25/09/2021 às 08h00min - Atualizada em 25/09/2021 às 08h00min

Exercício físico de alta intensidade. Benéfico ou maléfico?

JOÃO LUCAS O'CONNEL
Segundo a Organização Mundial de Saúde, o grau de atividade física é um dos parâmetros que podemos utilizar para refletir o nível de saúde e a qualidade de vida de um indivíduo e também, a nível coletivo, da sociedade. Inúmeros estudos científicos já identificaram um grande efeito protetor do exercício físico para a manutenção da saúde do indivíduo. Um grande estudo internacional recente, avaliou o grau de atividade física de milhares de pessoas e identificou que a maior proteção é obtida pela prática de 250 minutos semanais de exercícios físicos de intensidade moderada ou pela prática de 150 minutos de atividade física mais intensa.
Entretanto, esta evidência científica inequívoca de benefício é questionada sempre que se noticia a ocorrência de morte súbita em atletas profissionais e amadores durante a realização de exercícios físicos. Mais recentemente, em Uberlândia (MG), a morte de três atletas amadores, todos habituados à prática de exercícios físicos vigorosos, nos causou, ao mesmo tempo, comoção e preocupação.  A prática de exercício físico vigoroso pode, então, ser vista de forma paradoxal... É benéfica para a grande maioria, mas pode ser trágica para alguns...
 
É muito certo que, de maneira geral, a prática de atividade física regular proporciona um efeito protetor na prevenção primária e secundária da morte cardíaca devido à prevenção ao desenvolvimento da aterosclerose, maior controle da pressão arterial e melhora dos níveis de sanguíneos de proteínas inflamatórias, glicose e colesterol. Ocorre também uma melhora importante da elasticidade dos vasos sanguíneos que se tornam mais adaptados às oscilações nos níveis de pressão arterial.
 
Portanto, apesar de que a realização de exercícios físicos leves e moderados devem ser recomendados universalmente, algumas considerações devem ser feitas antes de recomendarmos a realização de exercícios físicos intensos de maneira indiscriminada:
 
- A maioria das mortes súbitas durante atividade física intensa está associada a um problema cardíaco prévio (congênito ou adquirido) ou ao uso de algumas substâncias... Assim, o exercício pode ser formalmente contraindicado em pacientes que apresentam alguns tipos de arritmia ou cardiopatia estrutural, mesmo que ainda assintomáticos. Desta forma, todo indivíduo que planeja iniciar ou aumentar seu nível de intensidade de exercícios deveria passar, obrigatoriamente, por uma avaliação cardiológica mais detalhada.
 
- O uso de algumas substâncias que, a princípio, poderiam até aumentar o rendimento atlético, paradoxalmente, aumentam o risco de morte súbita. Assim, o uso de energéticos, cafeína, taurina, cocaína, testosterona, anabolizantes e outras drogas podem precipitar a ocorrência de graves eventos cardiovasculares, associados ou não ao esforço físico.
 
- Também vale lembrar que, durante o exercício vigoroso, mesmo em atletas bem treinados, a pressão intratorácica aumenta, a frequência cardíaca triplica em relação ao basal e é normal que a pressão arterial sistólica se eleve até níveis de 160 ou 180 mmHg. Deste modo, por mais que a prática da atividade física seja benéfica, o exercício físico intenso pode, muito raramente, causar danos abruptos ao endotélio vascular que podem resultar em dissecções arteriais que, por sua vez, podem levar à ocorrência de infartos, acidentes vasculares cerebrais ou morte súbita.
 
Assim, apesar de ser impossível de se prever ou de se prevenir todos os eventos catastróficos e as mortes súbitas associadas ou não ao exercício físico, é possível diminuir a chance de que elas ocorram. Além de realizar uma boa avaliação cardiológica e de se evitar o uso de substâncias perigosas, é preciso que os fatores de risco que aumentam o risco de desenvolvimento da aterosclerose e do dano vascular estejam bem controlados. Desta forma, é importante que o indivíduo que o atleta não fume, evite o excesso de bebidas alcóolicas, controle seus níveis de pressão arterial, glicose e colesterol basais. Muitas vezes, o uso de medicamentos para atingir estes objetivos precisa ser recomendado, mesmo para atletas…
 
Por fim, é preciso que o indivíduo esteja treinado para o exercício que planeja fazer. Uma preparação física adequada, com treinamento físico progressivo e planejado por um especialista; um plano nutricional individual que inclua a reposição adequada de glicose, água e sais minerais durante o exercício e uma adaptação às condições de clima e temperatura a serem enfrentados durante os desafios atléticos também são fundamentais e podem diminuir a chance da ocorrência de eventos catastróficos.
 

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