07/08/2021 às 08h00min - Atualizada em 07/08/2021 às 08h00min

A geração dos Likes e Deslikes

DÉBORA OTTONI
Foto: Adobe Stock
Nesta semana fui impactada ao ter acesso ao relato da cantora Walkyria Santos, confirmando o suicídio do seu filho de 16 anos, Lucas Santos. O fato ocorreu no dia 03/08. O motivo da morte foram as críticas e comentários negativos no vídeo postado pelo adolescente em rede social. "Tenham cuidado com o que vocês falam, com o que vocês comentam. Vocês podem acabar com a vida de alguém", disse a mãe.
 
A maioria das reportagens pontuava a homofobia como causa do suicídio. Me espanta a maneira como as pessoas são inclinadas a reduzir e simplificar os fatos sem antes fazerem uma análise profunda dos contextos. E esse é um dos maiores motivos de nossa sociedade estar tão adoecida: a ignorância! Ela impede a observação da realidade e tende a sintetizar os fatos ao ponto de não conseguir detectar a causa original das coisas.
 
Não foi a homofobia que matou aquele adolescente, embora os comentários tenham sido de cunho preconceituoso e levantavam questões relacionadas à sexualidade do jovem. Porém, o perigo destas conjecturas está justamente no fato de que quem se envereda por estas narrativas (que acabam virando bandeiras ideológicas), esquece de considerar a causa principal das circunstâncias e o que deveria ser apontado, verdadeiramente, acaba sendo desprezado.
 
O debate deve abordar o que antecede a incapacidade de o adolescente lidar com as mensagens agressivas. Existe uma questão muito mais profunda, relacionada a inaptidão de superar a rejeição, a dor e a frustração. Neste caso, tudo gira em torno da PERSONALIDADE FRAGILIZADA de um adolescente. No relato a mãe conta que o filho fazia terapia, o que já demonstra que o adolescente estava emocionalmente vulnerável.
 
É aí, neste ponto que quero chegar! Um adolescente de personalidade solidificada e madura (entendam, maturidade não tem relação nenhuma com a idade), não tem dificuldades em ser confrontado, independente do teor das afrontas.
 
O que está acontecendo com esta geração de crianças e adolescentes é um assassinato de suas personalidades. São filhos de pais e mães despreparados para educar seres humanos aptos para encarar as hostilidades do mundo real. Se de um lado temos jovens enfraquecidos, do outro, temos pais incompetentes que não sabem o que, quando e como oferecer apoio para prepará-los para a derrota, vitória, sucesso, perdas, morte e abnegação. Pais que estão tão perdidos moralmente que não sabem que valores e princípios devem cultivar através da educação.
 
Pais que são tão emocionalmente instáveis e adoecidos que, ao invés de exercerem os seus papéis, se tornam amiguinhos dos seus filhos, pois não suportam pensar na hipótese de serem rejeitados pelas suas crianças, dessa forma, fazem de tudo para ter o seu afeto, inclusive, não impondo limites. São pais egocêntricos e imaturos, pois o que fazem pelos filhos é para obter algo em troca, seja a admiração, o amor, o carinho. Não percebem que, assim, estão ensinando os seus filhos a condicionar o amor, tornando-os pessoas egoístas e exigentes. Esquecem que educar tem que fazer doer. As nossas crianças precisam saber o que é sacrificar o prazer para crescer. Não é comer tudo o que quer, fazer tudo o que deseja e na hora que pretende.
 
Não são as mensagens, os likes ou deslikes que matam e adoecem os nossos adolescentes. É a nossa geração que está desprotegida emocionalmente e não consegue lidar com um ambiente que proporcione admiração e reprovação.
 
São os pais negligentes que ensinam que a relação de amor é para satisfação do próprio ego, gerando filhos egoístas, fracos e carentes.
 
São as pessoas que se perderam na ignorância e arrogância de abrir mão dos princípios morais e espirituais fundamentais para a educação.
 
Hoje, são estas figuras que compõem o cenário das redes: os ofendidos de um lado da tela e os ofensores por de trás dos teclados. Ambos adoecidos, que não foram forjados para serem resistentes aos likes e deslikes da vida e do mundo.
 

Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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