a vendinha. A estrada antiga ali se dividia em três que nem os dedos do pé de uma galinha - dai o nome.

- Pai! a estória... 

- Bom Seu Nestor não conseguia, por mais que tentasse, seguir normas de etiqueta era cheio de mania, por mais que sua mulher Dona Antúria Carla, bem nascida, lá de São Paulo - brigasse com ele. 

No caso do cafezinho então era um caos. Era só pegar a xicrinha que antes do primeiro gole dava uma sopradinha e displicentemente a rodava.

Só depois de três ou quatro rodadinhas é que levava o café à boca e bebia com um prazer de dar inveja, parecia que estava tomando a bebida dos deuses! 

- Paiê!! Num floreia - conta- que saco! 

- As prensas de Dona Antúria entravam num ouvido e saiam no outro. Mas era só pintar cafezinho na roda que lá vinham as famosas e para Dona Antúria, mal educadas rodadinhas de xícara. 

Num fim de semana, depois de terminada a panha de algodão, seu Nestor e dona Antúria foram convidados por um pessoal do sul - paranaenses eu acho - para um almoço na fazenda deles. Esse pessoal tinha comprado a fazenda há pouco tempo e do modo deles tentava se aproximar, fazer amizade, sabe como? com os vizinhos. 

Da saída de casa até a porteira da outra fazenda a única ladainha que 
seu Nestor escutou de dona Antúria foi a conversa da xicrinha: - Não vai me matar de vergonha Nestor, olha lá, pelo amor de Deus, é melhor nem tomar café se lhe oferecerem. É gente nova e primeira impressão é a que fica - olha lá hein! Foram muito bem recebidos.

A família dos paranaenses (eram mesmo do Paraná e não do Rio Grande ) estava toda lá, parecia almoço de Cooperativa; filhos, netos, genros, noras, agregados, e uma multidão de netos. 

O almoço uma delícia, servido no pátio da casa debaixo de uma mangueira centenária, mesão comprido, comida farta. Depois sobremesa, e como não podia faltar lá veio o tal do cafezinho. 

A prosa girava entorno de cerca, pasto, arroba do boi, quando a dona da casa toda gentil e sorridente o serviu em lindas xicrinhas de porcelana chinesa. 

Dona Antúria, de testa ,não desgrudava os olhos do marido. Seu Nestor pegou a xícara, mediu bem, viu a cara brava da mulher e ficou ali parado com a xícara numa mão e o pires na outra - desta vez não vai ter jeito caramba - pensou. 

Foi ai que, num relance que atrapalhou até dona Antúria, que seu Nestor vendo aquele monte de crianças por perto deu três rodadas largas com a mão da xicrinha e perguntou ao novo vizinho: 

- "Mas me conta ai sô. Esses meninos ai é tudo seu?" E tomou o cafezinho tranquilo tranquilo. Dona Antúria se rendeu... 

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
 
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