20/07/2021 às 08h00min - Atualizada em 20/07/2021 às 08h00min

Humor é coisa de homem

Por Aline Romani
Neste prelúdio, proponho um questionamento e peço ao caro leitor e leitora para que não o responda de imediato, mas que se pergunte ao final deste texto: existe humor feminino e masculino?

O primeiro dado que chama a atenção é que mulheres são minoria na produção humorística, seja no cinema, na televisão ou nos quadrinhos. Inclusive, há quem diga que mulheres têm menos graça. Portanto, podemos constatar que achamos engraçado o que é produzido, em sua maioria, por homens.

Para entender se há relevância dessa separação por gênero temos antes que definir o que é humor. Para o cartunista Angeli, fazer humor é um exercício crítico, logo, a sua função é alfinetar e levantar discussão. Segundo Carol Ito, jornalista, quadrinista e ilustradora, o papel da charge é apontar absurdos, exagerar situações justamente para que sejam compreendidas pelo público de maneira rápida e direta.

Sendo assim, compreendemos que fazer humor vai além de fazer rir, é também afetar a verdade de alguém, questionar a visão de mundo das pessoas. Não existem apenas dois lados, mas uma construção complexa de visões de mundo a partir do contexto de cada sujeito, que é atravessado pelo gênero, bem como pela condição social, sexualidade e etnia.

Comecei lendo quadrinhos escritos por homens, as personagens que eu admirava, como leitora, eram mulheres desenhadas por eles. Por trás da frase “mulher não tem graça” está escondida uma perspectiva estruturada pelos homens e um modelo de como fazer humor forjado ao longo da história.

Ler mulheres não foi uma decisão, eu precisava mais do que a oportunidade de conhecê-las, saber que elas existiam. Foi necessário rever o que era engraçado para mim: piadas sexistas, misóginas, que zombam dos arquétipos femininos e reforçam estereótipos, em nome de uma pretensa superioridade masculina, não fazem mais sentido para a leitora que me tornei. Hoje, quero debochar de quem nos impõe uma pressão estética cruel, denunciar assédio e rir dos mínimos absurdos que nós mulheres enfrentamos ao sair na rua ou ao entrar em um aplicativo de encontro. Principalmente, porque isso impacta diretamente nossas vidas e nossos corpos. Quando uma mulher faz humor é um ato político. Ocupar espaços que já foram e são extremamente masculinos é político. Nosso corpo é político.

Nos bastidores, feiras e relações mercadológicas, a distinção de gênero fica evidente. Por isso, a importância de mulheres se apoiarem para romper também com essa estrutura que privilegia cartunistas homens, cis, brancos e héteros como regra. Eles não exercem a hegemonia apenas na produção, mas são eles que estão por trás das editoras, dos garimpos de novos cartunistas e têm grande influência em todo o setor.

O coletivo “Mina de HQ” identificou que o número de mulheres produzindo quadrinhos aumentou bastante e, embora não haja dados oficiais para medir essa informação, nos últimos anos mais mulheres se aventuraram na produção de Histórias em Quadrinhos. Acredita-se que um dos fatores que pode ter contribuído para esse aumento significativo é a constante atuação desses coletivos, formados por mulheres, em todos os setores: produção, divulgação e distribuição. Elas atuam não apenas nessas etapas de mercado, como também promovem eventos, incentivam a troca de informações, a convivência e o conhecimento sobre diversos aspectos que envolvem a produção de uma HQ a partir de uma perspectiva mais diversa.

Não existe humor de mulheres feito apenas para mulheres, assim como nós consumimos há tempos o humor feito por homens, e não deixaremos completamente de consumi-lo. No entanto, queremos romper com modelos e padrões patriarcais que se apresentam como a única forma de fazer rir. Queremos implodir as prateleiras separadas para nos embrenhar nos espaços comuns.



Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

 
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