24/07/2021 às 08h00min - Atualizada em 24/07/2021 às 08h00min

Você não é o que te aconteceu! REAJA!

DÉBORA OTTONI
Arquivo Pessoal
Uma das coisas que fui capaz de assimilar com todo o sofrimento que experimentei desde a minha infância até hoje foi a importância de se compreender que cada circunstância é uma oportunidade de enxergamos o privilégio de estarmos vivos e de podermos ser edificados por intermédio dos seus ensinamentos.

Não foi sempre assim, claro! Porém, através do amadurecimento, aprendi a recontar a minha história usando uma outra lente para enxergar o que me aconteceu. Tudo isso, sem o peso das emoções, carências e desequilíbrio afetivo que me desorientavam naquelas situações.

Quando olho para trás, vejo o quanto desperdicei do meu tempo por esperar que alguém me resgatasse da minha dor, justamente por não saber reconhecer nas circunstâncias a minha capacidade e força para superar os meus problemas.

Na época desta foto, Sarah tinha aproximadamente 4 meses. Morávamos em Porto Seguro com minha mãe, porque o pai da minha filha, meu ex-marido, ainda estava em dúvida em relação a nós.
Então, os meus dias se resumiam em esperar...

Esperava que nós duas pudéssemos ser amadas por alguém que nos ofereceria proteção e segurança.

Esperava que a história de ser mãe solteira e de crescer sem um pai não se repetisse na vida da minha filha.

Nessa época, eu esperava que as pessoas parassem de dizer que "voltei à forma" muito rápido depois do parto, e percebessem que, na verdade, eu estava magra porque a depressão tirou o meu prazer de comer.

Eu esperava que aquela melancolia, que doía até os ossos e me fazia permanecer na cama, não me tomasse mais, para que eu pudesse cuidar do meu bebê.

Eu esperava que alguém pudesse tirar aquela dor insuportável da minha alma.

Eu esperava que, um dia, os choros do bebê na madrugada não se confundissem mais com os meus.

E, por tanto esperar, não percebi que o que me fazia sofrer era colocar esperança em pessoas, coisas e em situações que eu idealizava.

E, esperando, acabei por terceirizar minha alegria, minha vida, minhas escolhas.

Ao esperar pelo imaginado idealizado eu estava negando a minha realidade e, por consequência, por um tempo perdi a capacidade de contemplar a beleza da maternidade.

Por vezes, perdi o olhar doce da minha filha ao amamentá-la, por ter os olhos tomados por lágrimas, por não ver cor nos meus dias e por não aceitar a rejeição que nós duas sofremos.

Eu não tinha o que esperava, mas por tanto lamentar, não percebi que possuía muito mais do que qualquer perfeição fantasiada em mente poderia me proporcionar: eu tinha o privilégio de carregar a VIDA em meus braços, a extensão dos céus neste plano terreno.

O que você espera?

Cuidado! Você pode estar perdendo sua vida enquanto deseja uma outra vida qualquer.

Seja grato com o que você tem, ainda que no caos, no sofrimento e na dor, pois, se ainda há fôlego em seus pulmões, você tem o que amar!

Você não é o que te aconteceu no passado, nem deve esperar para ser o que almeja somente quando se concretizar o que projeta para o futuro. Você deve ser aquilo que sua circunstância te convoca para ser agora!

Seja na doença, na traição, no desamparo, na injustiça, no abandono ou na desesperança.

Está sendo o companheiro que deveria ser para o seu par? Está se dispondo a se entregar como pai, mãe, amigo, aluno, profissional, de acordo com a exigência do momento?

Devemos agir com excelência em cada circunstância, optando por colocar em prática toda a nossa presença, o nosso olhar atento e nossas virtudes, salvando os momentos com nossas ações e, assim, nos salvando ao mesmo tempo.

VOCÊ escolhe QUEM DEVE SER e COMO DEVE AGIR independente do contexto.

Se a sua circunstância te define e exerce sobre você uma força maior do que a sua ação sobre ela, sua personalidade ainda é fraca e inconsistente.

José Ortega y Gasset nos ensina: "Eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela, não me salvo a mim".

Portanto, SEJA e, assim, se salvará!


Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia. 
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