19/10/2021 às 08h00min - Atualizada em 19/10/2021 às 08h00min

A guerra dos traçados

ANTÔNIO PEREIRA
Antigamente, a construção de estradas, no Brasil, era casuística. Não havia um plano global como no tempo de Juscelino Kubitschek, sintetizado na frase: “todos os caminhos levam a Brasília”.
                            
São Paulo, que foi sempre pioneiro na área das comunicações, lá pelos meados dos anos 50, do século passado, começou a asfaltar o trecho entre a Capital e Ribeirão Preto de uma estrada que se dirigia ao norte do estado. Logo em seguida, abriu concorrência para a construção de Ribeirão Preto a Igarapava, sem asfalto.
                            
Com Juscelino e seu plano, surgiu, no papel, a BR-050, ligando Limeira, no Estado de São Paulo, a Cristalina, no Estado de Goiás, superpondo-se à rodovia paulista já construída que ia de Ribeirão Preto até Santos. Nessa BR-050 incluía-se o trecho Uberaba a Uberlândia.
                            
Quem se lembra da velha estrada empoeirada que dava a volta por Almeida Campos, cheia de pilõezinhos, costelas, estreita, comprida, sabe porque uma viagem, naquele tempo, entre as duas cidades, durava, na melhor das hipóteses, de três a quatro horas.
                            
Em 1957, chegaram à residência do DER-MG, em Uberlândia, cujo engenheiro chefe era o Dr. Geraldo Pereira da Silva, os primeiros mapas do trecho Uberlândia/Uberaba. O traçado original pretendia aproveitar 50 km da estrada velha com substancial economia. Era interessante para Uberlândia porque o trecho aproveitado estava no rumo de Almeida Campos que era a nossa saída para Belo Horizonte. Já Uberaba não aceitava esse traçado, preferindo um mais curto, porém mais dispendioso dada a exigência de custosas obras de arte.
                            
Para a guerra de preferências que se estabeleceu, os dois traçados ficaram conhecidos como Traçado I (o original) e Traçado II.
                            
Digladiam-se entidades uberabenses e uberlandenses através de correspondências a autoridades, entrevistas à imprensa, reuniões em que debatem energicamente a questão. Envolve-se o DER MG, o DNER, as Associações Comerciais daqui e de lá, as Associações de Engenheiros, de Motoristas etc etc.
                            
Não há propriamente uma divisão entre as cidades. A divisão é entre entidades e, segundo alguns, animadas por interesses particulares. Assim, aqui em Uberlândia, eram favoráveis ao Traçado I a Associação Comercial, os engenheiros se dividiram e os motoristas ficaram com o Traçado II. Lá em Uberaba também houve divisões de posição.
                            
Muita gente se envolveu. Além das organizações já citadas, entraram na briga os Clubes de Serviços, as Lojas Maçônicas, os Sindicatos, os Partidos Políticos, os jornais, as emissoras de rádio e os nossos Deputados Rondon Pacheco, Tubal Vilela e Oscar Moreira.
                            
Houve reuniões e reuniões sempre combativas. A uma delas, em Uberaba, a que compareceram diversos engenheiros rodoviários de vários órgãos públicos, ninguém de Uberlândia foi convidado. Um acinte.
                            
Foi acionado o Conselho Rodoviário Estadual e sua primeira reunião resultou apenas em confusões e agressões verbais.
                            
A Sociedade dos Engenheiros (SEQAU) resolveu promover uma reunião no Liceu de Uberlândia. O engenheiro residente do DER MG em Uberaba era visceralmente contra o Traçado I e seu debate com o Presidente da Associação Comercial e Industrial de Uberlândia (ACIUB), Renato Calcagno, foi violentíssimo.         
                            
Depois de muito bate boca, o processo ficou pronto para decisão e foi enviado ao Presidente do DNER, Dr. Régis Bittencourt, que lavou as mãos e o devolveu, sem solução, ao DER MG.
                            
A perlenga se arrastou ora pendendo para o Traçado I, ora para o Traçado II.
                            
Enquanto isso, outras estradas foram sendo construídas e, na década de 1961, já se ia de Santos a Brasília por asfalto. Em Uberlândia, desviava-se para Monte Alegre e de Monte Alegre desviava-se para Itumbiara. Digo desviava-se por se tratar de trechos de rodovias diferentes. Em todo esse trajeto, só entre Uberaba e Uberlândia a estrada continuava na terra e mal conservada.             
 
Asfaltou-se um trecho da BR-153 que saia do Rio Grande do Sul e ia até Belém do Pará. O referido trecho localizava-se no norte do estado de São Paulo e, em Minas Gerais, passava por Frutal, Prata e trevo de Monte Alegre. Ficava mais fácil ir-se do Sul até a Capital do país por esse novo caminho abandonando-se a velha rota que passava por Uberaba e Uberlândia.
                            
Mas a guerra prosseguiu, independente dos largos prejuízos que ia causando às duas cidades. Por fim, venceu o Traçado II, mais curto e mais caro e que não passava por Almeida Campos. A obra deslanchou na primeira metade da década de 61 e foi inaugurada em 1965, depois de 10 anos de encrenca. Foi a primeira obra rodoviária inaugurada pelo Governo Militar. Compareceram à festa o Presidente da República, Castelo Branco, o Ministro dos Transportes, Juarez Távora, o Governador do Estado, Magalhães Pinto e o Prefeito Municipal de Uberlândia, Raul Pereira de Rezende.
          
 Fontes: A. P. Silva, Atas da ACIUB, João Cândido Pereira e Dr. Luiz Antônio da Rocha e Silva
 

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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