09/10/2021 às 08h00min - Atualizada em 09/10/2021 às 08h00min

A boa Medicina ainda existe!

JOÃO LUCAS O'CONNELL

Nos últimos meses, inúmeras polêmicas importantes foram criadas sobre temas relacionados à saúde. Isto aconteceu não só no Brasil, como também no mundo todo e envolveram políticos, mídia oficial e extraoficial. A prática médica e a atuação médica estiveram em plena evidência nos meios de comunicação, no debate político nacional e no cotidiano das redes sociais. A grande maioria das polêmicas discutidas ao longo dos últimos meses teve relação direta com a pandemia da COVID. As discussões e dúvidas entre médicos e sociedades médicas foram tantas que trouxeram um questionamento duro à tona: A boa Medicina ainda existe?  

 

A pandemia mexeu direta ou indiretamente com a vida de quase todas as pessoas. E todos se sentiram no direito de opinar sobre todas as polêmicas criadas: Isolamento social e “achatar a curva de disseminação da doença” ou não restringir a circulação de pessoas para “salvar a economia”? Usar máscara, ou não? O chamado tratamento precoce para a COVID é eficaz e seguro para combater a doença? As vacinas realmente protegem contra a COVID? Devemos tomar a vacina ou não? Qual vacina seria a melhor? Quantas doses devemos tomar? É necessário um passaporte vacinal para que possamos nos locomover pelo país ou para viagens internacionais? 

 

As dúvidas sobre temas relacionados à pandemia foram (e continuam sendo) muitas, mesmo entre médicos e outros profissionais da área da saúde... Mesmo entre médicos e pesquisadores atuando direta ou indiretamente no combate à pandemia... Foram tantas as dúvidas levantadas que muitos começaram a questionar não só o real poder de resolutividade dos médicos que estavam na linha de frente do combate à pandemia, como também questionaram a Medicina de uma maneira geral... De que lado ficar? A boa Medicina ainda existe? Se ela existe, por que tanta divergência entre os temas que surgiram ao longo dos últimos meses? A Medicina brasileira ainda é confiável? 

 

Vivemos momentos graves e preocupantes com o Sistema de Saúde brasileiro nos últimos dois anos. Houve um aumento significativo dos gastos tanto no sistema público quanto no privado. Muitos pacientes precisaram de apoio hospitalar. Inúmeros precisaram de internações em UTI... Com o custo muito elevado e a menor disponibilidade de leitos em diversos momentos da pandemia, situações lastimáveis foram criadas... Na última semana, surgiram denúncias gravíssimas na chamada CPI da COVID que investiga a atuação do governo federal no combate à COVID. Alguns médicos, de determinada operadora de saúde, denunciaram que eram pressionados por seus chefes (a maioria deles de gestores não médicos) a prescrever o chamado “tratamento precoce” contra a COVID. Outros, fizeram denúncias ainda mais graves: a de que eram constantemente orientados a declarar seus pacientes graves como “não recuperáveis” ou “paliativos”. Denúncias gravíssimas contra gestores de saúde e operadoras que fizeram muitos novamente questionarem: A boa medicina ainda existe? 

 

Desde o início do século passado, muita coisa mudou no exercício da medicina. Junto com a descoberta de novas doenças (e seus mecanismos fisiopatológicos), evoluíram as tecnologias em saúde, a precisão dos exames e métodos diagnósticos, dos medicamentos, das estruturas hospitalares e dos aparelhos e dispositivos utilizados para auxiliar no diagnóstico e no tratamento da maioria das doenças existentes. Mas, uma coisa nunca mudou. A maneira como é feita a boa Medicina. Esta nunca muda. Há algumas décadas, ela tem sido feita do mesmo jeito! A boa medicina é feita com a dedicação do médico para com a arte da profissão. Ela é feita do carinho e cuidado do médico para com seu paciente, sabendo ouvi-lo, confortá-lo, examiná-lo e orientá-lo. É feita com a dedicação do médico para estudar o caso do seu paciente e buscar as melhores soluções para fazer o diagnóstico correto e o tratamento mais adequado. É feita com a obediência à melhor evidência científica disponível ou baseada em experiências pessoais e grupais francamente positivas. A boa medicina é feita com as mãos nuas, com o toque suave, com o olho no olho, com o ouvido aberto e um estetoscópio no pescoço. É feita com gestores preocupados não só com a sustentabilidade financeira de sua empresa, mas também com a qualidade assistencial ao seu cliente e, por que não, com o bem-estar e reconhecimento dos profissionais que rodam a engrenagem... A boa medicina é feita por quem tem tempo. Tempo de escutar, de acolher, de entender e de cuidar. É feita por quem se preocupa menos com o lucro e mais com a saúde do paciente. A boa medicina ainda existe! Mas, ela não está tão mais disponível assim! A boa medicina, infelizmente, precisa ser escolhida por quem a procura. Se você pode, escolha uma boa Medicina para você e sua família. 


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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