26/08/2021 às 08h00min - Atualizada em 26/08/2021 às 08h00min

O galo

IVONE ASSIS
Imagino que quase todas as pessoas conhecem a fábula “O galo e a raposa”, do clássico La Fontaine, mas permito-me ser repetitiva e citar partes dela. Diz a fábula que do alto galho de uma árvore, empoleirado, o galo sentinela vigiava o campo, para proteger contra os perigos diários as galinhas e os pintinhos, que ciscavam o solo, à procura de minhocas. A raposa, espertalhona, que passava por ali, ao vê-los já imaginou o maravilhoso banquete que teria, caso comesse um deles. Marchou rumo ao galo sentinela, para tentar persuadi-lo: - Amigo galo, pode ficar sossegado. Não precisa cantar para avisar às galinhas e aos pintinhos que estou chegando. Eu vim em missão de paz. Desconfiado, o galo perguntou: - O que aconteceu? As raposas sempre foram oposição. Que razão tenho eu para confiar em você?

sperta, a raposa continuou: - Caro amigo, isso é passado! Os bichos agora vivem democraticamente em harmonia. O sistema agora é de total igualdade social, não sabia? Direitos iguais para todos. Leis que favorecem as minorias. Não somos mais inimigos. Para provar que falo a verdade, desça daí e eu lhe darei um grande abraço! Afinal, era a chance que a raposa teria para impedir o galo de voar. O bote seria bem fácil. Mas o galo não era bobo, e desconfiado das intenções da raposa, perguntou-lhe: - Você tem certeza de que os bichos são todos amigos agora? Isso quer dizer que você não tem mais medo dos cães de caça? - Claro que não! - confirmou a raposa. Então o galo disse: - Ainda bem! Porque, daqui de cima, estou avistando uma matilha que vem correndo para cá. Mas, como você mesmo disse, não há perigo, não é mesmo? - O que?! - gritou a raposa, apavorada. - São os seus amigos! Não precisa fugir, cara raposa. Os cães estão vindo para lhe dar um abraço, como esse que você quer me dar. A raposa, tremendo de medo, fugiu em disparada, antes que os cães chegassem.

Esta fábula chama a atenção para as mudanças de comportamento repentinas, com excesso de amizade onde não cabe. Como diz o velho ditado, “quando a esmola é muita, até o santo desconfia”. Agora, vendo a degradação humana e o retrocesso político em tantos idiomas, que vem destruindo boa parte das conquistas mundiais, enquanto milhões de pessoas vão sendo massacradas de todas as formas; ao mesmo tempo, em que observo tantas raposas tentando abraçar os galos que cantam nos terreiros, e alguns pintinhos ciscando descuidados, penso que a fábula do galo e a raposa é bem pertinente.

Incrédula com tanta enganação e sofrimento, fiquei a pensar no poema Conjecturas, de Ademar Inácio da Silva, publicado às páginas 23-24, em sua obra de mesmo nome: “Conjecturas poéticas”, 2014. O poema diz: “Que haverá por detrás desse azul de céu e mar? Diz-me coisas o marulhar das ondas que vêm aqui bater. Espumam, elas, a cerveja que o germano ingere e a braveza dos homens-bomba que escondem suas mulheres. O verde-orla soma-se ao céu e mar no horizonte, concretando a espera humana de fundir-se ao infinito. Em socorro aos gritos das crianças nuas, famintas, pululando no continente que mutila, anjos vigilantes transitam pelas nuvens. Conduzem-nas ao céu e as depositam num cantinho fofo. Dão-lhes de comer e as põem a dormir [...]. Hoje não há camelô, não há boia-fria. Algumas aves circulam contra e a favor da brisa que dobra as palmeiras. [...] E de lá dessa terra, desse mar, desse céu, quem está? Alguém nos aguarda ou quer nos alcançar? Para além do sol que nos dá o colorido, quem a nos ver? A galera uiva e aplaude o gol que estufa as redes. Lá fora, o flanelinha finge que vigia o carro em troca do jantar. Os homens de colarinho álveo tramam a falcatrua para dobrar o povo, defendem interesses, penduram-se no poder. [...] Dezenas de ministérios consomem o tesouro abarrotado de tributos, cujas migalhas chovidas na periferia garantem os votos futuros. [...]”.
Então, pensando em La Fontaine, avisto a raposa espreitando o galo, mas ainda não ouço a matilha se aproximar. Quem sabe cantará o galo?

Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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