20/07/2021 às 08h00min - Atualizada em 20/07/2021 às 08h00min

Agostinho e Garcia

ANTÔNIO PEREIRA
Eram portugueses. Da Lapa do Lobo, lugarzinho miúdo de Portugal. Famílias que moravam perto e acabaram se misturando. O primeiro a vir para o Brasil foi Manuel Garcia. Depois veio o José Agostinho que escreveu cartas estimulantes para os familiares. Não demorou e vieram João Garcia, João Agostinho e José Garcia. José Agostinho foi trabalhar na fazenda do João Lozi. Era homem de conhecimento técnico prático insuperável. Construiu, com o Lozi, uma máquina de beneficiar arroz, movida por roda d’água, com o beneficiamento realizado por compressão. Foi a primeira máquina da velha Uberabinha. Em 1905, casou-se com Ermelinda Lozi e veio para a cidade residir à rua Atalaia (Tenente Virmondes). Eram os primeiros anos do século XX, mal começava a imigração de portugueses e italianos que instalaram na cidade os primeiros serviços técnicos. O primeiro serviço decente de abastecimento de água feito na cidade, no governo de Alexandre Marquez, em 1909, teve projeto de José Camin (italiano) e mão de obra do José Agostinho (português) e Sílvio Rugani (italiano) auxiliados por Marinho Lozi (italiano). Nesse mesmo ano, Custódio da Costa Pereira inaugurou o Cine Theatro São Pedro, cuja instalação foi feita pelo José Agostinho, que participou também da decoração e da carpintaria. E como não havia quem operasse as máquinas, lá foi o Zé Agostinho passar os filmes. Antes de rodar as fitas, o Agostinho jogava água na tela para que não se queimasse. As máquinas eram movidas a gasolina, não havia energia elétrica. Foi ele quem alinhou, no meio do cerrado, as ruas traçadas pelo engenheiro da Mogiana, dr. James Mellor, criando a Cidade Nova, acima da atual praça Clarimundo Carneiro. Construiu, ainda, vários trechos de estradas, pontes e montou indústrias próprias. Foi um português que deixou sua marca nas atividades técnicas dos princípios do século XX e a quem a cidade deve muito.

José foi o terceiro da família Garcia a chegar. Era 1914. Era casado com Josefina, da família Agostinho, e já tinha alguns filhos. O Alexandrino era o mais velho. Veio sozinho e foi trabalhar na Mogiana, mas logo fixou-se em Uberabinha e foi para a cerealista do José Agostinho, seu cunhado. Juntou algum dinheiro, voltou a Portugal e trouxe sua irmã, Maria, que era casada com o João Agostinho, que já estava aqui. Quando a guerra acabou, voltou a Portugal, e trouxe a família. Instalaram-se num casebre perto de onde foi o Fórum, na praça Sérgio Pacheco, e José Garcia foi ser carroceiro com ponto em frente aos armazéns do Teixeira Costa. Contam que José comprava couro no matadouro para revendê-los ao curtume. Como a rua General Osório era muito íngreme, com péssimo leito, nos pontos mais críticos da subida, José Garcia enfiava o ombro debaixo de uma das traves da carroça e ajudava o animal a romper.

Alexandrino apegou-se ao tio João Agostinho que lhe ensinava de tudo sobre as necessidades técnicas da velha Uberabinha. Aprendeu a dirigir, mecânica, serviço de pedreiro, de marceneiro, de tudo. Foi servente na construção do Colégio Estadual, motorista, ferreiro nas oficinas Crosara, chapa, de tudo. Com sacrifício e colaboração dos filhos, José comprou uma chácara na rua 13 de Maio (Princesa Isabel) e passou a dedicar-se à venda de verduras, que ele e sua esposa, Josefina Agostinho, plantavam. João Agostinho ensinava o Alexandrino a mexer com máquinas beneficiadoras. Acabaram montando uma própria em Nova Esplanada, São Paulo, que não deu certo. Alexandrino e João Agostinho continuaram trabalhando com beneficiadoras e acabaram montando uma, em Uberabinha, no começo da avenida Afonso Pena, onde foi o jornal Correio de Uberlândia. Com sacrifício, José Garcia juntou um dinheirinho e ficou sócio do cunhado João.

Passados alguns anos, com mais alguma economia e um empréstimo do parente João Fernandes, José Garcia comprou a parte do cunhado e admitiu o filho Alexandrino Garcia na sociedade.  Estava lançada a semente de um futuro império econômico. Mas aí, a história já é outra.
 


Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
 
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