27/08/2021 às 08h00min - Atualizada em 27/08/2021 às 08h00min

Canto de anjo

WILLIAM H STUTZ
Recebi gravação improvisada de linda música entoada em acústico banheiro, era "Nascente" de Flávio Venturini e Murilo Antunes.

Me pus de imediato a escrever um conto, um ponto, um verso. O encanto era o porquê de os anjos cantarem.

Versos esvoaçando, ideia definida porém sem rumo, como sempre começo minhas aventuras. Asas aqui penas acolá corpo mais adiante, ia tentando compor o canto dos anjos, tentando desvendar o motivo que os levariam a melódicas composições dignas apenas deles anjos.

Ia avançado, as mãos às vezes frias, a pressa de não perder palavra sequer. É assim, tudo vem muito rápido, pensamento a galope as mãos não acompanham, tento às vezes escrever usando o computador, mais exatamente o word. Cansei dele, péssimo datilógrafo que sou, daquele de dois dedos, ainda sofria abuso da máquina pois a cada erro meu, e olha que são muitos, ele me distraía, condenando/destacando minha ignorância, sublinhando-a de vermelho, ou ainda imensos riscos verdes me dizendo que falta, que passa um espaço, uma sílaba, um ponto. Quem é ele, word, para se sentir no direito de interferir em minhas pretensas colocações poéticas?

Ora bolas Tico-tico é passarinho e não repetição! Isso sem contar que volta e meia, em autofágica, ou letrofágica postura as palavras começam se engolir.
Este letrocídio foi resolvido por meu filho de 12 anos, me ensinou que a função "insert" era a responsável por tamanha barbárie.
Parei de usar.
Tentei uma velha Olivetti Studio 46, presente de minha mãe. Também não deu certo, acabou a fita, não achei mais para comprar, depois quebrou a letra "A" e, convenhamos sem "as" pouco se escreve.

Insisti com o computador, usando agora o bloco de notas. Um fiasco, a última linha que escreveu tinha quase 3 km, esquecia de criar espaços.
Voltei correndo para minha boa e velha Parker 51. Ainda me dou bem com ela, mas a presença do tinteiro triangular me dispersa, me toco a pensar em deliciosos doces de leite de mercearia.

Tento agora com a Bic cristal, adoro ver a tinta se acabando. Tempos atrás comprava-se carga nova, hoje troca-se tudo. Desperdício.
Mas o pior estava por vir.
No meio de meus anjos e cantos, ideias e inspiração, quando estava a transcrever meus horríveis garranchos azuis para o corpo de um e-mail, – aliás, é o melhor lugar para se escrever em um computador, pode acreditar – por cima de meus ombros um alguém querido que estava a me espiar comentou sarcástico/santo:
"Sabia que aquele padre Rossi falou disso em uma música?"

Gota d'água, paciência acabou. Aí também foi demais.
Derreti como neve ao sol do cerrado em janeiro. Rasguei o papel, desliguei o computador. Fui ver novela na televisão. Penitência, eu mereço.

"Todos os anjos a cantar
Glória...Glória...Glória
Glória...Glória...Glória
Glória...Glória...Glória"

Acabou meu dia.


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