27/07/2021 às 08h00min - Atualizada em 27/07/2021 às 08h00min

Lembranças Radiofônicas

ANTÔNIO PEREIRA
Naqueles tempos eu ainda gostava muito de rádio. Tinha um receptor Philips portátil que levava para o escritório e para os hotéis, quando viajava. Conhecia muitos radialistas e participava de alguns programas telefonicamente.

A Rádio Bela Vista, do Geraldo Ladeira, quando ainda estava no edifício Tubal Vilela, lá pelos 60, transmitia um programa, conduzido por um locutor chamado Saul (não me lembro do seu sobrenome), no qual se tocavam dois trechos de músicas e o ouvinte telefonava escolhendo qual queria ouvir. Ele sempre respeitava essa escolha. Certa feita, tocou-se um trecho da canção “Minha Casa”, de Joubert de Carvalho, na voz de Sílvio Caldas e, em seguida, o pedaço de um roquinho nacional dos anos sessenta, horrível. A mocinha ligou e pediu a segunda. Pra quê? O Saul virou fera e disse poucas e boas. Nesse dia, desconheceu a escolha da ouvinte e tocou a música melhor, a “Minha Casa”.     
 
Pouco mais de dez anos depois, a música sertaneja dava um passo largo na sua busca de ascensão social. Começaram a aparecer as primeiras gravações com acompanhamento orquestrais, nem sempre bem recebidas pelos amantes da música tradicional.

Era tempo do Alfredinho, do Ary Novaes, do Luizinho, Nhô Cumprido, Nhô Cunha.

Desde os tempos do Hipopota que o Zé do Bode, o saudoso Zé do Bode, mantinha programa de música sertaneja com o qual rodou por várias emissoras, a última, a Rádio Uberlândia.

Lá uma manhã (os programas eram sempre bem cedinho, ou pelas seis da tarde), o Zé do Bode anunciou a “próxima música”. Era uma gravação recente da famosa dupla jovem Chitãozinho e Xororó.

A introdução era feita por uma bela orquestra de cordas. Antes que a dupla começasse a cantar, o Zé do Bode entrou no ar gritando:
- Pode parar! Pode parar!

O disque jóquei, que, naquele tempo era o cara que escolhia os discos do programa e os colocava a tocar, espantou-se, mas tirou o disco.

- Isso não é música sertaneja! Música sertaneja é com viola e sanfona!

E mandou tocar outra.

Ah!... Zé, se você estivesse aqui, ainda, ra, rá, rá, você se matava!


Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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